[category]
[title]
A estrela de ação fala sobre a vida no mar, usar um ralador de coco como arma para matar e seu retorno a Bollywood

Priyanka Chopra já navegou por diferentes mares em sua extensa carreira, desde Miss Mundo (em 2000) até se tornar estrela de Bollywood e, mais recentemente, ao seu recente renascimento como heroína de ação em Hollywood. Ainda assim, a sua interpretação ensanguentada de uma ex-pirata durona em The Bluff (que chega aqui com o título de O Refúgio) ser o mais pessoal até agora: a de uma mãe que mata para proteger a família.
Em entrevista à Time Out, Chopra relembra de ter lido o roteiro do novo épico pirata do Prime Video quando sua filha ainda era bebê. O primeiro pensamento que veio após a primeira leitura foi: “Até onde eu iria para proteger meus filhos?”
Então, até onde ela iria? “Eu rasgaria alguém ao meio para proteger minha família”, vem a resposta. “Sei que encontraria essa raiva dentro de mim para conseguir fazer isso. Esse foi o meu norte neste filme”, diz. Ela até muda para o hindi (língua indiana) para reforçar: “Mai keher macha dungi” (traduzindo, "Vou causar o caos").
E, nossa, como ela causa.
Espalhando dor
Baseado em uma era real da história marítima e nos piratas violentos da época, O Refúgio traz Chopra como uma saqueadora aposentada chamada Ercell “Bloody Mary” Bodden. O apelido não vem de seu gosto por vodka com suco de tomate: no filme sangrento do roteirista e diretor Frank E Flowers, Chopra distribui pancadas realmente impróprias para menores.
A história acompanha o ameaçador Capitão Connor, vivido por Karl Urban (pensem em Billy Butcher, de The Boys, com cerca de quatro litros de rum em cima), que chega à pacata casa de Ercell nas Ilhas Cayman com sua tripulação. É o fim do século 19 e esses piratas do Caribe tentam manter acesas as brasas da chamada "Era de Ouro da Pirataria". Alguns, como Ercell, buscam uma nova vida. Mas, como manda a tradição dos filmes de ação hollywoodianos, o passado sempre cobra seu preço.
Quando seu filho pequeno é ameaçado, seus instintos mais selvagens retornam com força total. Então, prepare-se para vê-la dizimar homens em uma caverna e esmagar a cabeça de inimigos com uma concha. Afinal, não, isso não é Piratas do Caribe.
Veterana na ação
Ainda que haja espadas e duelos, The Bluff foge do padrão do gênero. A maior parte da ação se passa na ilha, não em navios no alto-mar. Flowers, que é natural das Ilhas Cayman, define o longa como um “thriller de invasão domiciliar” à la Sob o Domínio do Medo (Straw Dogs, de 1971), de Sam Peckinpah.
O roteirista e diretor compara a guerreira vingativa de Chopra ao pistoleiro veterano que virou cowboy em Os imperdoáveis (1992), dirigido e estrelado por Clint Eastwood. “Ela não se orgulha do passado sombrio. Quando o perigo chega, tudo o que ela quer fazer é ir embora. Mas não deixam. Então precisa ser mais visceral”, diz.
Veterana da ação, Chopra já viveu agentes armadas em Quantico e Citadel, além da comédia de ação Heads of State, de 2024. Mas nenhuma dessas experiências exigiu usar um ralador de coco como arma. “Há um plano-sequência em que estou no escuro e mato cinco ou seis pessoas no caminho. Enforco alguém com uma corda. Esfaqueio outro no pescoço.” São esses “detalhes” que garantiram o apelido Bloody Mary.
O arsenal improvisado inclui facas antigas, espingardas e, basicamente, tudo o que estiver à mão. No fundo, porém, o filme segue a tradição dos clássicos de pirata à la Errol Flynn: tudo gira em torno das espadas. “Eu nunca tinha lutado com espadas antes, então precisei treinar diferentes estilos de combate”, diz ela.
