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Alfredo Lacerda

Alfredo Lacerda

Há oito anos que bitaita sobre as casas de comer de Lisboa e Porto. Escreve como um jornalista, pensa como um cliente, come como um abade. Um dia provou pangolim e sobreviveu.

Articles (6)

Os melhores restaurantes em Alvalade

Os melhores restaurantes em Alvalade

Moderno, tradicional e guloso. Alvalade tem de tudo um pouco, uma caracter√≠stica que tamb√©m se aplica √† oferta gastron√≥mica do bairro. E acredite que √© uma verdadeira volta ao mundo em muitos, muitos pratos. A √Āsia est√° bem representada, em pratos oriundos do Nepal, Jap√£o, √ćndia ou China, mas tamb√©m It√°lia e, claro, Portugal que tem uma das melhores cozinhas do planeta. Mas antes de rumar a um dos bairros mais completos da cidade de Lisboa,¬†comece por picar esta lista com os melhores restaurantes de Alvalade. Bom apetite e boa viagem. Recomendado: Os melhores restaurantes de petiscos em Lisboa

André Cruz. O novo chef do Feitoria vive entre a horta e as abelhas

André Cruz. O novo chef do Feitoria vive entre a horta e as abelhas

Apontado como um dos melhores chefs da sua gera√ß√£o, Jo√£o Rodrigues despediu-se do Feitoria em Abril, sem ter conseguido a t√£o desejada segunda estrela Michelin, que meio mundo gastron√≥mico afirmava merecer. Andr√© Cruz, at√© ent√£o o seu subchefe, foi o escolhido para a sucess√£o e n√£o se p√īs com meias medidas. Em poucos dias, mudou j√° algumas coisas e, mais importante, criou um novo menu, a que chamou Semente ‚Äď h√° um de sete (145‚ā¨) e outro de nove momentos (160‚ā¨), havendo duas vers√Ķes vegetarianas (100‚ā¨/sete momentos, 120‚ā¨/nove). Sabe da exig√™ncia que tem em m√£os e dos holofotes que agora lhe apontam, mas nem por isso vacila. O trabalho, conta, √© tamb√©m de continuidade. O objectivo √© esmiu√ßar ainda mais a rela√ß√£o com os pequenos produtores, um terreno que conhece bem. Tem 27 colmeias, uma horta biol√≥gica e cria√ß√£o de animais. ‚ÄúJamais poderia fugir a uma coisa destas‚ÄĚ, diz √† Time Out.¬† Ricardo Lopes √Č mais f√°cil assumir este cargo por estar em casa?Acho que √© mais dif√≠cil, sinceramente. Acabei por ficar no lugar de uma pessoa que √© altamente respeitada e que, no quadro gastron√≥mico, √© muito influente.¬†√Č um profissional muito exigente e isso eleva um bocadinho a bitola do cargo.¬†E estamos a falar do Feitoria, quem vive aqui todos os dias sabe da exig√™ncia. Esperava ficar como chef executivo?N√£o. Foi de repente.¬† Como √© que se recebe um desafio destes?Foi realmente muito inesperado, mas recebe-se com naturalidade. Senti como uma oportunidade e uma situa√ß√£o normal. Vivi bem esta s

Os melhores restaurantes de peixe em Lisboa

Os melhores restaurantes de peixe em Lisboa

Restaurantes de peixe em Lisboa? A resposta mais imediata talvez seja apontar as mesas √† beira‚ÄĎmar aqui ao lado (e tamb√©m aqui est√£o), mas¬†tamb√©m na cidade se come bom peixe fresco, na¬†grelha ou no tacho. Seja em restaurantes onde as bancas se parecem √†s dos mercados, carregadas de peixes, seja nos mais tradicionais onde¬†os pratos do dia se fazem tamb√©m de peixe. Nestes restaurantes de peixe em Lisboa e nos arredores h√° boas esplanadas (algumas para comer com o p√© na areia), mas acima de tudo peixe sempre fresco.¬† Recomendado:¬†18 novas esplanadas em Lisboa para se por √† fresca ¬†

Prémios Time Out 2021: os vencedores que nos salvaram o ano

Prémios Time Out 2021: os vencedores que nos salvaram o ano

Dickens √© um escritor natal√≠cio e a ele devemos parte do nosso imagin√°rio colectivo para a quadra. A ideia de uma fam√≠lia unida, feliz apesar das adversidades, √© um legado seu. Mas se o convocamos para aqui n√£o √© tanto pelo contributo dado para as celebra√ß√Ķes modernas do Natal, √© mais pelo in√≠cio de uma frase que inscreveu na cultura popular a caligrafia vitoriana: ‚ÄúFoi o melhor dos tempos, foi o pior dos tempos‚ÄĚ. Ao longo deste s√©culo e meio, abundaram oportunidades para o aplicar √†s mais diversas situa√ß√Ķes ‚Äď e 2021 √© uma delas. √Č uma descri√ß√£o rigorosamente resumida do que vivemos este ano. Come√ßou mal, muito, muito mal, e nunca, at√© hoje, deixou de ser assombrado pelo esp√≠rito do Inverno passado. E no entanto melhorou. Melhorou muito. A reabertura das lojas, dos restaurantes, dos bares, das festas e dos festivais ‚Äď da vida, enfim ‚Äď foi num crescendo de entusiasmo e entrega que nos deu a sensa√ß√£o de estarmos a viver o melhor dos tempos. Como na Time Out estamos habituados a deter o olhar no lado positivo das coisas, tamb√©m o faremos para este ano de experi√™ncias polarizadas. √Č hora de fazer o balan√ßo e celebrar quem se destacou nas √°reas que acompanhamos semana ap√≥s semana, dia ap√≥s dia. √Č hora de regressar aos Pr√©mios Time Out, desta feita com 32 categorias. Ora ent√£o, os vencedores s√£o‚Ķ

Comefinamento: Arkhe, a sensação plant-based

Comefinamento: Arkhe, a sensação plant-based

Alejandro Ch√°varro √© um jovem adulto facilmente reconhec√≠vel, sempre de len√ßo ao pesco√ßo, como um dealer de arte com a sala cheia de gatos e um piano de cauda. Natural da Col√īmbia, fez carreira em salas parisienses e brilhou no L‚ÄôAstrance, de Pascal Barbot, um tr√™s estrelas Michelin progressista. Desde 2017 que espalhava a palavra de pequenos produtores de vinhos franceses em restaurantes e lojas da especialidade de Lisboa, atrav√©s da sua empresa Vinhos Livres. Em 2020 voltou √†s salas, mas driblou as expectativas. Em vez de se instalar num dos grandalh√Ķes do fine dining de Lisboa, Ch√°varro tornou-se co-propriet√°rio deste pequeno restaurante de base vegetariana, na zona de Santos, antes propriedade exclusiva do chef brasileiro Jo√£o Ricardo Alves. Isto importa por causa do futuro. Com Ch√°varro, estar√° o Arkhe a aproximar-se do cone de aspira√ß√£o do guia franc√™s? Reza a hist√≥ria que a mudan√ßa para Portugal do chefe de sala e sommelier ocorreu como num desses filmes de amor de Hollywood. H√° quatro anos, foi fazer um retiro de yoga para a √ćndia e a√≠ se apaixonou por uma portuguesa. Desviado para Lisboa, rapidamente foi acolhido pela comunidade local de naturebas (aficionados de vinhos naturais), em franco crescimento, mas nunca se deixou ficar agrilhoado em fac√ß√Ķes. Em Junho de 2019, na minha primeira visita ao Arkhe, comi muito bem. Comi como raramente havia comido num restaurante vegetariano em Portugal ‚Äď acabando mesmo por indicar que alguns dos pratos j√° tinham pinta Michelin.

