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Grupo pernambucano, que brilhou em Cannes com o filme O Agente Secreto, se apresenta na Casa Bloco, no Jockey, no dia 30 deste mês

O frevo que nasce nas ruas do Recife e já rodou o mundo agora tem encontro marcado com o Rio de Janeiro. Pela primeira vez na cidade, o Guerreiros do Passo se apresenta na Casa Bloco, que acontece este mês no Jockey Club Brasileiro, na Gávea. A estreia carioca vem em um momento especial para o grupo, que acaba de completar 20 anos de trajetória e vive uma fase de reconhecimento nacional e internacional.
Criado em Pernambuco, berço do frevo, o Guerreiros do Passo entende essa manifestação como uma cultura viva, construída por muitas mãos e corpos. Para o grupo, levar o frevo ao Rio é ampliar esse diálogo. “O frevo nasceu no Recife, símbolo de identidade cultural de um povo, mas há muito tempo deixou de ser apenas pernambucano. Hoje é cultura brasileira”, afirmam. A apresentação marca não só a chegada do grupo à cidade, mas também a continuidade de uma história que atravessa gerações, ruas e carnavais.
Quem assistir ao espetáculo pode esperar muito mais do que passos virtuosos e coreografias precisas. O trabalho do Guerreiros do Passo parte de um recorte histórico do frevo, com figurinos inspirados nos primeiros passistas, aqueles que ocupavam os becos e ruas dos bairros centrais do Recife, como São José, Santo Antônio e Boa Vista. A ideia é ir além do colorido contemporâneo e mostrar o que está por dentro da dança. “Buscamos revelar a alma do passista, que carrega o espírito ancestral do capoeirista, dos trabalhadores e dos personagens que construíram o frevo nas ruas”, explicam.
O guarda-chuva, elemento fundamental da dança, aparece em sua forma ancestral, aberto, como ferramenta de improviso, malemolência e potência. Em alguns momentos, o público é levado para dentro do carnaval, como no trecho que recria os apertões e encontros caóticos dos foliões no meio da rua. Um furdunço que traduz a energia coletiva do frevo e costuma arrancar reações imediatas da plateia.
Em 2025, o Guerreiros do Passo celebrou 20 anos de história em grande estilo. A participação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, levou o grupo a Cannes e Paris, durante o lançamento internacional da produção. “Fazer o passo no tapete vermelho de Cannes foi um luxo só. Ali não estávamos apenas representando o frevo, mas a cultura de um país”, contam. O filme premiado ampliou a visibilidade do grupo e rendeu convites, homenagens e novos palcos.
De volta ao Brasil, vieram os reconhecimentos oficiais, incluindo uma recepção pela governadora de Pernambuco, Raquel Lira, e um encontro com o presidente Lula, em Brasília, além do título de Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Recife. Um marco que reforça a importância de um trabalho construído ao longo de duas décadas, sempre ligado à rua, ao povo e à memória do frevo.
Agora, é a vez do Rio sentir essa energia de perto. “Vamos levar o frevo da rua, o frevo do povo, e um pouco da nossa própria história”, diz o grupo. A expectativa é alta, e a estreia promete ser daquelas que ficam na memória. “Estamos vibrando, prontos pra viajar e mostrar, na cidade maravilhosa, o frevo dos Guerreiros do Passo”, contam.
O Guerreiros do Passo nasce no Recife como um gesto de preservação, mas também de enfrentamento. Em um cenário em que muitas manifestações populares corriam o risco de virar apenas produto turístico ou espetáculo engessado, o grupo escolheu outro caminho. A missão sempre foi manter o frevo ligado à sua origem, às ruas, ao corpo do povo e à memória coletiva que moldou essa dança ao longo do tempo.
A base do trabalho vem da linhagem do Mestre Nascimento do Passo, um dos maiores nomes do frevo, responsável por sistematizar e ensinar uma dança que, até então, era passada quase exclusivamente de forma oral e prática. A partir dessa herança, o Guerreiros do Passo construiu um método próprio, que une formação, pesquisa histórica e criação artística. Mais do que um grupo de espetáculo, eles se tornaram um espaço de aprendizado e continuidade.
A resistência aparece também na escolha estética. Ao fugir do frevo excessivamente colorido e padronizado, o grupo faz um retorno às origens. Os figurinos evocam os primeiros passistas, trabalhadores e capoeiristas que ocupavam as ruas do Recife antigo. Cada roupa, cada gesto e cada movimento carregam referências de luta, improviso e sobrevivência. O frevo, aqui, é corpo político e memória em movimento.
O guarda-chuva, símbolo máximo da dança, ganha protagonismo não apenas como elemento visual, mas como ferramenta narrativa. Ele remete ao tempo em que o frevo era disputado no corpo a corpo, nos apertões do carnaval de rua, quando dançar também era uma forma de se proteger e afirmar presença. Ao trazer esse elemento de volta à cena, o Guerreiros do Passo reconecta passado e presente, mostrando como o frevo atravessou décadas sem perder sua força.
Ao longo de 20 anos, o grupo ampliou sua atuação para além dos palcos. Circulou por escolas, projetos sociais, festivais e eventos culturais, formando novas gerações de passistas e fortalecendo a cadeia cultural do frevo. O reconhecimento veio com o tempo, mas sempre acompanhado da responsabilidade de representar uma manifestação que é coletiva por natureza.
O recente título de Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Recife não encerra esse percurso. Pelo contrário, reafirma o compromisso do Guerreiros do Passo com a continuidade e a resistência do frevo como expressão viva. Levar esse trabalho ao Rio de Janeiro é mais um capítulo dessa história, um encontro entre cidades que entendem o carnaval como linguagem, identidade e potência cultural.
Serviço:
Quando: 30 de janeiro
Onde: Casa Bloco
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