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Eurico de Barros

Eurico de Barros

Articles (574)

Ascensão e queda do escritor e das socialites

Ascensão e queda do escritor e das socialites

★★★★☆ Depois da história da lendária inimizade entre Bette David e Joan Crawford em Hollywood, Ryan Murphy instalou-se em Nova Iorque para, na segunda série da sua antologia Feud (HBO Max), recriar a história da amizade, e da ruptura, entre o escritor Truman Capote (Tom Hollander) e o grupo de mulheres do topo da alta sociedade da Big Apple (Naomi Watts, Diane Lane, Chloë Sevigny e Calista Flockhart) que ele frequentava e que baptizou de “Cisnes”, passadas entre os anos 60 e 90, e alicerçada no livro Capote’s Women, de Laurence Leamer. Alçado a celebridade literária e mediática, sobretudo pelo seu livro de A Sangue Frio, Truman Capote passou a fazer parte integrante do mais exclusivo círculo social nova-iorquino, e a acompanhar o quarteto de mulheres riquíssimas, famosas e influentes que ditavam as modas e as tendências, liderado por Babe Paley (Watts), mulher do poderosíssimo Bill Paley (o malogrado Treat Williams), presidente da CBS. Capote era parte “amigo gay” devotadíssimo e de estimação, parte bobo da corte de luxo e com cachet cultural, que as entretia com os seus mexericos picantes, histórias escandalosas e uma língua viperina até ao friamente cruel, e lhes servia de ombro para se lamentarem de maridos e amantes, e confessarem angústias e temores; elas, pelo seu lado, satisfaziam-lhe o enorme ego, davam-lhe acesso a um mundo de privilégios e sofisticação, entre almoços nos melhores restaurantes, viagens e fins-de-semana de sonho, festas e outros grandes acontecimentos

Michael ‘Kramer’ Richards, o detective destrambelhado

Michael ‘Kramer’ Richards, o detective destrambelhado

★★★☆☆ Em 2000, após o fim de Seinfeld, Michael Richards, o intérprete de Cosmo Kramer, pegou em boa parte da equipa da série e criou The Michael Richards Show (YouTube), onde interpreta Vic Nardozza, um detective particular destrambelhado que trabalha numa agência de Los Angeles e é uma variante da personagem de Kramer, com maneirismos, tiques e uma descoordenação motora muito semelhante à deste. Tal como aconteceu com os projectos individuais dos seus colegas de Seinfeld Jason Alexander e Julia Louis-Dreyfus, The Michael Richards Show foi um fracasso de audiências e de crítica (o que deu origem à chamada “Maldição de Seinfeld”), não tendo passado da primeira temporada de oito episódios. Estão todos no YouTube (a série nunca passou em Portugal), e vista agora, mais de 20 anos depois, The Michael Richards Show não é tão má como a pintaram então e merecia ter tido ao menos uma segunda temporada, para limar arestas e consolidar a sua identidade. Richards é um dínamo de partes gagas na pele do trapalhão Vic Nardozza, tem comparsas divertidos e os enredos misturam paródia às séries de detectives privados, muito slapstick, toques de nonsense e algum humor hoje politicamente incorrectíssimo (ver o episódio do cão da personagem de William Devane). A descobrir e revalorizar. 

Razões para ligar a TV esta semana: ‘Fallout’, ‘Franklin’ e mais

Razões para ligar a TV esta semana: ‘Fallout’, ‘Franklin’ e mais

É certo e sabido que somos adeptos de passeios pela cidade, idas ao cinema e ao teatro, concertos, jantares fora e uns bons copos. Mas às vezes também sabe bem ficar a vegetar, agrafado ao ecrã, no conforto do lar. Para que não desperdice estes valiosos momentos de zapping, damos-lhe as melhores razões para ligar a televisão esta semana. Porque há programas que ainda vale a pena ver em directo e estreias, nos canais tradicionais e nos serviços de streaming, que não vai querer perder. Recomendado: Os filmes originais Netflix que tem de ver

Os filmes em cartaz esta semana, de ‘Back to Black’ a ‘Revolução (Sem) Sangue’

Os filmes em cartaz esta semana, de ‘Back to Black’ a ‘Revolução (Sem) Sangue’

Tanto cinema, tão pouco tempo. Há filmes em cartaz para todos os gostos e de todos os feitios. Das estreias em cinema aos títulos que, semana após semana, continuam a fazer carreira nas salas. O que encontra abaixo é uma selecção dos filmes que pode ver no escurinho do cinema, que isto não dá para tudo. Há que fazer escolhas e assumi-las (coisa que fazemos, com mais profundidade nas críticas que pode ler mais abaixo nesta lista). Nas semanas em que há estreias importantes de longas-metragens no streaming, também é aqui que as encontra. Bons filmes. Recomendado: As estreias de cinema a não perder nos próximos meses

Um roteiro para a Festa do Cinema Italiano em oito filmes

Um roteiro para a Festa do Cinema Italiano em oito filmes

O Cine-Teatro Turim e o Cinema Fernando Lopes juntam-se este ano às habituais salas da Festa do Cinema Italiano (Cinema São Jorge, Cinemas UCI El Corte Inglés e Cinemateca). De 12 a 21 de Abril, além das habituais secções, a programação inclui a retrospectiva O Outro 25 de Abril, que assinala a libertação de Itália pelas forças aliadas a 25 de Abril de 1945 com uma selecção de clássicos do cinema italiano e obras mais recentes, entre ficções e documentários; e o ciclo Sem Censura – Sucessos do Cinema Italiano no pós-25 de Abril, composto por cinco filmes de géneros muito diferentes que foram sucessos comerciais e de crítica em Portugal na segunda metade da década de 70. A edição de 2024 apresenta ainda, e como se tornou tradição, uma programação paralela à cinematográfica, que inclui música, gastronomia, comédia stand-up e um espectáculo de magia. Eis oito filmes seleccionados de entre as várias secções, e que ilustram a variedade de oferta da presente edição da Festa do Cinema Italiano, que se estenderá também a outras cidades do país. A programação completa pode ser consultada aqui. Recomendado: Os melhores filmes italianos sobre amor e traição