Comefinamento: Colher Torta, boa comida, boa onda

Comefinamento: Colher Torta, boa comida, boa onda

Por esta altura, j√° todos experiment√°mos a neura do confinamento. Vamos sobrevivendo, mas n√£o h√° como evitar. Esta merda √© fodida.Dizem-me amigos (que eu n√£o sei disso) que uma das coisas mais fodidas √© n√£o foder. Est√°-se sempre com os filhos em cima (maior anti-coiso); ou o parceiro de pantufas perde poderes; ou fica-se assustado com o bicho nos outros ‚Äď nunca se sabe se aqueles peitorais do Tinder n√£o escondem uma insufici√™ncia respirat√≥ria aguda e infecciosa. √Č tramado. Outro grande problema √© a impossibilidade de viajar. N√£o isso de ‚Äúv√° para fora c√° dentro‚ÄĚ, um contrassenso. Viajar, mesmo. Sair. Fazer malas. Ultrapassar fronteiras. Ouvir l√≠nguas. Viajar, mesmo, d√°-nos oxig√©nio, muda-nos a cabe√ßa de assunto. De s√≠tio. De gente. De comida. Ora, n√£o tendo solu√ß√£o para nenhum dos dois constrangimentos, tenho um analg√©sico para o segundo. H√° take-aways em Lisboa que, momentaneamente, nos podem levar at√© longe, mesmo que seja s√≥ por 45 minutos. Esta semana, por exemplo, quando dei por mim estava no vale de Bek√°a, na regi√£o montanhosa de Zahl√©, L√≠bano, chinelo no dedo e um calor bom para refrescar com tabbouleh. A respons√°vel pela viagem foi a Colher Torta, que √© a Ana Le√£o. Radicada no Porto, Ana Le√£o desceu a Lisboa com o segundo confinamento. Sem cozinha pr√≥pria, o amigo e cozinheiro Z√© Paulo Rocha ofereceu-lhe os fog√Ķes d‚ÄôO Velho Eurico, tasca de rapaziada jovem j√° aqui elogiada, para fazer o que gosta. E ela fez. Actualizou o Instagram, p√īs fotos do que ia cozinhando e mont

Listings and reviews (319)

Ceia

Ceia

4 out of 5 stars

Da rua, v√™em-se as portas altas do edif√≠cio do s√©culo XVIII, albergue de turistas milion√°rios. Estamos no Silent Living 1728, hotel onde uma noite custa 1160‚ā¨. L√° dentro, sob um candeeiro gigante, pessoas de copo na m√£o conversando em trios, como numa vernissage de galeria de arte. Ao meu lado, uma mulher n√≥rdica sexagen√°ria de botas da tropa, meias de rede e Rolex; e um homem gadelhudo que tomar√≠amos por roadie dos Rolling Stones, n√£o fossem as sapatilhas de autor.¬† O ambiente intimida, mas o chefe de sala Ivo Cust√≥dio acode e for√ßa as apresenta√ß√Ķes. Tem um estilo extrovertido, latino solto como um percussionista de maracas ‚Äď rabo de cavalo e camisa aberta sob o blazer. ‚ÄúBem-vindo, deixe-me apresentar-lhe as outras pessoas‚ÄĚ. Cumprimento o roadie e a rockeira do Rolex, bem como a administradora de uma produtora de cinema. Da Ucr√Ęnia. ‚ÄúH√° dias, por esta hora, estava a passear o c√£o nas ruas sem luz de Kiev, sem conseguir ver a um metro de dist√Ęncia. Volto para a semana.‚Ä̬† O anfitri√£o gere os tempos, fazendo um compasso de espera para os atrasados e somando hist√≥rias: sobre o edif√≠cio (recupera√ß√£o do arquitecto Manuel Aires Mateus), sobre o vinho Madeira que os comensais bebericam (‚ÄúThomas Jefferson brindou com ele‚ÄĚ), sobre o quadro do nascimento de Jesus que domina a sala, n√£o particularmente minucioso (‚Äúcomprado no mercado aqui ao lado‚ÄĚ), ‚Äď sempre usando a l√≠ngua inglesa (‚Äúporque est√£o aqui italianos, espanh√≥is, alem√£es‚ÄĚ). Sou o √ļnico local entre as 14 pessoas que da√≠ a nada

Malagueta

Malagueta

4 out of 5 stars

O meu amigo Viegas garantiu-me que algures entre Queijas e Barcarena encontraria as melhores costelas su√≠nas de todo o universo. O meu amigo Viegas tem uma certa queda para a hip√©rbole, mas h√° dias fui l√° averiguar.¬† Estava tanto mais interessado quanto cozinho entrecosto assado em casa e, ao longo dos anos, tenho-me debatido com resultados inst√°veis. √Č f√°cil fazer um entrecosto satisfat√≥rio: bastam umas pedrinhas de sal e 90 minutos a 180 ¬ļC, no forno. Mas um entrecosto perfeito requer experi√™ncia, sabedoria, aten√ß√£o aos detalhes.¬† Seria o Malagueta o z√©nite do entrecosto?¬†¬† Antes de me p√īr no carro, pesquisei. Na primeira busca no Google, a foto da fachada mostrava um avan√ßado de lona numa moradia suburbana, com a avalia√ß√£o das ‚Äúreviews‚ÄĚ nos 3,9 pontos.¬† Percebi o rating √† chegada ao local. Ultrapassado o avan√ßado, a entrada parecia uma gruta. O s√≠tio estava escuro e frio, sensa√ß√£o aumentada pela negritude dos azulejos. Ao lado, outra sala, mais agrad√°vel: paredes forradas a madeira e quadros de moinhos holandeses, ambiente campestre, antigo e incoerente, um certo charme fajuto e original, como um idoso em fato de casamento no anivers√°rio do neto.¬† Dito isto, o espa√ßo acaba por ficar na mem√≥ria ou, ent√£o, √© a comida que o eleva. Falemos, pois, de comida. O menu √© curto, mas t√£o importante quanto o que est√° na carta √© o que est√° na vitrina, logo √† entrada. De um lado, v√™em-se morcelas e lingui√ßas, do outro peixes e moluscos ‚ÄĒ tudo para ir √† grelha. Podemos encontrar chocos f

