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Guerreiros do Passo levam o frevo do Recife ao Rio pela primeira vez

Grupo pernambucano, que brilhou em Cannes com o filme O Agente Secreto, se apresenta na Casa Bloco, no Jockey, no dia 30 deste mês

Lívia Breves
Escrito por
Lívia Breves
Editor, Time Out Rio de Janeiro and Brazil
Guerreiros do Passo
André Mantelli
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O frevo que nasce nas ruas do Recife e já rodou o mundo agora tem encontro marcado com o Rio de Janeiro. Pela primeira vez na cidade, o Guerreiros do Passo se apresenta na Casa Bloco, que acontece este mês no Jockey Club Brasileiro, na Gávea. A estreia carioca vem em um momento especial para o grupo, que acaba de completar 20 anos de trajetória e vive uma fase de reconhecimento nacional e internacional.

Criado em Pernambuco, berço do frevo, o Guerreiros do Passo entende essa manifestação como uma cultura viva, construída por muitas mãos e corpos. Para o grupo, levar o frevo ao Rio é ampliar esse diálogo. “O frevo nasceu no Recife, símbolo de identidade cultural de um povo, mas há muito tempo deixou de ser apenas pernambucano. Hoje é cultura brasileira”, afirmam. A apresentação marca não só a chegada do grupo à cidade, mas também a continuidade de uma história que atravessa gerações, ruas e carnavais.

Guerreiros do Passo
Divulgação

Quem assistir ao espetáculo pode esperar muito mais do que passos virtuosos e coreografias precisas. O trabalho do Guerreiros do Passo parte de um recorte histórico do frevo, com figurinos inspirados nos primeiros passistas, aqueles que ocupavam os becos e ruas dos bairros centrais do Recife, como São José, Santo Antônio e Boa Vista. A ideia é ir além do colorido contemporâneo e mostrar o que está por dentro da dança. “Buscamos revelar a alma do passista, que carrega o espírito ancestral do capoeirista, dos trabalhadores e dos personagens que construíram o frevo nas ruas”, explicam.

Guerreiros do Passo
Divulgação

O guarda-chuva, elemento fundamental da dança, aparece em sua forma ancestral, aberto, como ferramenta de improviso, malemolência e potência. Em alguns momentos, o público é levado para dentro do carnaval, como no trecho que recria os apertões e encontros caóticos dos foliões no meio da rua. Um furdunço que traduz a energia coletiva do frevo e costuma arrancar reações imediatas da plateia.

Guerreiros do Passo
Divulgação

Em 2025, o Guerreiros do Passo celebrou 20 anos de história em grande estilo. A participação no filme O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, levou o grupo a Cannes e Paris, durante o lançamento internacional da produção. “Fazer o passo no tapete vermelho de Cannes foi um luxo só. Ali não estávamos apenas representando o frevo, mas a cultura de um país”, contam. O filme premiado ampliou a visibilidade do grupo e rendeu convites, homenagens e novos palcos.

Guerreiros do Passo
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De volta ao Brasil, vieram os reconhecimentos oficiais, incluindo uma recepção pela governadora de Pernambuco, Raquel Lira, e um encontro com o presidente Lula, em Brasília, além do título de Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Recife. Um marco que reforça a importância de um trabalho construído ao longo de duas décadas, sempre ligado à rua, ao povo e à memória do frevo.

Agora, é a vez do Rio sentir essa energia de perto. “Vamos levar o frevo da rua, o frevo do povo, e um pouco da nossa própria história”, diz o grupo. A expectativa é alta, e a estreia promete ser daquelas que ficam na memória. “Estamos vibrando, prontos pra viajar e mostrar, na cidade maravilhosa, o frevo dos Guerreiros do Passo”, contam.

Frevo como resistência: a história dos Guerreiros do Passo

Guerreiros do Passo
André Mantelli

O Guerreiros do Passo nasce no Recife como um gesto de preservação, mas também de enfrentamento. Em um cenário em que muitas manifestações populares corriam o risco de virar apenas produto turístico ou espetáculo engessado, o grupo escolheu outro caminho. A missão sempre foi manter o frevo ligado à sua origem, às ruas, ao corpo do povo e à memória coletiva que moldou essa dança ao longo do tempo.

A base do trabalho vem da linhagem do Mestre Nascimento do Passo, um dos maiores nomes do frevo, responsável por sistematizar e ensinar uma dança que, até então, era passada quase exclusivamente de forma oral e prática. A partir dessa herança, o Guerreiros do Passo construiu um método próprio, que une formação, pesquisa histórica e criação artística. Mais do que um grupo de espetáculo, eles se tornaram um espaço de aprendizado e continuidade.

A resistência aparece também na escolha estética. Ao fugir do frevo excessivamente colorido e padronizado, o grupo faz um retorno às origens. Os figurinos evocam os primeiros passistas, trabalhadores e capoeiristas que ocupavam as ruas do Recife antigo. Cada roupa, cada gesto e cada movimento carregam referências de luta, improviso e sobrevivência. O frevo, aqui, é corpo político e memória em movimento.

Guerreiros do Passo
André Mantelli

O guarda-chuva, símbolo máximo da dança, ganha protagonismo não apenas como elemento visual, mas como ferramenta narrativa. Ele remete ao tempo em que o frevo era disputado no corpo a corpo, nos apertões do carnaval de rua, quando dançar também era uma forma de se proteger e afirmar presença. Ao trazer esse elemento de volta à cena, o Guerreiros do Passo reconecta passado e presente, mostrando como o frevo atravessou décadas sem perder sua força.

Ao longo de 20 anos, o grupo ampliou sua atuação para além dos palcos. Circulou por escolas, projetos sociais, festivais e eventos culturais, formando novas gerações de passistas e fortalecendo a cadeia cultural do frevo. O reconhecimento veio com o tempo, mas sempre acompanhado da responsabilidade de representar uma manifestação que é coletiva por natureza.

O recente título de Patrimônio Cultural Imaterial da cidade do Recife não encerra esse percurso. Pelo contrário, reafirma o compromisso do Guerreiros do Passo com a continuidade e a resistência do frevo como expressão viva. Levar esse trabalho ao Rio de Janeiro é mais um capítulo dessa história, um encontro entre cidades que entendem o carnaval como linguagem, identidade e potência cultural.

Serviço:

Quando: 30 de janeiro
Onde: Casa Bloco

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