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Após quase dez anos, iniciativa criada por Massimo Bottura e Gastromotiva soma 3 milhões de refeições servidas, 350 toneladas de alimentos salvos do desperdício e um legado que vai além da cozinha

Uma notícia que não gostaríamos de dar. O Refettorio Gastromotiva fecha as portas a partir de hoje e encerra um dos capítulos mais emblemáticos da gastronomia social no Brasil. Depois de quase dez anos de portas abertas, encontros e mesas compartilhadas na Lapa, o projeto encerra seu ciclo no formato atual deixando um legado que vai muito além da comida servida.
Criado em 2016 pelo chef italiano Massimo Bottura em parceria com a organização brasileira Gastromotiva, fundada por David Hertz, e com a jornalista Alexandra Forbes, o Refettorio nasceu com uma missão clara: combater o desperdício de alimentos e transformar a gastronomia em ferramenta de inclusão. Foi o único da América do Sul a integrar a rede internacional idealizada por Bottura e Lara Gilmore, que apostaram no Brasil e na potência da cozinha como motor de transformação social.
Os números ajudam a dimensionar o impacto: mais de 3 milhões de refeições servidas, 350 toneladas de alimentos salvos do desperdício, 169 mil pessoas impactadas diretamente. Mais de 450 chefs passaram por aquela cozinha (23 deles estrelados pelo Michelin) cozinhando lado a lado com alunos e voluntários. Ao longo da trajetória, mais de 23 mil voluntários foram mobilizados e uma média de 90 pessoas era atendida por noite no jantar solidário. Mas os próprios idealizadores sempre fizeram questão de dizer que números contam apenas parte da história.
O espaço também se tornou símbolo da cidade. Projetado pelo METRO Arquitetos, o Refettorio virou marco da revitalização da Lapa e referência internacional em arquitetura social. O mesmo escritório responsável pelo novo edifício do Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand ajudou a transformar um prédio histórico em um manifesto de dignidade. Obras de Vik Muniz, dos Irmãos Campana e de Maneco Quinderé reforçavam o lema que guiava o projeto: inclusão também é beleza, dignidade também é estética.
Mais do que um restaurante-escola ou uma cozinha solidária, o Refettorio foi a materialização de uma ideia poderosa: cozinhar junto e comer junto como gesto político e humano. À mesa, somos iguais. Essa frase, repetida ao longo dos anos, sintetiza o espírito do lugar.
O restaurante não funcionará nos próximos dias, mas a Gastromotiva segue viva e novos formatos devem surgir. O ciclo que se encerra agora deixa uma marca profunda na cidade e na história da gastronomia social. Porque, no fim das contas, o que foi construído ali não cabe apenas em estatísticas. Cabe na memória de quem sentou àquela mesa e encontrou algo maior do que um prato de comida: encontrou pertencimento.
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