Nonna Goes Crazy

Nonna Goes Crazy

4 out of 5 stars

Fa√ßamos uma abertura √† Jos√© Quit√©rio. O lugar fica perto da Avenida da Liberdade, mas num recanto buc√≥lico como um pelourinho transmontano. Depois de uma escadaria, chega-se ao Largo do Fala S√≥, a caminho do miradouro de S√£o Pedro de Alc√Ęntara. Eu que fui s√≥, e particularmente introspectivo, pus-me a pensar quem seria o Fala S√≥. Seria um performer, seria um louco, seria apenas um solit√°rio? N√£o encontrei respostas na Internet, nem no interior do Nonna. A pequena loja, auto-intitulada ‚Äúo primeiro fast pasta bar em Lisboa‚ÄĚ, √© um s√≠tio m√≠nimo, mas muito social.¬†¬† A hist√≥ria repete-se. Estrangeiros a viver em Portugal, no caso quatro amigos italianos, magicam uma forma de por c√° se sustentarem. Chega a pandemia e abrem um take away, suportado por redes sociais e talento para as massas e para o cool. O neg√≥cio corre melhor do que se esperava e, quando o bicho viral d√° tr√©guas, investem o pouco que t√™m num espa√ßo modesto, onde j√° se senta gente, mas ainda apostado no delivery: chegar, pegar e levar.¬† Eventualmente, a coisa corre melhor do que era esperado. Mesmo servindo a comida em boxes de cart√£o, h√° gente disposta a pr√©-pagar 13‚ā¨ e comer rigatoni in loco, sentadas ao fresco ou mesmo num cantinho apertado l√° dentro, inebriadas com Chianti a copo (sem refer√™ncia da marca, 4,5‚ā¨) e ado√ßadas, no final, a tiramis√Ļ (5,90‚ā¨).¬† Neste dia, havia quatro massas √† escolha, todas com o rigatoni feito com massa fresca na casa. Uma banhada a molho de tomate e creme de burrata, com pist√°chio, bem

O Jacinto

O Jacinto

3 out of 5 stars

H√° uma longa tradi√ß√£o de restaurantes com nome pr√≥prio. O Jacinto pareceu-me um dos melhores. Jacinto √© nome antigo, que remete para uma das personagens mais gastron√≥micas do escritor E√ßa de Queiroz.¬† No livro A Cidade e as Serras, Jacinto redescobre as origens familiares e os prazeres do campo. Depois de uma inf√Ęncia sofisticada em Paris, instala-se na Casa de Tormes, no Douro, onde desperta para as iguarias serranas evocadas pelos seus pais: o cabrito assado, as sopas douradas, a canja de galinha, o leit√£o, o arroz de favas. Um caminho sem retorno.¬† Seria O Jacinto, em Telheiras, esse poiso a cheirar a lenha e tacho, que tanto confortou a personagem de E√ßa? Seria O Jacinto um caminho sem retorno?¬† A verdade √© que √© f√°cil de l√° chegar e tamb√©m f√°cil de l√° sair. Para quem vai na Segunda Circular, corta-se na placa a dizer ‚ÄúRestaurante‚ÄĚ, mal passamos o Est√°dio de Alvalade, e 50 metros √† frente estamos numa praceta pacata, rodeada de vivendas antigas. O Jacinto est√° logo ali, moradia transformada em restaurante, desde 1971.¬† Ao almo√ßo, √© frequente vermos berlindas a estacionar com pessoas de fato e gravata. L√° dentro, percebe-se a interven√ß√£o de decorador, num redesign que era moderninho em 1990 e que agradar√° a executivos sexagen√°rios √† procura de ‚Äúcasas com qualidade‚ÄĚ.¬† Os pre√ßos adequam-se perfeitamente ao registo ‚Äúmete a factura na empresa‚ÄĚ. Nem todos os restaurantes cabem nesse perfil. H√° restaurantes demasiado caros para p√īr a factura na empresa e h√° restaurantes demasiad

Planto

Planto

3 out of 5 stars

As finan√ßas da restaura√ß√£o s√£o um assunto complexo. Lisboa tornou-se uma cidade com muita circula√ß√£o de dinheiro, mas o dinheiro n√£o jorra for√ßosamente nas caixas registadoras dos chefs portugueses. Mesmo que sejam figuras conhecidas, mesmo que apare√ßam na televis√£o e saiam em revistas da especialidade. Ter um restaurante de topo implica uma contabilidade dif√≠cil. Vai da√≠, uma das decis√Ķes dos chefs tem sido abrirem segundos restaurantes. Ou seja, o chef tem a sua casa bandeira, com degusta√ß√Ķes compridas, pratos que parecem quadros e gambas apanhadas √† unha. Mas depois investe em espa√ßos com escala, desenhados para facturar ‚ÄĒ sem a press√£o de guias de pneus, sem o mesmo rigor conceptual, sem receitas com 20 passos e sem legumes apanhados da permacultura nessa manh√£.¬† Foi isso que fez V√≠tor Ad√£o, chef transmontano h√° v√°rios anos estabelecido em Lisboa. Apesar de ter apens 32 anos, V√≠tor j√° rodou por cozinhas de ponta, entre elas as de Rui Paula e de Ljubomir Stanisic, de quem foi o seu bra√ßo direito no grupo 100 Maneiras, entre 2016 e 2018.¬† Depois disso, ainda prestou consultoria na Quinta do Arneiro, at√© que, em 2019, abriu o Plano, restaurante gastron√≥mico na Gra√ßa. O Plano √© a casa bandeira de V√≠tor. √Č a√≠ que ele faz a sua magia e luta pela perfei√ß√£o. Nos bons dias, consegue-se l√° uma coisa rara e dif√≠cil: cozinha de autor, simultaneamente original, depurada e portuguesa.¬† Nada disso tem a ver, todavia, com o assunto desta cr√≠tica. O Planto √© outro bicho. Instalado na Rua

Davvero

Davvero

3 out of 5 stars

H√° muitos anos que a Rua da Artilharia 1 √© a zona dos italianos. La Campania, La Trattoria, Il Mercato, Forno d‚ÄôOro, agora este Davvero. S√£o muitos e foram mais.¬† O meu italiano preferido de Lisboa tamb√©m morou l√°. Chamava-se Mezzaluna e, no seu tempo, algures na mudan√ßa do mil√©nio, era um ninho de pol√≠ticos com mundo, actores com dinheiro e publicit√°rios com coca√≠na.¬† Quando l√° fui pela primeira vez, um rapaz de 20 e poucos anos, n√£o tinha nada disso. Estava a iniciar-me no jornalismo e quem me levou foi S., uma assessora de imprensa arguta, que cedo percebeu que a melhor forma de traficar informa√ß√£o privilegiada com o jovem rep√≥rter seria atrav√©s do est√īmago.¬† N√£o ter√° havido grande proveito jornal√≠stico-pol√≠tico na estrat√©gia, mas a verdade √© que S., mulher de esquerda perfumada, com um fraquinho por restaurantes de direita, haveria de compartilhar outras mesas comigo.¬† Progressivamente, a conversa come√ßou a desviar-se das vicissitudes da governa√ß√£o para as incid√™ncias da colheita anual de trufa em Piemonte e S. tornou-se minha amiga e eu estar-lhe-ei para sempre grato por ter tomado conta dessa factura do Mezzaluna, uns 40‚ā¨ por cabe√ßa, e me ter iniciado em iguarias estrangeiras.¬† Haveria outros italianos razo√°veis em Lisboa, em 2000 (Casanostra ainda em forma, por exemplo). Mas nenhum tinha a energia dada pelo chef Michele Guerrieri. Guerrieri era napolitano e n√£o um empres√°rio tuga deslumbrado com Mil√£o e Veneza. E era um perfeccionista, fazia tudo bem. [Um dos meus livr

