A Besta

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1 /5 estrelas
A Besta

A Time Out diz

1 /5 estrelas

Eurico de Barros precisou de tomar sais de frutos depois de ver ‘A Besta’, um thriller de acção italiano estreado na Netflix.

Quando o cinema europeu tenta fazer filmes de acção e policiais à maneira americana, os resultados não costumam ser famosos. As coisas costumam funcionar melhor quando os europeus adaptam estes géneros americanos às suas realidades culturais, sociais e políticas. Como se pode ver pelo polar francês ou pelo giallo italiano, que, embora costumem seguir uma matriz americana, têm uma vincada identidade própria e idiossincrasias cinematográficas imediatamente reconhecíveis.

Não é o que acontece em A Besta, um thriller de acção italiano estreado na Netflix, segunda longa-metragem de Ludovico Di Martino, um nome da novíssima geração de realizadores transalpinos. Em A Besta, Di Martino cola-se completamente ao modelo hollywoodesco do género. Este é o tipo de fita de série B maneirinha e pão, pão, queijo, queijo, que se fazia em doses industriais nos EUA nas décadas de 70 e 80, e que depois passou a ser produzida essencialmente para alimentar o mercado de home video.

Rodado numa grande cidade italiana que o realizador nunca dá a conhecer, A Besta tem como protagonista Leonida Riva (Fabrizio Gifuni, que vimos em Capital Humano, de Paolo Virzi, ou Sonhos Cor-de-Rosa, de Marco Bellochio). Riva é um antigo capitão das forças especiais italianas que se reformou após uma desastrosa missão no Afeganistão, que o deixou profundamente traumatizado e a depender de fármacos, e o levou a divorciar-se da mulher e a alienar-se da família, facto que Mattia, o filho mais velho, nunca lhe perdoou.

Uma noite, Teresa, a filha mais pequena de Riva, desaparece de um restaurante de fast food onde estava com o irmão, que a deixou sozinha por alguns minutos. Suspeita-se de rapto porque uma empregada viu um jipe suspeito arrancar a toda a velocidade. A polícia é chamada ao local. Mattia, desesperado, telefona ao pai e este decide levar a cabo uma investigação paralela à das forças da ordem, valendo-se da sua experiência e dos seus conhecimentos de ex-membro de uma força militar de elite.

Logo no quarto de hora inicial, A Besta deixa bem claro que vai seguir à risca, e sem o menor atrevimento de originalidade, o formato do filme de acção brutalista à americana. E daquela alínea em que um tropa veterano com treino e tarimba muito acima da média, psicologicamente afectado por um trauma de guerra que o tornou num bicho do mato e o afastou dos seus, começa a funcionar em modo arrasa-quarteirões e esmigalha-vilões, para resgatar um membro da família das mãos de criminosos sem pinga de humanidade.

Não falta nenhum ingrediente na panela, a começar pelos polícias que estão sempre um passo atrás do herói na investigação, e a acabar na resistência sobre-humana deste, que sobrevive a facadas, sovas de meia-noite e balázios, passando pelas sequências de flashback da missão fatal que o marcou para sempre e pela salvação final mesmo em cima da hora. Tudo sem nenhuma surpresa, coleccionando estereótipos, situações feitas, coincidências convenientes, bastantes cadáveres e duas ou três inverosimilhanças de bradar aos céus. A Besta é um thriller de acção spaghetti com ingredientes adulterados, excesso de corantes e conservantes e indigesto até para o consumidor menos exigente.

Por Eurico de Barros

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