Sapucaí
Fernando Maia | Sapucaí
Fernando Maia

Enredos em foco: o que esperar dos desfiles do Grupo Especial em 2026

Homenagens, personagens históricos e narrativas potentes marcam o carnaval das escolas da elite na Sapucaí, que desfilam de 15 a 17/02, repetindo o modelo inaugurado no último ano, de três noites

Bruno Calixto
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A Sapucaí de 2026 confirma a força dos enredos como espinha dorsal do espetáculo. Entre homenagens a grandes nomes da música, da literatura, da cultura popular e da história brasileira, as escolas do Grupo Especial apostam majoritariamente em narrativas biográficas para emocionar o público. Ney Matogrosso e Rita Lee são alguns dos nomes homenageados na Avenida, ele pela Imperatriz, ela pela Mocidade. Esse parece o a o dos temas biográficos, das 12 escolas do Grupo Especial, oito desfilam exaltando personagens, desde o presidente Lula (Acadêmicos de Niterói) até o líder religioso Custódio do Bará (Portela), passando pelo Mestre Sacaca (Mangueira).

O formato de três noites, que foi testado no carnaval passado, parece que passou. De 15 a 17/02, as agremiações da elite do carnaval serão as donas da avenida. O templo sagrado do samba (que já faz mais de 40 anos) será uma moção de aplausos para personalidades do mundo artístico, da política e da cultura popular.

Outros que prometem emocionar são o mestre Ciça (Viradouro), a escritora Carolina Maria de Jesus (Unidos da Tijuca) e a carnavalesca Rosa Magalhães (Salgueiro).
A Time Out deu um confere nos enredos e bastidores para sentir o clima e mostrar um pouquinho do que será trazido para a grande festa. Façam suas apostas.

Acadêmicos de Niterói

A estreante no grupo abre a noite com o desafio de permanecer, com o enredo “Do alto do Mulungu surge a esperança: Lula, o operário do Brasil", prometendo desde a infância em Pernambuco, a vinda para São Paulo (num pau-de-arara), a luta sindical e a carreira política. Esperam-se referências ao programa de combate à fome e outras políticas sociais, a marca dos governos do petista. Do passar fome até ser empossado presidente por três vezes em Brasília. Ainda não se sabe se Lula virá para o desfile, Janja está confirmada. Uma imagem que o Brasil tem do presidente na avenida é de 2009, quando ele foi padrinho de casamento de Neguinho da Beija-Flor, em uma cerimônia realizada na Marquês de Sapucaí. Se ele vem esse ano, só vamos saber na hora…

Imperatriz Leopoldinense

Um título sucinto, “Camaleônico”, inspirado na figura performática de Ney Matogrosso, é desta forma que Leandro Vieira deve colocar sua escola na avenida, novamente com a cantora Isa à frente da bateria. Aos 84 anos, o homenageado é um desafio para o carnavalesco, já que não estamos falando de um folião digamos assim. No barracão, as notícias são de que ele está bem atuante, indo aos ensaios e interessado. Para quem levou o título por carnavalizar Maria Bethânia, Vieira sempre leva a expectativa lá para o alto. Sua marca, se assim posso dizer, é a plástica, ele sabe envelopar. Faz sempre carnavais lindos. O Homem com H merece.

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Portela

A trajetória de Custódio Joaquim de Almeida, o príncipe do e do Bará, líder africano que se estabeleceu em Porto Alegre, é tema de “Pampa é terra negra em sua essência”, enredo da Portela, que deu um salto do Milton Nascimento de 2025 para tratar de um símbolo de religiosidade e ancestralidade, a força afro-gaúcha. Destaque para a Rainha da Bateria Bianca Monteiro que completa dez anos de reinado, voltando um pouquinho ao passado, uma das mais exemplares rainhas de carnaval do Rio, usando a coroa para promover inclusão e pensar projetos de acesso à cultura. E também outra mulher de quilate na escola, a vice-presidente Nilce Fran, eterna coordenadora da ala de passistas, além da popular Tia Surica, cuja história se confunde com a da agremiação. Tem macumba no Sul e o apagamento do protagonismo negro na região, de onde veio a ideia do feriado de Palmares. O samba vem empolgando, promete.

Mangueira

Diretamente para o Norte, o carnavalesco Sidnei França enaltece as tradições afro-indígenas com o enredo “Mestre Sacaca do Encanto Tucuju – O Guardião da Amazônia Negra”.  Mestre Sacaca (Raimundo dos Santos Souza) foi curandeiro e defensor dos povos da floresta. A Verde e Rosa afirma evocar sua presença como entidade na Sapucaí, o Xamã Babalaô. Tem tudo para emplacar que a sabedoria das matas passa de geração em geração, por tradições orais. Tem patrocínio do governo do Amapá (R$ 10 milhões), onde começa essa história, de uma Amazônia negra. Fruto de uma articulação entre o presidente da Embratur, Marcelo Freixo, e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que vem de lá. Mas não espere um desfile patrocinado sem graça nem poesia, coisa que a Mangueira jamais seria capaz de fazer. “Engarrafa a cura, vem alumiar / Defuma folha, casca e erva / Saravá”, diz a letra.

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Mocidade 

O samba é recheado de referências às músicas afiadas e bem-humoradas de Rita Lee, e também adapta melodias para o ritmo carnavalesco. “Desbaratina a razão, se joga, meu bem / No céu, no mar, na lua… na Vila Vintém!”. Tem porte… A cantora paulista, que faleceu em 2023, será eternizada rainha do rock brasileiro - mas com o título “A padroeira da liberdade", como ela preferia -  no enredo trabalhado por Renato Lage, que ressaltou: “o desfile não será uma biografia linear, mas uma celebração da ousadia e do legado". Se tem uma escola para fazer esse enredo de uma transgressora e insubordinada é a Mocidade. Não resta dúvida. O refrão tá quente. Esse tal de “roque enrow”.

