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Candidata para o show de maio, há oito anos, artista deixava no mundo seu aclamado manifesto político focado na celebração da identidade negra

Em tempos de críticas à Lei Rouanet e ao cinema brasileiro, duas cantoras de axé disputando o hit do do Carnaval e um programa de TV que prende pessoas numa casa com luz fluorescente e serve de palco para criminosos, é importante falar sobre empoderamento, o que de mais caro brota das garras das pessoas vitimadas pela opressão. Sobretudo as mulheres negras.
Pensando nas maiores cantoras que este planeta já ouviu, Ella Fitzgerald, Nina Simone e Billie Holiday, em particular, foram instruídas sobre como devem se vestir e se apresentar para manter o sucesso e atrair um público maior. Isso frequentemente significava que os artistas negros se distanciavam de elementos associados à cultura negra, especialmente aqueles que poderiam ser considerados inapropriados.
Whitney Houston lutou notoriamente contra esse peso. Aconselhada por seu mentor (branco) Clive Davis e outros, ela usava roupas glamorosas, cantava músicas pop em vez de R&B e obedecia a outras normas sociais não escritas que limitavam como ela podia viver sua vida e se expressar.
Michael Jackson, Oprah Winfrey e até o presidente Barack Obama foram todos acusados de se manterem distantes da cultura negra para obterem mais poder e se tornarem mais acessíveis a um público mais amplo e branco.
Mas este cenário sofreu uma reviravolta quando Beyoncé - forte candidata a vir cantar no Rio em maio - , em sua estreia no palco principal do Coachella em 2018, diante de uma plateia majoritariamente branca, cantou “Lift Every Voice”, amplamente considerada o hino nacional negro. Essa música se fundiu com “Formation”, seu próprio hino pró-negro, onde ela fala sobre amar narizes “negros” e se posiciona como uma Bill Gates negra. Ali, ela desamarrou as correntes, e mostrou que poder se faz com autenticidade. A cantora também amplificou as famosas palavras de Malcolm X sobre mulheres negras: “A mulher mais desrespeitada na América é a mulher negra. A pessoa mais desprotegida na América é a mulher negra. A pessoa mais negligenciada na América é a mulher negra.” Essa centralização da feminilidade negra não é o que as pessoas negras foram ensinadas a fazer quando recebem tanto poder e atenção quanto Beyoncé.
Seria razoável supor que Beyoncé apresentaria o show inteiro com um figurino de alta costura glamouroso, como a roupa inspirada em Nefertiti com a qual entrou no palco. Respeitabilidade também é uma questão de imagem: pessoas negras são ensinadas que, quando conquistam poder e estão sob o olhar do público, devem sempre usar suas roupas mais formais e elegantes.
Em vez disso, com milhões de pessoas assistindo no deserto e online, Beyoncé apareceu com shorts jeans azuis desbotados e um moletom com a propaganda de uma universidade historicamente negra fictícia. O sucesso não precisa de um estilo específico; uma pessoa negra não precisa usar um vestido glamouroso ou um terno sob medida para cativar a imaginação do público. Beyoncé mostra que talento e disciplina são suficientes.
Ela segue a tradição de artistas negros como Michael Jackson e Tina Turner, mas é única por imaginar a negritude como algo tão grandioso. Para Beyoncé, frequentar uma universidade historicamente negra é mais do que uma experiência de nicho cobiçada apenas por estudantes e ex-alunos. Em vez disso, é algo tematicamente fundamental e digno de um estádio gigantesco.
Você pode pensar que a promoção que Beyoncé faz das universidades historicamente negras e de suas tradições intelectuais também poderia ter entrado em conflito com suas músicas de teor sexual como “Partition” e “Drunk in Love”?
Elas são ensinadas que um ser intelectual jamais pode ser sexual. Isso é especialmente verdadeiro para pessoas negras, que foram hipersexualizadas na mídia e no cotidiano. Portanto, não seria estranho que ela adaptasse sua sexualidade para se adequar às ideias da sociedade sobre o que significa ser orgulhoso, negro e inteligente.
Não no Coachella. Beyoncé exibiu sua sensualidade com orgulho nessas músicas, fazendo uma declaração política de que uma pessoa pode ser intelectualmente rigorosa e sexualmente expressiva ao mesmo tempo.
Sabemos que Beyoncé sabe cantar e dançar, e que ela trata estádios como se fossem a sala de estar de sua casa. Mas não estava claro se, depois de Clive Davis tê-la chamado de "a primeira-dama da música ", ela se manteria fiel à política da respeitabilidade, especialmente em um palco como o Coachella, onde poderia ter alienado grande parte do público. O caminho mais fácil teria sido a ambiguidade cultural. Mas a excelência reside no risco, e Beyoncé provou ser uma artista interessada principalmente na excelência.
A performance de Beyoncé no Coachella sugere que, à medida que o poder do povo negro cresce, pode-se amplificar intencionalmente a cultura que nos nutriu. Essa política anti-respeitabilidade que Beyoncé trouxe ao palco foi o que transformou sua performance em uma declaração política. Tudo que o Brasil precisa neste ano de eleição.
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