Go a Lisboa

Go a Lisboa

4 out of 5 stars

¬† S√°bado, reserva para as 13h00. O restaurante est√° em obras, somos encaminhados para o espa√ßo do bar. √Č uma esplanada protegida com janelas laterais e tecto, com vista para o rio e para a Ponte 25 de Abril. Mas √© uma esplanada. Primeira surpresa.¬† Segunda surpresa. A carta est√° no QR code em cima da mesa baixa, dessas de lounge. E tem rasteira. Parte dela est√° desactivada, toda a parte que se refere a pratos √† carta, mais s√©rios. ‚ÄúS√≥ estamos a trabalhar com buffet‚ÄĚ, diz a empregada de mesa, como se algu√©m pudesse adivinhar tal coisa, quando em nenhum s√≠tio ‚ÄĒ redes sociais, site, app de reservas ‚ÄĒ isso vinha expresso. Coloca-se a d√ļvida de protestar e partir, mas s√≥ protestamos, que somos muitos e temos fome. O buffet tem os cl√°ssicos com um cheirinho a Oriente. Amuado, l√° pe√ßo uma sopa de ab√≥bora e uma shakshuka, hamb√ļrguer para os mi√ļdos, mais croissant com ovos e abacate e uns Benedict com salm√£o.¬† Estamos j√° resignados a apanhar sol na tola, esparramados nos sof√°s e nas almofadas √† la riad de Marraqueche, quando chega o hamb√ļrguer. Antecipo-me √† rapaziada (privil√©gio de cr√≠tico) e mordo o bicho, um bicho alto, com v√°rios andares, cl√°ssico: carne boa, bacon, cebola caramelizada, tomate, maionese de alho. Ui, bom. Ui, bom bom. S√≥ mais uma dentada. Ui, muito bom. Por Goa, Dam√£o e Diu! √Č um excelente hamb√ļrguer em qualquer parte da √ćndia e at√© de Portugal. Eis ent√£o a sopa de ab√≥bora Hokkaido e, caramba, tamb√©m excelente. Um creme sedoso, pur√© de feij√£o l√° metido, um toque de

Luz by Chakall

Luz by Chakall

2 out of 5 stars

Quando pergunto por Chakall, a rapariga fica tensa. ‚ÄúEle n√£o est√°‚ÄĚ, responde, engolindo as palavras, olhos muito abertos. Costuma c√° vir?, prossigo. ‚ÄúN√£o muito‚ÄĚ, atira, enquanto levanta a lou√ßa da mesa. Alguma vez o viu aqui?, insisto, j√° ela arranca apressada para a cozinha.¬† √Äs vezes, duvido da exist√™ncia f√≠sica de Chakall. Nestes dez anos a escrever e a frequentar restaurantes, clubes e comunidades gastron√≥micas em Lisboa, nunca me cruzei com ele.¬† Aparentemente, Chakall existe, mas s√≥ na Internet. Olhando para o seu Instagram, os posts sucedem-se. Faz publicidade a electrodom√©sticos, a um stand de autom√≥veis em segunda m√£o, a uma empresa de janelas e portas.¬† Exemplo de um post de Chakall, o influencer. A foto mostra-o relaxado em casa, de turbante (?), olhando para um computador port√°til, com uma crian√ßa em segundo plano. E diz assim: ‚ÄúApesar de ter saudades dos dias de ver√£o, a aproveitar o sistema ConceptFolding das janelas da @reynaers_portugal que faz com que a minha sala de jantar duplique de espa√ßo, unindo o interior com o terra√ßo, sabe muito bem ter esta incr√≠vel vista nestas tardes frias de nevoeiro enquanto trabalho com a melhor companhia que podia pedir¬†‚ô•‚ÄĚ.¬† O texto parece escrito por um adolescente depois de tr√™s shots de absinto, dois charros e um estalo do Will Smith. Pontua√ß√£o deficiente, erros gramaticais, petas descaradas, confus√£o. Dito isto, quantos ‚Äúgostos‚ÄĚ teve o ‚Äúconte√ļdo‚ÄĚ sobre a marquise de Chakall? Quase 5700. 5700 gostos s√£o n√ļmeros para contas d

Pica-Pau

Pica-Pau

4 out of 5 stars

H√° uma tend√™ncia que devia envergonhar os lisboetas. Entre tantos conceitos originais tontos e projectos decalcados do Soho e de Belleville, de Trastevere e de Ginza, os restaurantes de cozinha portuguesa definham ou s√£o chutados para a periferia como curiosidades patuscas.¬† Turistas e estrangeiros com resid√™ncia fixa encavalitam-se em pizzarias e wine bars, michelins e izakayas, burger joints e cozinhas plant based‚ÄĒ e ningu√©m parece interessado num pastel de bacalhau, numa cabidela, numa arrozada de peixe ou num cozido. √Ä excep√ß√£o de uns quantos portugueses envergonhados, que insistem em honrar a sopa de legumes, o bacalhau com gr√£o e a del√≠cia de nata, escondendo-se em mesas relegadas para os becos da Baixa, a turba anseia √© pela mesma modernidade de Berlim e Londres.¬† A culpa n√£o √© dos turistas, nem dos expats, nem da cozinha portuguesa. A quest√£o √© que os empreendedores do sector, excitados com o mundo cool e posh que viam l√° fora, mandaram a culin√°ria tuga √†s urtigas, desde os anos 2010. Restaram uns quantos templos dourados, como o Solar dos Presuntos e o dos Nunes, ou casas atascadas entretanto despersonalizadas, como o Z√© da Mouraria. Mas restaurantes novos de comidinhas lusas, com uma est√©tica contempor√Ęnea e uma nova energia, contam-se uma meia-d√ļzia deles (vide o Velho Eurico ou o Cacu√©), quase sempre projectos independentes ou unipessoais.¬†¬† Tamb√©m por isto √© de aplaudir o aparecimento do Pica-Pau. Fica no mesmo lugar onde antes viveu o Pesca, com o chef Diogo Nor

Solar dos Presuntos

Solar dos Presuntos

4 out of 5 stars

Estava a ser aquele cliente ma√ßador e caprichoso, o terror do empregado de mesa. J√° tinha querido saber a opini√£o do rapaz sobre os melhores pratos do dia; e se o folhado de lavagante era pr√©-congelado; e se as doses podiam ser todas para partilhar por dois; e se Portugal ia ganhar o Mundial; e se Deus ia descer √† Terra.¬† A tudo, o desgra√ßado respondeu com brio, compet√™ncia, simpatia.¬† At√© que o ins√≥lito aconteceu.¬† Quando ia voltar a servir o vinho, tarefa a que se dedicara a um ritmo perfeito, aconteceu um fen√≥meno raro. No fundo do copo, viam-se umas l√Ęminas granulosas, o tipo de corpo estranho que faria um cliente leigo contestar a bebida e, eventualmente, a factura. Constrangido, o empregado procurou uma justifica√ß√£o r√°pida: ‚ÄúPe√ßo desculpa, parece que o vinho tem a√ß√ļcar residual.‚ÄĚ Ora, vinho com a√ß√ļcar residual pode ser defeito. Mas sucede que o rapaz, por uma vez, estava enganado. O que se via no fundo do copo era, sim, √°cido cristalizado ou cristais de tartarato. Uma coisa boa, frequentemente confundida com uma coisa m√°. Os cristais de tartarato, em vinhos brancos jovens, significam apenas que o vinho est√° isento de emulsionantes e conservantes qu√≠micos. E, de facto, o Quinta dos Termos Reserva Branco, de 2021, soube muito bem, fresco e harmonioso como a Serra da Estrela, regi√£o onde nasce.¬† O rapaz aceitou a justifica√ß√£o, aliviado, e eu dediquei-me novamente ao folhado de lavagante ‚Äď sem sinal de cristais, s√≥ uma mousse cremosa escondida pelas folhas de massa amanteig