As estreias de cinema a não perder nos próximos meses

As estreias de cinema a não perder nos próximos meses

A televisão foi a primeira grande culpada. Depois vieram os clubes de vídeo, os VHS e os DVD, a pirataria na internet. Agora é o streaming. Há mais de 60 anos que a queda no número de espectadores nas salas de cinema gera preocupações, dilemas e estratégias para a combater. Nem todas funcionam. Por cá, propomos a única solução ao nosso alcance: sugerir bons filmes. Pelo menos, filmes que queremos ver. Não há melhor motivo para ir ao cinema. O que não nos impede de olhar também para as produções que vão directamente para o streaming. Estas são as estreias de cinema a não perder nos próximos meses. Recomendado: Os filmes em cartaz esta semana

As estreias de cinema para ver em Abril, de ‘O Hotel Palace’ a ‘Back to Black’

As estreias de cinema para ver em Abril, de ‘O Hotel Palace’ a ‘Back to Black’

Se Março era o mês das mulheres também no cinema, Abril dá-lhe continuidade. Fanny Ardant, Jenna Ortega, Charlotte Rampling, Kirsten Dunst, Isabelle Huppert, Paola Cortellesi, Olivia Colman e Zendaya são as protagonistas dos filmes imperdíveis com estreia agendada para este mês. Pelo meio, há ainda mais uma actriz em grande destaque: Marisa Abela, que tem a responsabilidade de devolver Amy Winehouse ao mundo dos vivos. O que não significa que faltem homens de relevo, nomeadamente realizadores: nas próximas semanas, há Roman Polanski, há Denys Arcand, há Alex Garland e há Luca Guadagnino. Vamos a cinema? Recomendado: As estreias de cinema a não perder nos próximos meses

Um assassino em série dentro de casa

Um assassino em série dentro de casa

★★★★☆ Ben Field era um jovem que estava a ter formação para se tornar vigário na igreja da vila de Maids Moreton, no Buckinghamshire, em Inglaterra. Cortês, simpático, culto e devoto, o rapaz cozinhava muito bem, escrevia poesia e frequentava um curso de Literatura Inglesa numa universidade local. Ben Field era também um frio assassino em série, que se conseguiu insinuar, junto de Peter Farquhar, um professor universitário reformado, solteiro e homossexual, tornando-se-lhe indispensável; e depois de o envenenar, com a ajuda de um amigo sobre o qual tinha ascendente psicológico e emocional, ganhou os favores de uma vizinha dele, também solteira e professora reformada, Ann-Moore Martin, que igualmente seduziu e envenenou, após ter conseguido ser beneficiário de ambos nos respectivos testamentos.  Não fosse a sobrinha da professora e o marido terem estranhado a relação do rapaz com a tia e feito queixa à polícia após esta ter sido hospitalizada, e de certeza que ele teria continuado na sua senda assassina. Num dos vários livros de anotações que a polícia lhe confiscou, Field gabava-se de, se quisesse, poder matar “todos os velhos do bairro e também os do lar” – aproveitando-se do seu tirocínio na igreja, o criminoso dava também assistência espiritual aos idosos que viviam num lar da vila, filmando os diálogos de um sadismo trocista que tinha com aqueles mais debilitados mentalmente.   Escrita por Sarah Phelps (A Very British Scandal) para a BBC, O Quinto Mandamento (Filmin) recr

Aristocratas, gangsters e muita canábis: a série de Guy Ritchie

Aristocratas, gangsters e muita canábis: a série de Guy Ritchie

★★★★☆ Quem viu o filme de Guy Ritchie The Gentlemen: Senhores do Crime, ou quem conhece bem o cinema de Guy Ritchie, já sabe o que vai encontrar na série homónima, simultaneamente um spinoff e uma prequela daquele, onde um distinto militar e aristocrata, Eddie Halstead (Theo James), herda a enorme propriedade familiar quando o pai morre, bem como o título de duque deste, e descobre que ele alugou uma discreta parte do terreno a um gangster, o muito cockney Bobby Glass (Ray Winstone), que está numa prisão de alta segurança que mais parece um hotel de 5 estrelas, para este lá fazer cultivo intensivo e high tech de canábis.  Assim, em The Gentlemen: Senhores do Crime (Netflix) encontramos gangsters tão castiços como letais (a família de traficantes de cocaína de Liverpool, liderada por “Evangelho” John, um fanático religioso com barbas de profeta que “despacha” os rivais enquanto papagueia a Bíblia); senhores do crime milionários, sofisticados e bem-falantes (o americano Stanley Johnston – “com um t”, como ele insiste em frisar – de Giancarlo Esposito); famílias de ciganos politicamente incorrectíssimos, para enfurecer os patrulheiros woke; um enredo principal muito atarefado e vários subenredos envolvendo um punhado de personagens de segundo e terceiro plano, entre mais gangsters, capangas sortidos e membros das famílias Halstead e Glass  (destaque para Freddy, o irmão destravado e aspirador de cocaína de Eddie); muita violência, bastante criativa e quase toda cartoonesca; um e

Um Verão com as bailarinas

Um Verão com as bailarinas

★★★★☆ Sem desmerecer nas suas qualidade próprias, as autoras da sueca Chorus Girls (TV Cine Edition), que também fazem parte do elenco, parecem ter assimilado bem a lição das melhores séries inglesas. Passada nos anos 70, em Estocolmo, ao longo de um Verão, entre as bailarinas do Cirkusrevvyen, uma revista que tem lugar numa grande tenda no mais antigo parque de diversões da cidade, o Dryrhavsbakken (imaginem um cruzamento do Parque Mayer com a Feira Popular, em mais composto), Chorus Girls segue um punhado delas, com idades, personalidades, vidas, problemas sentimentais, experiências profissionais e aspirações diferentes, e que se relacionam entre si criando amizades e simpatias, mas também atritos e conflitos (a série inspira-se em relatos de bailarinas que actuaram no Cirkusrevvyen). Ao realismo da recriação dos ambientes (e que inclui o guarda-roupa piroso e berrante da década de 70), que nunca parece postiço ou muito elaborado, junta-se o sentido das mentalidades, dos modos de ser sociais e dos costumes da época, em particular na atitude para com as mulheres. Mas também destas umas com as outras, com o seu trabalho e as famílias, maridos e namorados, o que permite criar no espectador empatia, interesse e envolvimento com as várias personagens, todas solidamente interpretadas, das bailarinas às figuras secundárias que gravitam em seu redor na estrutura do espectáculo e fora desta.   Chorus Girls é uma série de “colectivo”, funcionando a várias vozes, mas destacam-se, como

