O Jovem Karl Marx

Filmes, Drama
3 /5 estrelas
O Jovem Karl Marx

A Time Out diz

3 /5 estrelas

Para começar, o contexto. Como início de conversa não podia ser mais convencional. Contudo, saber que estamos em meados do século XIX, que a Europa vive entre crises políticas e guerras e a fome é basto conhecida do povo, dá uma certa perspectiva de como era a vida e de como era preciso encontrar outro caminho. O fim de O Jovem Karl Marx, que brutalmente traz o espectador para a realidade contemporânea, lança uma certa dúvida sobre o caminho escolhido, o que torna ainda mais importante saber a origem das ideias que quiseram e mudaram o mundo, ou seja, como aqui chegámos – e não à sociedade do pão e das rosas.

Deixemo-nos de coisas e não é preciso concordar, porque o marxismo, apesar das suas perversões e desvios (das quais a facção Groucho é a única benigna), foi a mais importante e a mais influente filosofia económica e política do século XX, ainda hoje marcando a agenda ideológica de quase toda a oposição ao capitalismo. E se a coisa não correu lá muito bem nos países que aplicaram os seus princípios económicos, verdade é que sem o marxismo, para pôr isto de maneira chã, práticas como dias de descanso e férias e direito de maternidade; para nem falar em horários que não vão de sol a sol, ou castigos corporais no trabalho, decerto prosseguiriam sem condenação. Sem o marxismo, também é verdade, demonstrando a relação dialéctica, o capitalismo seria diferente, decerto mais bruto, ou melhor, menos habilidoso em através da paciência, do lóbismo, da desregulação e da precariedade fazer os colaboradores esquecerem que são, antes de mais, trabalhadores, e, assim, explorá-los um bocadinho mais.

É mais ou menos aqui que Raoul Peck quer chegar sem jamais o afirmar. À origem. De certo modo como fez no documentário nomeado para o Óscar, I Am Not Your Negro, revivendo a obra e as memórias do escritor James Baldwin sobre os atentados contra e a luta pelos direitos cívicos na América dos anos de 1960, deixando as conclusões para o espectador. Por outras palavras, mostrando como aprendeu bem as lições do cinema de propaganda. Agora, o cineasta haitiano escolheu o mais percorrido e académico género biográfico, talvez como forma de diminuir a carga ideológica que qualquer filme com Karl Marx no título tem, procurando evitar controvérsia como forma de passar a sua mensagem, de preferência a não conversos, criando, a maior parte do tempo, uma atmosfera onde florescem ideias alimentadas por dois homens tão distintos como complementares.

August Diehl e Stefan Konarske vão muito bem nos papéis de Karl Marx e Friedrich Engels, demonstrando a dinâmica relação entre o pensador e o estudioso social adepto da acção; o homem capaz de explodir tanto por ideias como por pura revolta humanista e disposto a sacrificar uma amizade por conta de uma boa discussão, e o outro, filho de capitão da indústria, um pouco aristocrata, que, no entanto, movido pela indignação, nunca, fossem quais fossem as contrariedades, nunca perdeu a fé na revolução a caminho. Ao contrário do costume, o realizador dá muita importância ao papel das mulheres, não permitindo que Jenny von Westphalen (Vicky Krieps) e, principalmente, Mary Burns (Hannah Steele) sejam elementos decorativos, por muito que a sua contribuição (e a da mulher de Engels, militante sufragista e sindical, foi fundamental) para a teoria do comunismo seja reconhecida pelos biógrafos mais sérios, mas geralmente colocada em muito segundo plano. É verdade que as relações entre eles parecem demasiado polidas, para não dizer romantizadas; demasiado perfeitas para a vida de quaisquer casais, e que a narrativa tende a ignorar as tensões e os conflitos, alguns deles conhecidos e sérios. O que sendo redutor deste retrato da juventude do autor de O Capital, é também prova da eficácia do cineasta, capaz de harmonizar diálogos onde sobressai a discussão sobre o argumentário de Feuerbach e Hegel, de certo modo companheiros de jornada na definição do materialismo histórico, ou a contestação dos idealistas, como Proudhon, com acontecimentos do quotidiano mais interessados nas idiossincrasias dos homens por detrás dos ideólogos.

Por Rui Monteiro

 

Por Rui Monteiro

Publicado:

Detalhes

Detalhes da estreia

Classificação
TBC
Data de estreia
sexta-feira 4 maio 2018
Duração
118 minutos

Elenco e equipa

Realização
Raoul Peck
Elenco
August Diehl
Vicky Krieps
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