Aura Dim Sum

Aura Dim Sum

4 out of 5 stars

Antes da visita, uma irrita√ß√£o. No site do restaurante, onde se faz a reserva, a primeira frase dizia: ‚ÄúO Primeiro Restaurante Dim Sum Artesanal De Lisboa‚ÄĚ. Assim, com mai√ļsculas e tudo. No perfil da p√°gina de Instagram aumentava-se o disparate ‚ÄĒ e em ingl√™s, que √© para turistas e amigos expats compreenderem: ‚ÄúLisbon's first Dim Sum Restaurant‚ÄĚ. Ora, isto ou √© patetice ou √© publicidade enganosa. Restaurantes com dim sum (petiscos chineses) ‚ÄĒ dos bons, dos bem artesanais ‚ÄĒ¬†existem por c√° h√° d√©cadas. Muito antes de hipsters de todo o mundo descobrirem os encantos de abrirem restaurantes na capital de um pa√≠s europeu semi-desenvolvido, j√° havia pelo menos meia-d√ļzia de grandes casas a servir bel√≠ssimos petiscos chineses e dumplings caseiros. ¬† O que ainda n√£o havia em Lisboa, antes do Aura Dim Sum Lab, era outra coisa. O que n√£o havia era um restaurante com um balc√£o encantador e dumplings inspirados no Sudeste Asi√°tico¬†‚Äď tudo envolto num desses enredos modernos que come√ßam nas redes sociais e no e-commerce e acabam em investidores internacionais. √Č isso que √© o Aura Dim Sum.¬† A narrativa, depois, acrescenta o seguinte. √Ä frente do restaurante est√° um casal hispano-brasileiro. Catarina Goya aprendeu o of√≠cio em Londres, tendo tido depois aulas em Singapura. Conheceu o marido e parceiro de neg√≥cio, Jose Luiz Suarez, na ilha de Lanzarote, onde cresceu. Ambos acabariam por estrear-se nos dim sum com um bar de praia, j√° no Brasil, mas a experi√™ncia seria ef√©mera. Em Portugal, de in

Portugália - Belém

Portugália - Belém

3 out of 5 stars

Era s√°bado de sol, hora de ponta para o almo√ßo, e a Portug√°lia de Bel√©m atra√≠a mais gente do que o Padr√£o dos Descobrimentos, ali mesmo em frente. Havia lista para dar o nome √† entrada e uma fila com 30 minutos de espera. Apesar do turismo, a clientela nacional enchia grande parte da casa e parecia atenta √† actualidade. ‚ÄúEle veio c√° esta semana. Ser√° que est√° c√° hoje?‚ÄĚ, comentava um homem para a mulher. ‚ÄúEle‚ÄĚ, j√° se v√™, era Marcelo Rebelo de Sousa. As not√≠cias indicavam que teria ali estado h√° tr√™s dias. A raz√£o principal da visita, de acordo com o Expresso, fora a ausculta√ß√£o ao povo sobre o seu dislate acerca das v√≠timas de pedofilia na Igreja. Nesse dia, o chefe de Estado teria acabado as reuni√Ķes com os partidos, no Pal√°cio de Bel√©m, e depois fora jantar √† Portug√°lia para avaliar como andava a sua popularidade. O jantar ter√° corrido bem (‚ÄúAnsioso por testar o povo (...), consta que Marcelo dormiu mais tranquilo‚ÄĚ, lia-se no artigo). Mas nada fora dito sobre a refei√ß√£o propriamente dita.¬† J√° sentado √† mesa, tentei inquirir os empregados sobre o assunto ‚Äď sem sucesso. √Č dif√≠cil conseguirem-se dez segundos, que seja, da sua aten√ß√£o. Aceleram entre as mesas, atarantados e fechados nas suas olheiras. S√≥ quando chegou a altura do pedido, meti uma bucha: ‚ÄúQueria o mesmo que o Presidente da Rep√ļblica costuma comer, por favor.‚ÄĚ O homem ‚Äď s√≥ vi empregados-homens ‚Äď ficou surpreendido, mas teve presen√ßa de esp√≠rito. ‚ÄúUm bife da vazia e meia imperial. √Č isso?‚ÄĚ, perguntou, galhofeiro, a

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Comefinamento: Go Juu

Comefinamento: Go Juu

O Go Juu come√ßou como um clube de sushi para saudosos de Takashi Yoshitake e do seu Aya, restaurante de que √© orgulhoso herdeiro no menu e na escola. Mas, em dias fracos, deixavam os ignaros que n√£o haviam sido tocados pelos niguiris do mestre l√° ir respigar o chutoro, eventualmente num lugar ao balc√£o √† ter√ßa-feira, afortunadamente numa desist√™ncia ao fim-de-semana. Fui l√° algumas vezes, mesmo n√£o sendo membro do clube ‚Äď e ainda que tenha comido no Aya (ah, injusti√ßa!). √Ä frente do balc√£o estava ‚Äď e est√° ‚Äď o chef Fagner Buzinhani, com quem conversava sobre a √©poca do ouri√ßo e a matura√ß√£o do atum. Fagner era de uma sabedoria serena, ao contr√°rio de certos s√≥cios, pseudo-especialistas em fine dining e em baboseiras de gourmet novo-rico que fariam Yoshitake bolsar. √Ä parte a parvo√≠ce do pseudo-clube, tudo o resto era maravilhoso no Go Juu. Comi l√° sempre bem, sempre peixe fresqu√≠ssimo, sushi cl√°ssico sem atalhos, peixe pescado com anzol por m√£os de bordadeira. De topo, igualmente, a cozinha de quentes, tradicional e diversificada. Lisboa n√£o ter√° melhor, ainda hoje, se descontarmos s√≠tios com pre√ßos acima de 60 euros por cabe√ßa. Mas, pronto, havia o clube e isso aborrecia-me. Havia o clube e por causa disso n√£o ia l√° h√° algum tempo. At√© que bateu de novo aquele desejo por peixe cru. Comecei a sonhar com fatias de dourada, ros√°ceas de pregado e arroz glutinoso. Era preciso fazer alguma coisa. A quest√£o colocou-se: voltar ou n√£o voltar? Voltar. De resto, o suposto clubismo estari