Apocalipse zombie no ‘Big Brother’

Apocalipse zombie no ‘Big Brother’

★★★★☆ Na série inglesa Dead Set (YouTube), a Grã-Bretanha é atingida por um apocalipse zombie. Nada de novo aqui. O que há de novo em Dead Set é que a catástrofe é filmada do ponto de vista dos concorrentes do Big Brother, que estão a preparar-se para a gala semanal em que um deles será expulso, quando aquela acontece. Criada em 2008 por Charlie Brooker, que alguns anos mais tarde faria Black Mirror, Dead Set (que parece, aliás, um episódio longo desta) combina terror gore da modalidade cartoonesca, sátira feroz aos reality shows e comédia muito negra (os concorrentes do Big Brother são quase todos mais burros do que os zombies que os querem devorar – ver em especial a curvilínea e bronca Pippa, que folheia revistas de moda enquanto os zombies espalham o terror no estúdio). O peculiar sentido de humor inglês manifesta-se também no facto de Dead Set ser produzida pelo Channel 4, a estação em que o Big Brother inglês passa, e de contar com alguns participantes do concurso, caso da apresentadora Davina McCall, que se parodia a si mesma gostosamente, e de vários concorrentes da altura. O que nunca veremos suceder na TVI, de certeza. Dead Set já teve uma versão brasileira, Reality Z, e está inédita em Portugal, sendo uma de muitas séries que podemos saborear graças ao YouTube.

As estreias de cinema para ver em Março, de ‘Priscilla’ a ‘Caça-Fantasmas: O Império do Gelo’

As estreias de cinema para ver em Março, de ‘Priscilla’ a ‘Caça-Fantasmas: O Império do Gelo’

Março é o mês dos Óscares. Mas o cinema é um caminho e não se resume a uma gala em Los Angeles. Vamos por etapas. Se ainda estiver a aprender o bê-a-bá da cinefilia, comece pelos clássicos de cinema para totós; se está a aprofundar conhecimentos, certifique-se de que viu os 100 melhores filmes de sempre; se já é um utilizador avançado e é dado a circuitos marginais, não falta cinema alternativo em Lisboa. Mas se tudo o que anda à procura é de um bom filme para ver numa sala de cinema comercial, então aqui encontra as principais estreias de cinema de Março de 2024. Recomendado: As estreias de cinema a não perder nos próximos meses

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Parece que Estou a +

Parece que Estou a +

4 out of 5 stars

O novo filme do prestigiado e oscarizado realizador canadiano Denys Arcand, autor de As Invasões Bárbaras e O Declínio do Império Americano, passa-se numa casa de repouso onde vive Jean-Michel (Remy Girard), um arquivista solteirão, e cuja calma é perturbada por um grupo de jovens activistas políticos que se instala nos jardins da instituição, exigindo a remoção de um fresco que mostra o acolhimento dos descobridores europeus pelos nativos americanos. Naquela que deverá ser a sua obra de despedida, o octogenário Arcand satiriza e enfrenta o politicamente correcto em todas as suas expressões censórias, fanáticas e absurdas, bem como a incompetência, a arrogância e a hipocrisia da classe política, ao mesmo tempo que assina uma comédia melancólica sobre o ocaso da vida do protagonista (o qual, no entanto, é presenteado com um novo e inesperado fôlego mesmo a acabar a história, porque nem tudo é tão negro como parece) e da civilização ocidental, deixa uma visão pessimista sobre o futuro do Canadá, e muito em especial do seu Quebec natal, e faz o seu testamento cinematográfico (o título original do filme é, precisamente, Testament). O final de Parece que Estou a + é um achado de premonição e de ironia.

Anjos na Terra

Anjos na Terra

3 out of 5 stars

Um bom melodrama, daqueles como se faziam na Idade de Ouro de Hollywood, de fazer chorar as pedras da calçada, de gastar uma caixa de lenços de papel inteira, de pôr a fungar até o crítico de cinema mais batido cínico, é hoje tão raro no cinema americano como uma comédia sofisticada ou um western sem má consciência. É por isso que os apreciadores do género devem acarinhar Anjos na Terra, de Jon Gunn, que ainda por cima foi tirado da vida real, ao basear-se (com algumas liberdades ficcionais para fins de eficácia narrativa) em factos ocorridos nos anos 90, em Louisville, no Kentucky, envolvendo os membros de uma família operária. O filme começa com Theresa Schmitt a ter a segunda filha do casal, Michelle, que se vai juntar à irmã, Ashley. Jon Gunn dá logo a seguir um salto de cinco anos, e encontramos Theresa a morrer no hospital. O marido, Ed Schmitt (Alan Ritchson, da série Reacher), fica assim sozinho a criar as duas filhas, apenas com a ajuda da mãe. Ed é um operário especializado em revestimentos de telhados que se mata a trabalhar, e não só está ainda a pagar a enorme conta de hospital deixada pela mulher, como também tem que desviar boa parte do que ganha todos os meses para os cuidados de saúde de Michelle. A menina sofre de uma doença rara e está numa lista de espera para o transplante de fígado essencial à sua sobrevivência. O dinheiro que vai todos os meses para casa dos Schmitt não chega nem por sombras para cobrir todas as despesas, e as contas e os últimos avisos