Para isso, ela encaixou sessões de lutas com espadas de 20 minutos nos intervalos entre as gravações do longa Chefes de Estado (2025) e contou com apoio do coordenador de dublês de Piratas do Caribe, Rob Alonzo, e da dublê Anisha Gibbs durante todo o processo. As filmagens, seis dias por semana durante dois meses e meio na Austrália, cobraram seu preço no corpo. “Banhos de magnésio, pomada de arnica para os hematomas, antibióticos para cortes e pés em água quente”, lista ela sobre como se recuperava da rotina intensa. Ah, e abraços também. “Eu precisava”, ela ri, contando que sua filha esteve presente nas filmagens, com o marido, o cantor e ator Nick Jonas, para dar aquele apoio moral.
Uma homenagem às Ilhas Cayman
Mantendo-se fiel às suas raízes, Flowers escolheu a ilha mais oriental do arquipélago das Ilhas Cayman, a Cayman Brac, para ser o cenário do filme. Seu imponente penhasco de calcário de 43 metros é conhecido como “The Bluff”, que deu nome ao longa.
Embora locações na Gold Coast australiana substituam o Caribe na tela, o espírito e a história das Ilhas Cayman estão vivos no filme. Até mesmo o ralador de coco de Ercell tem significado na culinária local.
Além disso, a obsessão de Flowers por piratas remonta à sua infância nas ilhas, que tem até um festival em homenagem aos Piratas. "Nós não nos fantasiávamos para o Halloween, mas nos fantasiávamos para a Semana dos Piratas", recorda. "Lembro de subir nos ombros do meu pai para ver os navios entrando, com fogos de artifícios e lutas de espada", completa.
"Ninguém tira Bollywood de mim"
Enquanto Flowers pesquisava cartas de antigos colonizadores das Caymans, Chopra mergulhava na história de piratas mulheres como a britânica Mary Read e a inglesa Grace O'Malley. Ela também visitou as Ilhas Cayman antes do início da produção. O roteiro de Flowers, coescrito com seu colega de faculdade Joe Ballarini, insere a personagem no contexto histórico de trabalhadores e servos contratados levados da Índia ao Caribe.
“A história da minha personagem começa assim, com a família dela sequestrada por comerciantes da Companhia das Índias Orientais”, explica Chopra. “Eu queria entrar nessa narrativa do deslocamento e entender o que se sente quando você perde suas raízes e sua identidade.”
Pode não ter sido intencional, mas há algo profundamente indiano em The Bluff, um perfume de clássicos como Sholay. Esse clássico faroeste indiano de 1975 (e tantos filmes de ação que vieram depois) seguem a fórmula clássica da pequena cidade invadida por bandidos (os “dacoits” ou “daakus”, no contexto indiano) e de forasteiros improváveis que surgem como salvadores.
Chopra não fez essa conexão direta com sua terra natal durante as filmagens. “Eu queria ser fiel à minha personagem, cujas raízes indianas foram apagadas porque ela foi sequestrada e perdeu os pais muito jovem”, conta. Ainda assim, amigos já apontaram traços de Bollywood em algumas reações e closes de Bloody Mary. “O cinema hindi foi onde aprendi meu ofício e tenho muito orgulho disso”, afirma. “Ninguém tira Bollywood de mim.”
Produzido pela dupla da Marvel Joe Russo e Anthony Russo, o filme também conta com a vencedora do Oscar Zoe Saldaña (que chegou a ser cotada para viver Bloody Mary) como produtora. Chopra toparia uma sequência ao lado da estrela de Avatar? “Seria um sonho”, ri. “Zoe é como uma irmã e um ícone do gênero.”
O próximo passo da atriz é o retorno ao cinema indiano com o aguardado "Varanasi", novo projeto de S. S. Rajamouli após o épico em língua telugu "RRR". Mas não espere que ela revele muito por enquanto. “Tenho certeza de que levarei muitas coisas de "The Bluff" para "Varanasi" e para tudo o que fizer daqui para frente”, diz ela sem rodeios.
A questão é: isso incluirá esmagar vilões com outra concha marinha?
The Bluff estreia na Prime Video no dia 25 de Fevereiro de 2026.
Discover Time Out original video