Comefinamento: Izcalli

Comefinamento: Izcalli

Como se monta um restaurante de chef num saquinho de take away sem obrigar o cliente a ir para o fog√£o? N√£o monta. Para j√°, n√£o monta.√Ä segunda clausura for√ßada da restaura√ß√£o portuguesa, parece evidente que comida de chef, comida com tempos de cozedura precisos, comida de sabor e de est√©tica, n√£o cai na mesa das nossas casas directamente das m√£os do estafeta. Comida de chef exige trabalhos, mesmo que m√≠nimos.No caso do Izcalli, h√° pratos em que √© preciso cozinhar ou montar quatro ou cinco elementos. Uma encomenda para uma fam√≠lia grande, com entrada, dois principais e sobremesa, pode chegar aos 15 ingredientes, √†s 15 caixinhas e saquinhos de v√°cuo e frasquinhos. Aos 15 procedimentos.Facilita, por isso, que √† frente de um take away destes esteja uma cabe√ßa habituada ao c√°lculo e √† log√≠stica. E √© isso mesmo que acontece com Ivo Tavares. Ivo Tavares quase foi inform√°tico, quase tirou matem√°tica aplicada, quase foi chef Michelin, mas acabou a montar um balc√£o para seis pessoas de alta comida mexicana em Alc√Ęntara, com a extraordin√°ria Paola Arango, uma ideia que parecia uma impossibilidade financeira e uma experi√™ncia fugaz mas se tornou numa refer√™ncia gastron√≥mica incontorn√°vel de Lisboa com tr√™s anos de vida.√Č a cabe√ßa meticulosa de Ivo que nos salva do p√Ęnico quando vemos a encomenda que ele pr√≥prio nos vem entregar a casa. A encomenda n√£o parece um take away, parece um armaz√©m da DHL. Basta olhar para a carga para percebermos que vai ser preciso montar uma mise en place amp

Comefinamento: Essencial

Comefinamento: Essencial

Se o jantar inclui pithivier, sei quem vou desafiar.‚ÄúViva, hoje temos pithivier. Quer vir c√° jantar a casa?‚ÄĚHabituado √† austeridade da culin√°ria duriense, o sogro contrap√īs, do outro lado da linha, desconfiado e r√≠spido. "Pithivier? O que √© pithivier?"Procurei simplificar, recorrendo √† sem√Ęntica transmontana. ‚Äú√Č uma empada gr√°vida de g√©meos que gosta muito de manteiga. Est√° a ver o chausson de ma√ß√£? Imagine um chausson, mas em vez da ma√ß√£ tem fais√£o trufado l√° dentro.‚ÄĚ‚ÄúChausson! A que horas?‚ÄĚ√Äs 18.15 tocou √† porta Daniel Silva. Daniel Silva √© o homem da sala do Essencial. Estudioso de vinhos de Portugal e do mundo, entusiasta da identidade e do terroir, costumava pairar delicadamente de mesa em mesa, sem se impor mas dispon√≠vel para falar se o quis√©ssemos ouvir.Nesta circunst√Ęncia, Daniel limitou-se a entregar o saco de papel kraft com o Menu 4 pratos (duas entradas + um prato principal + uma sobremesa = 50‚ā¨ + 5‚ā¨ de entrega).Remeteu explica√ß√Ķes sobre finaliza√ß√Ķes para um cart√£ozinho e retirou-se com covidesco bom senso.Pus logo a mesa de acordo com os tempos, cada um sentado numa ponta, como fariam os aristocratas franceses do s√©culo XVII da comuna de Pithiviers, na cidade de Orl√©ans, quando jantavam com suas donzelas. Abri as janelas contra o bicho mau e tratei de torrar p√£o. O sogro adora p√£o e presumi que iria precisar dele. O menu daria para um est√īmago e meio, ou seja, daria para o sogro.Quando ele chegou, eu estava a estudar o cart√£ozinho e a dispor as caixinhas. Duas e

Comefinamento: Zunzum Gastrobar

Comefinamento: Zunzum Gastrobar

A moda do take-away tem mais coisas m√°s do que boas. Mas h√° uma que √© not√°vel. √Č que, nalguns casos, ajuda-nos a perceber como funcionam as cozinhas de chef. Com o take-away, mesmo longe das cozinhas profissionais, podemos ficar a saber como se faz o nosso prato preferido do restaurante.Explico. Aqui h√° umas semanas, escrevi sobre um arroz de bivalves que comi no ZunZum, da chef Marlene Vieira. Foi nesses idos meses de 2020 em que pod√≠amos jantar numa mesa que n√£o a da nossa sala. Na altura, parti a cabe√ßa por causa do prato. Qual seria o segredo? Como se fazia aquilo? Como se conseguia aquela textura sedosa?As respostas entraram-me pela casa h√° dias. Num saquinho de papel com o logotipo da chef Marlene Vieira, vinha uma s√©rie de produtos embalados a v√°cuo ‚Äď nada mais nada menos do que os ingredientes do arroz do ZunZum.Ao consultar o menu do take-away, no site do restaurante, ao lado da carta de pratos prontos a comer, vi uma s√©rie de propostas para finalizar em casa. Entre elas estava a do arroz de berbig√£o √† Bulh√£o Pato, com tataki de espadarte rosa. Embora renomeado, adivinhava que a ess√™ncia seria a mesma do tal arroz que me deslumbraram umas semanas antes.Enquanto o resto da fam√≠lia atacava as entradas do repasto ‚ÄĒ pataniscas, empada (manteigosa) do cozido, asinhas de frango fritas ‚ÄĒ, dei por mim a ler as instru√ß√Ķes de confec√ß√£o como se fosse a sebenta do exame de Matem√°tica do 12¬ļ ano. Felizmente, n√£o havia n√ļmeros. Era s√≥ ‚Äúdeite isto, depois aquilo, por fim aqueloutro

Comefinamento: Tratto by Trattoria

Comefinamento: Tratto by Trattoria

As massas italianas t√™m um ponto de cozedura preciso, s√£o seres sens√≠veis e delicados. Fech√°-las dentro de uma mala t√©rmica √†s costas de um indiv√≠duo que se julga o Miguel Oliveira das PCX √© como p√īr um prato de sopa no programa de secagem extra da m√°quina de secar. As hip√≥teses de chegar tudo esbardalhado s√£o imensas e incontorn√°veis.Em todo o caso, √© bom podermos comer pasta fresca no lar. Mesmo que n√£o fique al dente, no ponto perfeito, h√° um momento em que o corpo pede hidratos de carbono e pecorino e molho de tomate ‚Äď e n√≥s devemos agradecer a quem arrisca levar a casa o que n√≥s pedimos, mesmo se o que n√≥s pedimos √© um absurdo culin√°rio.H√°, ali√°s, v√°rios absurdos culin√°rios do take away que s√£o muito populares. Talvez o exemplo mais not√≥rio disso seja tamb√©m de origem italiana: a pizza. A pizza, por defini√ß√£o uma rodela de p√£o assado coberta com queijo e coisas, quando fechada em cart√£o, fica suada e mole como uma fita de cabe√ßa depois de uma partida de squash. Pior do que massa de pizza cozida, suada e mole, s√≥ queijo de pizza cozido, suado e mole.E ainda assim as pessoas pedem muitas pizzas ao domic√≠lio. E ainda assim as pessoas pedem muitas massas ao domic√≠lio. Porque as pessoas s√£o absurdas e as pessoas t√™m fome. E os restaurantes respeitam isso. Uma salva de palmas.Neste Tratto by La Trattoria, bra√ßo da comida para fora do La Trattoria, anci√£o restaurante italiano da Rua da Artilharia, activado para take away em Junho do Ano 1 d.P. (depois da Pandemia), os pratos di