Obrigado, Rapazes

Obrigado, Rapazes

3 out of 5 stars

Tudo começou em 1985, quando o actor e encenador sueco Jan Jönson foi fazer um workshop de teatro com um grupo de presos de uma cadeia de alta segurança do seu país, para os formar como actores e levar à cena À Espera de Godot, de Samuel Beckett. No dia da estreia da peça em Gotemburgo, cinco dos seis detidos que formavam o grupo optaram por fugir em vez de subirem à cena. Em 2020, o francês Emmanuel Courcol escreveu e realizou Um Triunfo, inspirado na história de Jönson e dos seus prisioneiros/actores, com Kad Merad no papel principal. O filme foi um bom sucesso de público e de crítica, e entre outras recompensas recebeu o galardão de Melhor Comédia Europeia nos Prémios do Cinema Europeu. Em vez de um (muito possível) remake americano, surge agora Obrigado, Rapazes, a versão italiana de Um Triunfo, com realização de Riccardo Milani e Antonio Albanese na figura do actor e encenador. Obrigado, Rapazes segue de muito perto a fita original de Emmanuel Courcol, fazendo algumas pequenas alterações ao enredo e acrescentando-lhe um temperozinho de comédia transalpina, particularmente na caracterização das personagens, e que nos enche de nostalgia dos tempos em que era do cinema italiano que saíam algumas das melhores comédias feitas na Europa, que se mediam mesmo com as americanas.  Albanese é Antonio, um actor tão na mó de baixo que está reduzido a dobrar filmes pornográficos, ao qual um colega e velho amigo oferece um trabalho inesperado: ser professor de representação num estabel

O Rapaz e a Garça

O Rapaz e a Garça

3 out of 5 stars

Vencedor do Óscar de Melhor Longa-Metragem de Animação, O Rapaz e a Garça, de Hayao Miyazaki, regressa agora às salas. E não deverá ser a última longa-metragem de animação do realizador, como tinha sido anunciado. Este filme visualmente sumptuoso e cerradamente imaginativo, que começa no Japão em plena II Guerra Mundial e passa depois para um mundo paralelo mágico e onírico, está repleto de referências autobiográficas, bem como de reflexões e interrogações de Miyazaki sobre a sua arte e o acervo que deixa no cinema de animação. O herói é Mahito, um rapazinho filho de uma enfermeira e de um empresário que fabrica componentes para aviões de guerra, e que perde a mãe no bombardeamento do hospital onde esta trabalhava em Tóquio. Algum tempo depois, com o pai agora casado com a cunhada, que espera um bebé, Mahito vai viver com esta para uma grande casa de família no interior do país, e lá vê-se alvo das atenções de uma garça (que não é apenas um pássaro) que lhe diz que a mãe está viva. E que para a ver, o rapaz deve acompanhá-la a uma torre abandonada na qual desapareceu, muitos anos antes, o seu erudito tio-avô, que lá tinha a sua biblioteca. O Rapaz e a Garça é um filme tão opaco, falho de linearidade narrativa e desconcertante, como inventivo deslumbrante e mirabolante, e que apesar de alguns pontos de contacto, contrasta de forma radical com o anterior, e superior, As Asas do Vento. Mas se podemos pôr algumas reticências ao fundo de O Rapaz e a Garça, a forma, essa, é Miyazak

Vermin – A Praga

Vermin – A Praga

3 out of 5 stars

Foi em 1955 que Jack Arnold, o autor de clássicos do cinema fantástico e de ficção científica como O Monstro da Lagoa Negra e Os Sentenciados, realizou aquele que é um dos melhores filmes de terror com insectos de sempre, e o “pai” das fitas do subgénero envolvendo aracnídeos: Tarântula, a Aranha Gigante. Nele, uma tarântula que está a ser objecto de experiências com hormonas de crescimento num laboratório no deserto do Arizona, cresce até atingir um tamanho descomunal, foge e começa a matar o gado dos habitantes locais e a espalhar o medo na região, obrigando a uma intervenção militar. Desde aí, e com raras excepções, como é o caso de Aracnofobia, de Frank Marshall (1990), ou de Arac Attack – Tarados de Oito Patas, de Ellory Elkayem (2002), não houve mais spider horror movies dignos de relevo. A oferta ficou-se por títulos das séries B a Z, incluindo neles algumas curiosidades. É caso de O Reino das Tarântulas, de John “Bud” Cardos (1977), com um William Shatner pós-O Caminho das Estrelas e o “fordiano” Woody Strode; do divertido (como em: tão mau que é bom) Arachnid, de Jack Sholder (2001); ou também de Perigo Escondido, de Micah Gallo (2019), onde uma força sobrenatural que vive numa velha casa toma a forma de uma enorme aranha para aterrorizar os novos inquilinos. Todas estas fitas confiam no medo e na repugnância ancestrais que a humanidade tem em relação às aranhas (e aos insectos de toda a sorte em geral) para assentar e desenvolver os seus efeitos de terror, e agora é

A Última Evasão

A Última Evasão

4 out of 5 stars

“Old soldiers never die, they simply fade away”, diz a velha canção militar inglesa. Bernard Jordan (Michael Caine), o veterano marinheiro protagonista de A Última Evasão, de Oliver Parker, baseado numa história real, não quer desaparecer sem ir às comemorações, em França, do 70.º aniversário do Dia D (a história passou-se em 2014). Só que não conseguiu arranjar lugar na excursão oficial de veteranos britânicos, e vai ter que ficar a ver as cerimónias na televisão, no lar de idosos de Hove onde mora com a mulher, a vivaça, espirituosa e sarcástica Rene (Glenda Jackson, no seu último papel antes de morrer, e que com a sua interpretação faz com que o filme seja tanto sobre a sua personagem como a de Caine), com a qual está casado precisamente desde a II Guerra Mundial. Só que Bernard tem mesmo que ir à Normandia estar presente nas cerimónias do desembarque, porque de certeza não poderá ir às dos 80 anos, e ainda por outra razão, mais secreta, que o filme desvendará lá para a frente. Por isso, com toda a cumplicidade de Rene, o veterano marinheiro escapa-se do lar bem cedo na manhã do dia 6 de Junho e mete-se no ferry boat para o outro lado do Canal da Mancha. A bordo, Bernard conhece Arthur (John Standing), um ex-piloto da RAF que o convida para se integrar no seu grupo de ex-combatentes, e lhe oferece também alojamento no hotel onde se vão hospedar, vendo que ele vem sozinho e que não tem onde ficar. Além do quarto, Bernard e Arthur vão ainda partilhar histórias de guerra, bem

