Hitchcock/Truffaut

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4 /5 estrelas
Hitchcock/Truffaut

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Uma lição de cinema estupenda, um pequeno mas instrutivo ensaio sobre Hitchcock a partir do livro-entrevista de Truffaut

Em 1962, Truffaut, então com 30 anos e três filmes já realizados depois de ter sido um dos nomes mais influentes e combativos da influente e combativa revista Cahiers du Cinéma, fez uma entrevista a Hitchcock, na altura com 63 anos e apenas mais três filmes pela frente, que deu depois um livro, Hitchcock/Truffaut, publicado em 1966 e que continua a ser um título obrigatório para quem tenha um interesse minimamente sério pelo cinema.

A entrevista, que durou uma semana e foi feita no escritório de Hitchcock em Hollywood, era uma discussão a pente fino, filme a filme, plano a plano se necessário, e muitas vezes foi, da técnica e dos temas do autor de Psico, na altura também o seu filme mais recente. 

O objectivo último de Truffaut não era tanto fixar num documento definitivo as palavras do seu ídolo a falar de si próprio e da sua filmografia, passo a passo. (A conversa deu 27 horas de gravações e 17 estão facilmente acessíveis online. É pedir direcções ao dr Google.)

Era mostrar ao mundo que Hitchcock, que todos conheciam como um bom realizador de filmes de entretenimento e sem grande substância para além disso, um realizador famoso pelas suas cenas de suspense para as massas indiferenciadas à procura de excitação no escuro do cinema, era afinal um criador genial, com uma obra coerente de décadas, desde o mudo, e uma linguagem rica e pioneira e altamente pessoal.

Esta observação estava, claro, ao serviço do ponto-chave do grupo dos Cahiers, traduzido na expressão “política dos autores” e que dizia que um filme, apesar de ser um trabalho de equipa, é o produto final de uma cabeça só, da visão e das manias de uma única pessoa, o realizador.

Este achado conceptual foi na época uma surpresa até para muitos dos autores visados, que se viam como técnicos e contadores de histórias às ordens dos grandes estúdios, mas nem por isso deixou de mudar para sempre a forma como olhamos para os filmes e os realizadores. Dito de outra maneira, desde os anos 60 que a angústia do espectador no momento da escolha passou de ser “com quem é o filme” para “de quem é o filme”.

A entrevista Hitchcock/Truffaut deu agora, 50 anos depois do livro, um filme com o mesmo nome, um documentário de Kent Jones, que também é critico, estreado em 2015 no festival de Cannes e que esta semana chega às salas portuguesas.

Hitchcock/Truffaut, o filme, tem uma relevância e um encanto especiais para o espectador mais assíduo e estudioso (aquela espécie rara e cómica popularizada como o cinéfilo), ainda que mais pela eficácia do resumo da obra e pela evocação analítica de alguns episódios, nos filmes e na vida de Hitchcock, do que propriamente pela novidade da avaliação geral.

Dito isto, o trabalho de Jones é muito mais do que um produto de cinefilia esotérica e picuinhas - é uma óptima introdução a Hitchcock e àquilo que faz dos filmes de Hitchcock filmes de Hitchcock. Jones, que antes fez documentários sobre Elia Kazan e o produtor Val Lewton, montou aqui uma estrutura que junta o diálogo de Hitchcock e Truffaut e excertos dos filmes. E ainda os comentários de sete realizadores no activo: David Fincher, Richard Linklater, Wes Anderson, Olivier Assayas, Arnaud Desplechin, Kiyoshi Kurosawa e sobretudo Martin Scorsese, que quando se trata da história do cinema tem sempre mais e melhor a dizer do que os outros.

Hitchcock/Truffaut escolhe alguns pontos críticos do inventário de Hitchcock - os “picados”, os planos filmados de cima, do “ponto de vista de Deus”; o pensamento estritamente visual na base de cada filme (não se fala de argumentos nem de diálogos e muito pouco de representação, a não ser para dizer que os actores são peças que Hitchcock movimenta no tabuleiro); o gosto pela manipulação cruel da plateia; o voyeurismo nato e profundo; a sequência do duche de Psico; o desejo claramente necrófilo em Vertigo -, ilustra-os com uma sequência ou uma mini-montagem, e põe por cima as leituras dos convidados.

O efeito, ao fim de quase hora e meia de filme, é o de uma lição estupenda, um pequeno mas instrutivo ensaio sobre Hitchcock, uma porta de entrada que nos tenta a explorarmos a fundo um dos catálogos mais peculiares, e ainda hoje surpreendentemente universal, da arte do século 20. Isto é, para saber mais sobre o homem que sabia demais sobre nós, não haverá disponível síntese melhor do que Hitchcock/Truffaut

Por Nuno Henrique Luz

Publicado:

Detalhes

Detalhes da estreia

Data de estreia
sexta-feira 4 março 2016
Duração
79 minutos

Elenco e equipa

Realização
Kent Jones
Argumento
Kent Jones, Serge Toubiana
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