Comer em tempo de Covid: A Trempe

Comer em tempo de Covid: A Trempe

Quando Lisboa ainda n√£o tinha restaurantes com mobili√°rio n√≥rdico e bancos Chesterfield, houve uma tend√™ncia de fazer restaurantes com telheiros interiores. O telheiro interior era uma forma de dar um ambiente de casinha rural a um restaurante encarcerado num pr√©dio urbano de Lisboa e n√£o s√≥.Sou f√£ de restaurantes com telheiros interiores e colecciono-os. Os telheiros interiores, com as suas telhas a bordejarem a cozinha e a entrarem pela sala, costumam ser um clich√© kitsch e um ve√≠culo de alentejanice. Entra-se num restaurante com telheiro em Campo de Ourique e, de repente, est√°-se num tasco de casario em banda algures no interior do distrito de Beja.No caso de A Trempe, estamos perante um duplo telheiro: um exterior, cravado na fachada do pr√©dio, e um interior. Duplamente kitsch, duplamente rural. Viva o telheiro.J√° c√° tinha feito tr√™s refei√ß√Ķes no passado. A sensa√ß√£o, √† entrada, foi a mesma. Eis uma casinha fofa, uma cozinha de bem-comer familiar, que resiste ao modernismo culin√°rio do bairro e das suas gentes. Decora√ß√£o de tijoleira e as famosas trempes, nome dado aos aros com tr√™s pernas sobre as lareiras, onde assentam (assentavam) as panelas de ferro.Na mesa, foram logo postos petiscos (sem terem sido pedidos). Salsich√£o de porco preto cortado finamente; torresmos do rissol fritos no dia, chamucinhas de carne sem picante (e sem hist√≥ria); p√£o tipo alentejano fatiado; e uma saladinha mista. A carta nem apareceu, que os pratos do dia expostos eram apetitosos e bastavam,

Comer em tempo de Covid: Lés-a-Lés

Comer em tempo de Covid: Lés-a-Lés

Estava ainda a maldizer o p√£o com excesso de fermento industrial e esfarelado, porventura conservado no frio, quando cai na mesa o melhor rissol de camar√£o de que me lembro. Tudo perfeito: massa da grossa bem frita, o recheio um creme sedoso e pisc√≠cola a lembrar os riss√≥is de peixe de antigamente, l√° pelo meio tro√ßos rijos do marisco, tudo quente a deitar fumo. Se tivesse que eleger comida de conforto, os fritos estariam no topo das prefer√™ncias, sobretudo os past√©is. Est√£o fora de moda, ningu√©m os vai ver na boca de um influencer, mas s√£o miminhos de avozinha de escumadeira na m√£o, s√£o manta no colo e mesa com flores estampadas na toalha, s√£o cozinha com braseiro e rel√≥gio de cuco. ‚ÄúOh l√°, l√°‚ÄĚ, atirou √†s tantas o meu amigo, j√° abalan√ßado para os past√©is de massa tenra, acabados de pousar: folhados, pouco can√≥nicos na subst√Ęncia de carne picada atomatada ‚Äď muito bons, tamb√©m. A cabidela veio confirmar o talento do s√≠tio, projecto de Frederico Pombares e Tito Serradas Duarte, propriet√°rio do Mariscador, restaurante que residiu neste mesmo avan√ßado do Campo Pequeno (como ainda atestam os talheres). Os bagos de arroz gordos e gostosos, o molho aveludado e gomoso ao jeito do risoto, tudo no ponto, da cozedura ao vinagre, da do√ßura ao sal. A fasquia baixou com o entrecosto. Falhar um entrecosto √© dif√≠cil. Basta tempo a cozinhar e temos comida boa. Este, longe de estar falhado, n√£o era brilhante, expectativa leg√≠tima num restaurante que promete o melhor da gastronomia portuguesa.

Comer em tempo de Covid: Matt√ę

Comer em tempo de Covid: Matt√ę

Andava h√° muito para fazer esta prova: mostrar aos meus filhos adolescentes que o salm√£o que eles comem enrolado em arroz com queijo creme nos buffets chineses da cidade n√£o √© sushi. Fiz-lhes muitas vezes a conversa. Sushi √© algo delicado, complexo, elegante. √Č preciso saber do melhor peixe, da √©poca dele, do corte perfeito, da temperatura. √Č preciso saber do arroz. A tudo isso eles respondiam com a arma do costume: ‚ÄúPai, √©s um snob preconceituoso. Devias provar os rolinhos com maionese do Yokohama.‚ÄĚ Eis ent√£o o momento da verdade. Antes de fazer o pedido, fui ao balc√£o olhar os peixes. Tudo com excelente aspecto. Lombos brilhantes e gordos. Na ponta, um enorme peda√ßo de chu-toro de atum rabilho, ligeiramente marmoreado. ‚ÄúEste √© que os vai convencer.‚ÄĚ O processo foi gradual. Primeiro, veio o hamachi de l√≠rio. Os mi√ļdos rejubilaram logo com as l√Ęminas marinadas em molho ponzu, yuzu e √≥leo de trufa ‚Äď cl√°ssico guloso que o chef Habner Gomes trouxe do Hikidashi, restaurante de Campo de Ourique onde esteve antes de aqui residir. Depois, subiu-se de n√≠vel para um sashimi cl√°ssico: atum, dourada, pregado e salm√£o. Peixes fresqu√≠ssimos, cortados na perfei√ß√£o. ‚ÄúO pregado √© muito bom‚ÄĚ, disse a mais velha. ‚ÄúEste salm√£o n√£o tem nada a ver‚ÄĚ, deliciou-se o mais novo. Por fim, a pi√®ce de r√©sistance, a mais not√°vel prote√≠na crua que um humano pode levar √† boca. A maior bomba de umami inventada pelos japoneses. Se os garotos ficassem indiferentes aos niguiri de chu-toro teria de os deserdar.