Priscilla

Priscilla

3 out of 5 stars

O novo filme de Sofia Coppola sobre Priscilla Presley, baseado no livro de memórias desta, Elvis and Me, pode ser visto como o reverso do Elvis de Baz Luhrmann. Priscilla Beaulieu (Cailee Spaeny, Melhor Actriz no Festival de Veneza), filha de um militar colocado na Alemanha na década de 50, tinha 14 anos e conheceu e começou a namorar com Elvis Presley quando este fazia ali a tropa, casando-se com ele em 1967. Divorciaram-se em 1973. Rodado sempre do ponto de vista dela, Priscilla foge a mostrar Elvis em palco ou a fazer filmes, preferindo detalhar a existência de luxo e conforto, mas também de solidão, tédio e frustração da retratada, que ficava em Graceland com os familiares do marido, que eram também seus empregados. Priscilla vivia como um pássaro numa enorme gaiola de ouro em que a porta não estava fechada, embora carregada de restrições. Sofia Coppola não nega que Elvis Presley (permanentemente rodeado de uma corte de amigos e sicofantas incapazes de lhe dizerem “não” ou de o contrariar) a amava e se preocupava com ela, mas tratava-a como uma boneca que cobria de presentes para a manter satisfeita, a sua Barbie de carne e osso, que queria também obediente e sem o incomodar. E filma-os como namorados, e depois numa vida conjugal e familiar crescentemente instável e insatisfatória para Priscilla, sem sensacionalismos dramáticos ou fogo de vista cinematográfico, nem vitimizações “feministas” fáceis. A recriação das décadas de 50, 60 e 70 através das modas e das roupas, dos

Milagre

Milagre

4 out of 5 stars

A julgar pelo cinema que vem de lá, a Roménia, tal como Portugal, é um daqueles países em que as pessoas nunca estão contentes com o que têm e passam o tempo a queixar-se de tudo e mais alguma coisa, da mais banal à mais abstracta. Milagre, de Bogdan George Apetri, não foge a esta regra. Um médico queixa-se de um taxista amigo não desligar o contador do carro e dar-lhe uma viagem de borla; o taxista queixa-se de já não poder fazer coisas dessas porque há regulamentos e pode ser multado e perder a licença; outro médico queixa-se que o mundo enlouqueceu; um polícia queixa-se a um inspector que a sua profissão o faz ver coisas cada vez mais horríveis e incompreensíveis, e que as pessoas parecem ter-se transformado em selvagens. No centro de Milagre, cuja história se divide em dois actos, está uma dessas acções de selvajaria aleatória. Cristina (Ioana Bugarin), noviça num convento, vai a uma consulta na cidade, no táxi do irmão de outra freira. Uma vez no hospital, percebemos que a consulta a que ela foi introduz um novo dado dramático na história. À volta, Cristina perde a hora que tinha combinado com o taxista amigo para se encontrarem e ele a reconduzir ao convento, e apanha um outro carro de praça. A meio do caminho, o taxista espanca-a e viola-a, numa sequência em que Apetri desvia a câmara, dá ao som a tarefa de sugerir a brutalidade e o horror do que está a acontecer, e fá-la descrever, lentamente, um círculo completo, até regressar ao local do crime a tempo de ver o viola

A Sala de Professores

A Sala de Professores

4 out of 5 stars

Concorrendo pela Alemanha ao Óscar de Melhor Filme Internacional, A Sala de Professores, de Ilker Çatak, segue Carla Nowak (excelente Leonie Benesch), uma jovem professora idealista que inicia a sua carreira docente como substituta numa escola secundária. Quando ali se dão uma série de roubos de que um dos seus alunos é o suspeito, e ela própria é roubada, Carla decide investigar e faz uma descoberta chocante, que vai lançar a escola no caos e comprometê-la perante colegas, alunos e pais, por fazer o que a consciência lhe dita e defender os seus discentes mesmo contra os seus próprios interesses. Servindo-se do roubo como mero pretexto para desencadear os acontecimentos e expôr o que lhe interessa, e adoptando a cadência em crescendo de um filme de acção, Çatak retrata a escola como um lugar de tensão constante, de fricção contínua e de combate permanente, envolvendo os alunos entre eles e com os professores, estes entre si, e os progenitores e os docentes. E sugere também que o excesso de abertura aos alunos e de “democracia” no funcionamento dos estabelecimentos de ensino como o do filme, na Alemanha, pode ter consequências muito graves, e que os jovens não devem ser tratados como adultos, dando-lhes demasiada voz, poder e autonomia para o exercer, em especial na escola. Como a própria Carla, tão conscienciosa como ingénua, descobre a certa altura de A Sala de Professores.

Quatro Filhas

Quatro Filhas

3 out of 5 stars

Em meados da década passada, os media deram bastante atenção à história de uma mulher tunisina chamada Olfa Hamrouni. Divorciada de um marido que não a tratava bem, Olfa viu duas das suas quatro filhas, as mais velhas, desaparecerem de casa e deixarem o país após terem sido radicalizadas, e juntarem-se às forças do Estado Islâmico (EI). Uma delas casou-se com um dirigente desta organização, depois morto em combate, e teve uma filha dele. As duas raparigas acabaram por ser presas pelos militares da Líbia que lutavam contra o EI e estão presas neste país, juntamente com a criança. Olfa e as outras duas filhas esperam que elas possam um dia ser extraditadas para a Tunísia. A cineasta tunisina Kaouther Ben-Hania queria rodar um documentário sobre Olfa Hamrouni e as suas filhas, mas furtando-se às convenções e rotinas do formato, bem como àquilo que considerava ser o “condicionamento” da mulher pelos jornalistas com quem tinha já contactado e a quem tinha dado entrevistas. O seu filme Quatro Filhas é, por isso, um arriscado híbrido de realidade, ficção e reconstituição dramatizada, em que Olfa participa, assim como uma actriz que a interpreta. As suas duas filhas mais novas também aparecem, e as duas mais velhas que estão presas na Líbia são também, pelo seu lado, personificadas por duas actrizes muito parecidas com elas. Temos assim que além do elemento documental propriamente dito, Quatro Filhas (candidato ao Óscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem) mostra também as três