Beija-Flor

“Não me peça pra calar minha verdade / Pois a nossa liberdade, não depende de papel". Sem nenhuma reparação, o país aboliu a escravidão. Cabe à Beija-Flor assinalar na Sapucaí que ocupar o espaço público é um ato político, uma forma de autorreparação. Com o enredo Bembé, a escola celebra o maior Candomblé de rua do mundo, que reúne todo ano mais de 60 mil pessoas no dia 13 de maio em Santo Amaro (BA). A dupla Jéssica Martin e Nino do Milênio assumiu o posto após a aposentadoria de Neguinho, que se despediu ano passado. Uma nova era diante do microfone, e olha que a responsa é grande, porque a Azul e Branco vem com um sambão - junção de dois concorrentes. “É Dona Canô de todo recanto / Evoco a Baixada de Todos os Santos! / Atabaque ecoou, liberdade que retumba / Isso aqui vai virar macumba!". Dedicada como é, a turma foi até a festa na Bahia estudar minuciosamente os detalhes da celebração. Melhor que isso só quando chega ao fim da melodia, e a gente imagina a comunidade inteira cantando (salve Laíla): “O meu egbé faz valer o seu lugar / Laroyê, Beija-Flor, Alafiá!”

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Viradouro

Bonito ver a Viradouro carnavalizar “Pra cima, Ciça”, em homenagem ao mestre de bateria Moacyr da Silva Pinto. O sambista completa 70 anos de vida e 55 anos do seu primeiro desfile, e vai cruzar a Sapucaí em pleno ofício. Ousado e dono de inovações percussivas, Ciça tem passagens por diversas escolas de samba (Estácio de Sá, Unidos da Tijuca, Acadêmicos do Grande Rio e União da Ilha), aquela figura cativa e emblemática do carnaval carioca. Patrimônio que vai fazer rufar os tambores da poderosa escola de Niterói. O anúncio surpreendeu o mestre, que comandou a bateria da Viradouro de 1999 a 2009 e voltou ao posto que ocupa até hoje em 2019. Um dos maiores sambistas da história será reverenciado da forma mais emocionante possível. Vida longa, Ciça!

Unidos da Tijuca

É preciso cuidado e delicadeza para tratar pessoas que usaram a escrita para vencer a fome. Considerada uma das vozes mais potentes da literatura brasileira, Carolina Maria de Jesus é o enredo da Unidos da Tijuca, que vai até a favela do Canindé, em São Paulo, onde a autora narrava tudo o que via e sentia ao seu redor enquanto catava papéis para dar o que comer aos filhos. Carolina retratou com profundidade a vida nas favelas e as desigualdades sociais. Seu livro mais conhecido, “Quarto de Despejo: Diário de uma Favelada", publicado em 1960, teve grande repercussão no Brasil e no exterior, um estouro de vendas. A ideia, segundo o carnavalesco  Edson Pereira, é coroar Carolina como a grande escritora que viveu numa favela e não o contrário, cercada de livros, recortes e poesias, “num reencontro sensível e emocionante com a sua literatura visceral, verdadeira e comovente". Aplausos para a Tijuca, que tem a única diretora de carnaval do Especial, Elisa Fernandes.

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Paraíso do Tuiuti

“Lonã Ifá Lukumi”, que conta a história dos orixás afro-cubanos, é o desafio de Jack Vasconcelos, que por sinal abre a última noite. Segundo a vertente religiosa, existe uma conexão espiritual entre Cuba e o Brasil, enraizada nos orixás e ancestrais africanos, que se enlaçam cultural e energeticamente há gerações. Ele explica. A obra toda tem caneta dos compositores Luiz Antonio Simas, Cláudio Russo e Gustavo Clarão. Reparem, a Tuiuti terá uma ala formada apenas por pessoas trans e travestis, herança do enredo de 2025, “A história de Xica Manicongo, a primeira travesti não-indígena do Brasil. Guardadas as devidas proporções, parece uma marca da escola, trabalhar com personalidades fortes. Por falar em força, lanço minhas fichas neste trechinho: “Tem mandinga e dendê / hoje o coro vai comer". Não mais do que na Rainha de Bateria Mayara Lima, que chama atenção pela destreza dos passos, ainda por cima é cria da ala de passistas da agremiação de São Cristóvão. Coroada com suor, luta e muito mas muito samba no pé.

Vila Isabel

Se tem um negócio bem feito, a Vila se deu bem ao contratar a dupla de carnavalescos Leonardo Bora e Gabriel Haddad ("Laroyê, Exu"). Pelo menos é o que se espera deste encontro merecido. Só de ver o enredo, já se nota que a escola de Martinho está voltando a se encontrar com si mesma, depois de uma temporada “de conto de fadas”. A nova velha Vila se apresenta na Sapucaí com “Macumbembê, Samborembá: Sonhei que um Sambista Sonhou a África”, a África imaginada pelo artista, pensador e intelectual Heitor dos Prazeres no coração da Pequena África. “Macumba é samba e o samba é macumba” e tem mais para trazer ao público as memórias e os percursos de “um homem do povo”, multiartista, sambista, inventor e sonhador, que pintou e bordou no carnaval. Prazeres foi um dos pioneiros na composição dos sambas e participou da fundação das primeiras escolas de samba do Brasil: um dos criadores da Portela (1923) e da Estação Primeira de Mangueira (1928). Nascido apenas dez anos após a abolição da escravidão no Brasil, transitou entre camadas sociais e manifestações artísticas diversas. Contexto político e social que a agremiação promete revisitar.

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