Comer em tempo de Covid: Patu√°

Comer em tempo de Covid: Patu√°

Faria sentido que Lisboa tivesse uns quantos bons restaurantes de cozinha macaense. A cozinha macaense ser√°, com a de Goa, uma das mais originais fus√Ķes culin√°rias onde os portugueses participaram. Sucede que restaurantes goeses em Lisboa h√° uma boa meia d√ļzia, macaenses nem por isso. Nem em Portugal, nem em Macau. Os chineses de Macau borrifam-se para a heran√ßa lusa e os portugueses de Macau ficam encostados a ver a hist√≥ria passar. H√° ainda algum folclore imposto por meia d√ļzia de regras definidas na transi√ß√£o do territ√≥rio para a al√ßada da China, como as fardas da PSP e os nomes das ruas em portugu√™s, mas a comidinha √© toda chinesa, com excep√ß√£o do extraordin√°rio Riquex√≥, a tasquinha da dona Aida Jesus, anci√£ com 104 anos. Mariana Valle Lima Em boa hora, por isso, nasceu uma tasca macaense na fronteira entre os Anjos e a Penha de Fran√ßa. (Sim, outra vez a Penha de Fran√ßa. Viva a Penha de Fran√ßa. A Penha de Fran√ßa √©, porventura, o bairro que melhores surpresas me tem dado nos √ļltimos meses. Uma tasca macaense na Penha de Fran√ßa √© uma coisa bela.) √Ä frente dos fog√Ķes est√° ‚Äúo Xico‚ÄĚ, contou quem serviu √† mesa. Xico √© filho de m√£e macaense e tem av√≥ chinesa. A fiscaliza√ß√£o familiar do receitu√°rio √© apertada. ‚ÄúMuitas vezes vai √†s compras e telefona √† m√£e e √†s tias para esclarecer d√ļvidas‚ÄĚ, detalhou. Xico tem o prazer das suas origens (Patu√° √© uma refer√™ncia ao crioulo macaense) e tem mais, porque domina outros territ√≥rios e √© livre. Tanto toca a m√ļsica da sopa tom yum tailande

Comer em tempo de Covid: Café Mortara

Comer em tempo de Covid: Café Mortara

A Lena D'√Āgua¬†tinha acabado de tocar no Maria Matos e eu chorei como uma crian√ßa a quem caiu o gelado no ch√£o. Pode ter sido da emo√ß√£o de voltar a uma comunh√£o art√≠stica, depois do in√≠cio da pandemia. Pode ter sido daquela mulher ali, regressada dos confins da desola√ß√£o, erguida por uma banda de jovens frescos e felizes. Pode ter sido de ‚ÄúA Culpa √© da Vontade‚ÄĚ, do Varia√ß√Ķes, ter tido a melhor interpreta√ß√£o de sempre. Chorei. Chorei muito. Chorei feliz. Chorei tanto que, no fim, s√≥ me apetecia beber uma cerveja. Duas, tr√™s. Era assim que faz√≠amos antigamente. √ćamos a um concerto e depois beb√≠amos umas cervejas. E agora eu precisava de repetir o ritual, mas n√£o havia nada aberto. De repente, j√° a chegar ao lugar do carro, eis uma porta aberta, eis duas mesinhas em frente a uma loja, eis duas pessoas a beber uma cerveja. N√£o era bem um caf√©, n√£o era bem um restaurante. Era uma lojinha m√≠nima sem fog√£o, com uma mesa l√° dentro e duas c√° fora. E bebida. E comida. ‚ÄúEstamos mesmo a fechar, mas se quiserem beber alguma coisa ou comer ainda d√°‚ÄĚ, disse V√≠tor Mortara, respons√°vel do Caf√© Mortara juntamente com Let√≠cia Mendes, sua companheira. Ou comer! Comer o qu√™? Os concertos n√£o d√£o s√≥ sede, tamb√©m d√£o fome. ‚ÄúTemos massas frescas‚ÄĚ, esclareceu Mortara, um brasileiro de S√£o Paulo com ascend√™ncia italiana e bigodinho hipster. Massas frescas e cervejas artesanais num cafezinho do Bairro das Estacas, nas traseiras da Avenida de Roma. Depois de um concerto. Maravilha. Gabriell Vieira Ness

Comer em tempo de Covid: The Art Gate

Comer em tempo de Covid: The Art Gate

A porta da rua est√° fechada. Nenhuma tabuleta, nada que indique um hotel ou um restaurante ou uma galeria de arte ‚Äď tudo o que o The Art Gate anuncia ser. Recorro ao Google e certifico-me ent√£o da morada completa. √Č mesmo aqui. Toco √† campainha e subimos ao 1¬ļ esquerdo. Mandam-nos aguardar numa sala/recep√ß√£o, acompanhados por um quadro de Jos√© Pedro Croft. O meu amigo, conhecedor do mercado da arte, atira: ‚ÄúCusta mais do que a minha casa.‚ÄĚ A espera tem a ver com ‚Äúa prepara√ß√£o do primeiro momento‚ÄĚ, na galeria ao lado, e faz-se com outros comensais, tamb√©m com reserva para a mesma hora. H√° um certo desconforto nessa pausa, mas eis que chega um dos cozinheiros para nos guiar. O p√©riplo pelo menu de degusta√ß√£o de 17 pratos ‚Äď √ļnica modalidade dispon√≠vel (90‚ā¨) ‚Äď inicia-se pela galeria. Explica-se o conceito, explica-se o que se vai comer, explica-se como devemos proceder. Explica-se muito. Os primeiros quatro aperitivos s√£o tomados de p√© em modo de cocktail volante, tudo bom, destaque para uma espuma de ch√° com p√≥ de hibiscos e sumo de frutos vermelhos. Passamos depois pela sala de comer, apenas com uma mesa comunit√°ria, mas que mesa: uma roda de madeira pesada e larga da autoria do romeno Mircea Anghel. Em redor cabem meia-d√ļzia de pessoas com dist√Ęncia Covid e cabe mais arte e design: por cima candeeiro Tom Dixon, nas paredes fotografias de Daniel Blaufuks. Eu e o meu amigo seguimos para a chef‚Äôs table, na pr√≥pria cozinha, um balc√£o onde vemos os fog√Ķes e a mise en place. Estamos

Comer em tempo de Covid: A’paranza Tasca Italiana

Comer em tempo de Covid: A’paranza Tasca Italiana

Tenho comido algumas massas com anchovas, mas nenhuma se comparou √† deste A‚Äôparanza. A pasta √© dura, bem mais do que o al dente tuga, dura mesmo, dura de N√°poles, regi√£o de origem dos donos. E o molho de anchovas e tomate cereja tem o balan√ßo perfeito de gordura e doce, tudo envolvido j√° na mesa em burrata, uma decad√™ncia cremosa e escorregadia como o soalho do ClubJenna, uma das melhores coisas que podemos comer nesta cidade por 12 euros. Fosse s√≥ isto e era muito bom, mas houve mais coisas not√°veis. No A‚Äôparanza estamos na It√°lia do Sul e do mar, com pescado das lotas de Sesimbra e Peniche. Uma It√°lia que tem petinga e lulas fritas embrulhadas em papel. E tem pacheri, massa antiga de s√™mola de trigo duro, como um macarr√£o grande, aqui com espadarte, tomate cereja e beringela. E tem fettuce com ovas de tainha secas (petisco raro em Portugal, mas c√©lebre no Sul da It√°lia, onde s√£o conhecidas como bottarga). Numa das visitas, and√°mos pelos anti-pasti e quase fic√°mos por a√≠, tantas eram as atrac√ß√Ķes. Mexilh√Ķes abertos em lim√£o e pimenta, cozinhados no ponto, tenros e suculentos. Polipetti affogati, polvinhos guisados, mesmo inhos, profundos no molho escuro de tomatada e vinho. Outra coisa boa √© que este italiano √© franco e permite partilhar ‚Äď longe dessas reminisc√™ncias dos anos 90, casas forradas a marcas importadas DOP disto e daquilo, com hidratos de carbono ao pre√ßo de carabineiros. √Čramos cinco, pedimos quatro entradas e tr√™s pastas, sugest√£o da casa. No in√≠cio, achei curt

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