Os Excluídos

Os Excluídos

4 out of 5 stars

Em 1970, num exclusivo colégio privado da Nova Inglaterra, um professor rabugento, sarcástico, exigente e de quem ninguém gosta, nem alunos nem colegas, tem que ficar no período do Natal e do Ano Novo na escola, a tomar conta de um aluno inteligente mas rebelde e amargo que os pais não levaram nas férias, juntamente com a cozinheira-chefe, que perdeu há pouco o filho, um antigo aluno, no Vietname. Escrita por David Hemingson e realizada por Alexander Payne, Os Excluídos é uma comédia dramática sobre três solitários que representam outras tantas formas pessoais de infelicidade, e que vão ter que achar a maneira de se relacionarem nos dias penosos que têm que passar juntos num enorme edifício vazio e em plena época de alegria festiva e convívio familiar. Payne recria a época com discreta exactidão (a certa altura, aluno e professor vão ao cinema ver O Pequeno Grande Homem, de Arthur Penn, e toda a gente está a fumar no cinema; e numa sequência passada num restaurante, a empregada recusa servir ao rapaz uma sobremesa que inclui uma bebida alcoólica, porque ele é menor), não força qualquer nota sentimental ou efeito narrativo e consegue um filme pleno de observação e calor humano, humor seco e irónico, e drama tocante sem sombra de pieguice. O sempre notável Paul Giamatti, no professor Paul Hunham; Dominic Sessa, no jovem Angus Tully; e Da’Vine Joy Randolph, na cozinheira Mary Lamb, trazem graça, emoção e uma imediata e profunda verdade humana às suas respectivas personagens, cad

Vidas Passadas

Vidas Passadas

3 out of 5 stars

Vidas Passadas é a primeira longa-metragem da sul-coreana Celine Song, que também o escreveu. É um filme tão composto, tão recatado, tão bem arrumado e tão certinho, até mesmo nos saltos temporais que a história dá, que há alturas em que sentimos vontade de lhe dar um abanão, e aos protagonistas, para que haja um sobressalto narrativo, dramático, emocional, e as coisas não corram como tudo indica que vão acontecer (e acontecem mesmo), e haja pelo menos uma surpresa. Mas essa não parece ser a índole da realizadora, nem é a sua intenção aqui, e há assim que lhe dar a devida consideração. (A fita está nomeada aos Óscares de Melhor Filme e Argumento.) Vidas Passadas é um filme sobre sentimentos fortes de infância não recuperados, amores passados perdidos para sempre, vidas que podiam ter sido mas não foram; sobre se o destino existe e estamos submetidos a ele, ou se somos nós que o controlamos e fazemos; e também sobre o que fica em nós dos países que deixamos por outros, e o que estes nos dão e como modificam a nossa identidade, e o nosso modo de ser e de olhar para as nossas vidas. A história começa nos EUA, num bar de Nova Iorque, nos nossos dias, para depois recuar 24 anos para Seul, na Coreia do Sul. Na-young e Hae-sung têm ambos 12 anos, andam na mesma escola, competem pela obtenção das melhores notas, são grandes amigos e até têm um fraquinho um pelo outro. Quando os pais da rapariga decidem emigrar para o Canadá, o rapaz, que mais do que a sua colega e amiga tem o sentime

News (371)

O Pátio das Antigas: O Palácio das Comunicações com vista para o rio

O Pátio das Antigas: O Palácio das Comunicações com vista para o rio

Foi em 1953, sob projecto do arquitecto Adelino Antunes, que abriu, na Praça D. Luís I, ali próximo do Tejo, a Central Telegráfica e Telefónica de Lisboa, ou Palácio das Comunicações, um edifício no mais puro estilo Português Suave, como ficou conhecido. O mesmo arquitecto havia já sido responsável por outras instalações dos CTT espalhadas por todo o país. Tratou-se de um grande investimento dos CTT na modernização dos seus serviços naquelas duas áreas, e três anos após a sua inauguração, em 1956, o Palácio das Comunicações recebeu a Central Telefónica Interurbana de Lisboa, que estava instalada desde 1946 na grande estação dos correios do Terreiro do Paço. Escreveu então o vespertino Diário de Lisboa, citado pelo blogue Restos de Colecção: “Só uma parte, mas muito considerável, da Central Telefónica do Terreiro do Paço, foi ainda transferida para as novas instalações – uma centena de circuitos entre Lisboa e Porto, e muitas dezenas de circuitos, entre a capital e outras cidades do país. O material é moderno e actualizado, mas não inteiramente novo. Com ele se gastaram apenas 3000 contos, em vez de 15.000, desmontando em vários centros urbanos as posições que haviam deixado de ser necessárias e adaptando-as às novas funções”. Em 1957, em mais um esforço de inovação tecnológica, ali foi instalada uma nova central telefónica ainda mais moderna. Por coincidência, nesse mesmo ano, houve uma casa portuguesa em que foi colocado o telefone número dois milhões. O Palácio das Comunica

‘Back to Black’: a muito contestada biopic de Amy Winehouse

‘Back to Black’: a muito contestada biopic de Amy Winehouse

Em 2015, o realizador Asif Kapadia, autor do excelente Senna, sobre Ayrton Senna, assinou Amy, um documentário sobre a vida e a carreira de Amy Winehouse, para o qual fez mais de 100 entrevistas com familiares, amigos e colaboradores da cantora, morta de intoxicação alcoólica em 2011, aos 27 anos, e contou com a colaboração da sua família. Kapadia conseguiu também recolher variadas imagens de arquivo nunca vistas de Amy Winehouse, quer de situações privadas, como durante um período de férias em Espanha na companhia da sua melhor amiga, quer durante gravações em estúdio e actuações com público, ao longo da sua breve vida. Muito bem recebido pela crítica e pelo público, Amy foi-o menos pelo pai da cantora, Mitch Winehouse, que é mostrado sob uma luz muito pouco favorável. Winehouse acusou Kapadia de mentir e de ter uma agenda escondida para o transformar no vilão do filme, solicitando ainda, sob ameaça de acção legal, que Amy fosse remontado para não dar uma tão má imagem dele (o que foi recusado pelo realizador e pela equipa de produção da fita). Entre os vários prémios ganhos por Amy, contam-se o Óscar de Melhor Documentário de Longa-Metragem em 2016, o BAFTA e o Prémio do Cinema Europeu na mesma categoria, ou ainda o Prémio de Melhor Filme Musical nos Grammys. (Em 2021, houve também um documentário da BBC sobre a cantora, Reclaiming Amy.) Assim que foi anunciado que a realizadora Sam Taylor-Johnson, autora de Para Lá da Música (2009), sobre a adolescência de John Lennon, ia

