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Uma nova geração de bares cariocas aposta nas mesas espalhadas pela calçada e reabre o debate sobre o balcão, símbolo máximo da boemia

Ele vem das antigas tabernas na França do século XVIII, onde uma barra física (do francês "barre") era instalada para impedir clientes de se servirem diretamente das prateleiras, protegendo o lucro do dono. Depois foi para os Estados Unidos, onde o termo "bar" se popularizou e evoluiu, dando origem aos modernos estabelecimentos de bebidas, especialmente com a vinda de soldados americanos de volta à Europa após a Primeira Guerra Mundial. O balcão funciona como o coração do boteco, é fundamental para a interação direta entre clientes e atendentes, promovendo a socialização. Mais importante: é onde a gente apoia o cotovelo. Tanta teoria serve para saudar este personagem que anda fazendo falta e provocando debates indigestos. No último prêmio Rio Show de Gastronomia, do jornal O Globo, um bar de Copacabana foi eleito o Melhor Boteco pelo evento do O Globo, mas a falta do balcão provocou reações que ainda vibram no salão. Já no Prêmio Veja Rio Comer & Beber, foi o outro ponto da mesma casa, na Praça da Bandeira, que se destacou. Também sem balcão.
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“A gente ia amar ter balcão, era um sonho que eu tinha, a gente até planejou para Copacabana, só que durante a obra optou por uma questão de logística mesmo e de não botar banqueta para uso como balcão. Poderia enrolar a operação", conta Mari Rezende, a proprietária do Bar da Frente, duas vezes campeão em 2025. Mesmo sem balcão.
“Desde quando balcão passou a ser critério que por si só define a qualidade de um boteco?", pontua uma botequeira frequente, que prefere não se identificar.
Tão icônico quanto ponto de encontro da elite intelectual carioca, o boteco e sebo Al Farabi, na Rua do Mercado, nunca teve balcão, desde quando abriu em outro endereço em 2004. É quase uma heresia falar deste endereço e não sugerir o clássico picadinho carioca (R$45/ carne picada na ponta da faca, molho roti, farofa de alho, arroz branco, ovo pochê e banana assada) do chef Rogério Germano. As mesinhas ficam ao ar livre, vizinhas a belos móveis em madeira e estantes de livros usados e um cheiro único de croquete de carne louca com jiló (R$12 - un).
Uma leva de novos botecos parecem seguir na mesma toada. O novo Jurema, na Glória, O Brejo, Flamengo, e o Baixaria, próximo à Praia de Botafogo, com pinta de boteco antigo, com direito a vitrine com picles de legumes variados (R$ 18) e torresmo de rolo (R$ 20).
"A nossa ideia inicial já era de não ter balcão, para aproveitar melhor o espaço interno para mesas", explica Priscila Continentino, do Brejo.
O contrário disso também acontece. O Jobi, Leblon, abriu o Balcão do Jobi porque o do bar original atrapalhava a passagem. O novo Xavier, beirando a charmosa Praça dos Cavalinhos (Xavier de Brito), caprichou na nova roupagem da casa que já existiu ali desde os anos 1930, sobretudo com cuidado redobrado no balcão, que ganhou um tampo de mármore, onde desfilam empadas de queijo e frango (R$ 13, a unidade), um jiló especial no escabeche, com ervas frescas (R$ 17), e a sacanagem do polvo (R$ 49).
Da ala dos mais famosos pelos petiscos, ambiente e tradição, com destaques para o da Adega Pérola (Copacabana) farto de frios, assim como Real Chopp e Gato de Botas repleto de comidinhas, o Bar Urca (Urca) com a mureta e vista, o Bar do Momo (Tijuca) pelas empadas e Toninho Laffargue do lado de trás. Dos mais tradicionais, tem o Café Lamas (o mais antigo da cidade, no Flamengo) e o Armazém Senado, no Centro, o point da vez. Seria injusto não falar do então Bar Luiz, também pela região central, e a estrela que brilha em Benfica, Adonis, um patrimônio cultural do Rio conhecido por sua história e gastronomia de ponta.
Mas uma graça mesmo é o modesto balcãozinho do Bar Madrid, Tijuca, onde o escritor e professor Luiz Antônio Simas vive aconchegado tomando uma, dividindo espaço com a bandeja de copos americanos.
“Um mundo sem balcão é um mundo muito pior", li num parachoque apocalíptico de caminhão. Sem bar, sabemos que é um mundo sem amor ao próximo.
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