O Pátio das Antigas: Jansen – cerveja, poesia e cinema

O Pátio das Antigas: Jansen – cerveja, poesia e cinema

Onde foram rodadas as cenas do Retiro do Alexandrino de A Canção de Lisboa, de Cottinelli Telmo, em que o cábula Vasco, depois de, embriagado, dizer cobras e lagartos do fado, se transforma no Vasquinho da Anatomia, grande e aclamado cultivador da canção nacional? Há quem diga que foi na desaparecida esplanada da Cervejaria Portugália. E há quem jure que foi na da também extinta Cervejaria Jansen, que, tal como a fábrica de cerveja do mesmo nome, estava situada em plena Lisboa, na Rua do Alecrim. Quem lhe deu o nome foi um homem de negócios dinamarquês, John Henry Jansen, que a adquiriu ao seu construtor e primeiro proprietário, em finais do século XIX. E que, tal como tinha feito a Fábrica de Cerveja Trindade, e mais tarde faria a Portugália, abriu uma cervejaria com esplanada mesmo ao lado das suas instalações. Mais tarde, em 1927, juntou-lhe o Salão Jansen, onde se dançava, havia concertos e cantava o fado, e havia um restaurante. A entrada era livre e só se pagava o consumo. E, tal como a Trindade e a Portugália, a Jansen também tinha o seu bife especial, naturalmente baptizado Bife à Jansen. Eça, Ramalho Ortigão e outros nomes do grupo dos Vencidos da Vida poderão ter frequentado a Cervejaria Jansen. Quem lá ia de certeza eram os homens da revista Orpheu, que se juntaram nas muito concorridas instalações da Rua do Alecrim em 1914 para planear a sua publicação, entre duas cervejas. A Jansen fechou a fábrica em 1936 e as suas restantes instalações foram ocupadas pelo Retir

O Pátio das Antigas: O estúdio publicitário dos grandes artistas

O Pátio das Antigas: O estúdio publicitário dos grandes artistas

Maria Keil e Stuart Carvalhais, Bernardo Marques e Thomaz de Melo, Fred Kradolfer e Emmérico Nunes, Ofélia Marques e Eduardo Anahory. Que estúdio de publicidade poderia hoje gabar-se de contar com artistas desta dimensão entre os seus colaboradores? Nos anos 30, 40 e 50 do século passado, estes e outros nomes trabalhavam regularmente para o ETP – Estúdio Técnico de Publicidade, fundado em Lisboa, em 1936, pelo designer José Rocha. O crescente investimento em campanhas de publicidade, quer pelo Estado, quer pelos particulares, e o facto de o cartaz ser então o principal meio de divulgação publicitária, levaram ao aparecimento de estúdios como o ETP, cujos artistas criaram muitos, arrojados e excelentes cartazes para campanhas, incluindo de turismo, e para toda uma variedade de produtos, marcas, empresas e casas comerciais. Entre eles, e no que respeita a iniciativas oficiais, o ETP colaborou nos pavilhões de Portugal nas Exposições Internacionais de Paris (1937) e de São Francisco e Nova Iorque (1939), tendo também participado na Exposição Colonial Portuguesa (1934), na Exposição do Mundo Português (1940) e na Exposição Mundial de Bruxelas. A foto desta página ilustra uma exposição de cartazes de José Rocha e Fred Kradolfer, no Teatro da Trindade, em 1938. Em 1972, aquele e o seu sobrinho Carlos Rocha fundiram os seus estúdios, dando origem à Letra-ETP. Coisas e loisas de outras eras + Das ferragens e da 'ortaliça' aos cristais e à loiça fina + Os primeiros cabeleireiros de Li

O Pátio das Antigas: Das ferragens e da 'ortaliça' aos cristais e à loiça fina

O Pátio das Antigas: Das ferragens e da 'ortaliça' aos cristais e à loiça fina

“As montras eram sempre lindíssimas, e lá dentro era um luxo, tudo reluzia, num verdadeiro esplendor. Era muito chique ter lá lista de casamento”. É assim que uma velha cliente recorda a Antiga Casa José Alexandre, situada na Rua Garrett, a maior, mais célebre e mais requintada do seu ramo, comercializando loiça fina, cristais, talheres, pratas, vidros e bibelots, e representando marcas como a Vista Alegre, a Christofle ou a Limoges, entre outras. Fornecia embaixadas, hotéis e o Estado, e abrir lá uma lista de casamento era um sinal de posses e de distinção. O jornalista, poeta e olisipógrafo Júlio de Castilho, citado no blogue Lisboa de Antigamente, descreveu a Antiga Casa José Alexandre como sendo “o protótipo do que havia de melhor em Londres e Paris”. DR Fundada em 1823 pelo quinquilheiro João José Alexandre de Oliveira como Casa José Alexandre, o estabelecimento começou por vender ferragens, artigos de casa e “ortaliça e flores em caixinhas”, como escreveu o referido Júlio de Castilho. Mas foi sempre alargando o seu comércio a outros artigos, que começaram a ser de qualidade superior, desde o vinho do Porto aos talheres e aos vidros, o que atraiu uma clientela cada vez mais selecta e endinheirada: aristocratas, artistas, políticos e uma burguesia urbana com cada vez maior poder de compra. No início do século XX, a loja mudou o nome para Antiga Casa José Alexandre, e numa das suas publicidades anunciava ter “sempre as maiores novidades e completo sortimento para artigos

O Pátio das Antigas: Os primeiros cabeleireiros de Lisboa

O Pátio das Antigas: Os primeiros cabeleireiros de Lisboa

Terão sido franceses os primeiros cabeleireiros/barbeiros profissionais de alto coturno que, no século XVIII, se instalaram em Lisboa, embora haja também referências a espanhóis e espanholas do mesmo ramo que já trabalhavam na capital. A Casa Real dispunha já então de cabeleireiros ao seu serviço, tendo tido, por exemplo, dois privativos, um francês e um português, neste mesmo século XVIII. O blogue Restos de Colecção reproduz uma publicidade de um destes franceses, um tal Gervais Firmin, gabando, em meados do século XIX, as suas qualidades, destacando-se o “alto sucesso e confiança obtido no passado inverno entre as damas da alta sociedade, pelo bom gosto e elegância dos penteados, que apresentou nas primeiras salas desta capital”. E mais adiante, agora dirigindo-se aos cavalheiros: “Na sua bella sala para cortar o cabelo servirá ele mesmo os seus fregueses, como todo o esmero e perfeição”. Por esta altura já havia igualmente muitos cabeleireiros e barbeiros portugueses de grande reputação e com clientelas distintas, caso de José Henriques da Silva, que servia aristocratas como o barão de Quintela no seu estabelecimento do Chiado; ou de Manuel Lopes de Carvalho, que foi amigo de Bocage e também tinha porta aberta no mesmo Chiado. Vários destes profissionais, qualquer que fosse a sua nacionalidade, propunham também aos clientes cremes, pomadas, elixires e outros produtos, de seu fabrico ou importados, alegadamente eficacíssimos no tratamento da queda do cabelo. É o caso do cr

O Pátio das Antigas: Quando os Correios tinham ambulâncias

O Pátio das Antigas: Quando os Correios tinham ambulâncias

Nada de confusões: as ambulâncias dos CTT não levavam carteiros nem outros empregados dos Correios feridos ou doentes. Este era o nome que se dava, primeiro às carruagens de processamento e recolha de correspondência que faziam parte dos comboios em Portugal desde 1866; e depois, bastantes décadas mais tarde, às carrinhas (também chamadas auto-ambulâncias postais) que começaram a circular pelo país, permanentemente a partir de 1952. Nos caminhos-de-ferro, as carruagens-correio (ou carruagens ambulâncias postais) permitiam a execução do serviço postal durante o trajecto, transportando uma equipa que podia ser até de sete funcionários dos CTT, e que recolhiam, manuseavam e processavam a correspondência. Os correios chegaram a ter cerca de 30 destas carruagens, cada vez mais modernas, práticas e confortáveis para os que nela viajavam a trabalhar, de dia e de noite. O serviço de auto-ambulâncias postais surgiu em 1951, com bases em Lisboa e no Porto, para servir em especial (mas não só) zonas do interior do país em que não havia estações do correio, ou que o comboio ainda não atingia. Eram verdadeiras estações do correio sobre rodas, nas quais, além de entregar e receber correspondência, as pessoas podiam telefonar e enviar telegramas e aerogramas. Na foto desta página, podem ver-se algumas destas auto-ambulâncias junto aos Correios do Terreiro do Paço, na década de 50. Como se lia num dos folhetos então lançados pelos CTT para informação dos utentes, elas representavam “O Correi

O Pátio das Antigas: Quando os padeiros levavam o pão a casa

O Pátio das Antigas: Quando os padeiros levavam o pão a casa

Já há bastantes anos que os padeiros que vinham entregar o pão a casa das pessoas em Lisboa passaram para o rol das profissões desaparecidas. Durante muitas décadas, os padeiros, tal como as leiteiras, eram as primeiras pessoas que muitos alfacinhas viam de manhã, quando os atendiam à porta para poderem ter o leite e o pão fresco para o pequeno-almoço, antes de saírem para o trabalho ou para a escola.  A capital era, nessa altura, nas palavras do jornalista e ilustre olisipógrafo Norberto de Araújo, “como uma aldeia grande, uma aldeia de bairros”. E cada bairro tinha uma padaria ou mais, que abasteciam os moradores. Estes ou iam lá comunicar a quantidade de pão de que precisavam para a semana, ou então deixavam um bilhetinho com a mesma escrita, no saco do pão que era pendurado à porta de casa: tantas carcaças, ou papos-secos, às vezes um pão de forma, tudo estaladiço ou mesmo ainda quentinho, se se morasse perto da padaria. Os padeiros circulavam quase sempre a pé, embora alguns preferissem a bicicleta, levando ao ombro com desenvoltura os seus grandes sacos de verga cobertos por um pano branco, para que o pão não ficasse com pó ou fosse tocado pelo sol e pela chuva. Outro adereço indispensável do padeiro era o saco a tiracolo (ver a fotografia nesta página), com o dinheiro para os trocos do cliente que pagava ao dia, ou regularizava a conta da semana à sexta-feira ou ao sábado (ao domingo não havia distribuição, era dia de torradas). Com a multiplicação dos supermercados, a

O Pátio das Antigas: O Viaduto de Duarte Pacheco em estaleiro

O Pátio das Antigas: O Viaduto de Duarte Pacheco em estaleiro

“No dia 19 de Fevereiro de 1939, foi adjudicada a uma firma de empreitadas de obras públicas a construção do viaduto que está sendo lançado sobre o Vale de Alcântara, entre os Sete Moinhos e a fronteira encosta de Monsanto e que servirá para lançar a entrada de acesso à auto-estrada Lisboa-Cascais. A obra foi adjudicada por 9796 contos (…).” Assim foi então anunciada na imprensa a construção do Viaduto de Duarte Pacheco, um projecto do engenheiro João Alberto Barbosa Carmona, baptizado com o nome do dinâmico ministro das Obras Públicas e Comunicações do Estado Novo, que morreria a 16 de Novembro de 1943, num acidente de viação. A obra, mostrada ainda em estaleiro na fotografia desta página, acabou por custar 16.691 contos e foi inaugurada a 28 de Maio de 1944, já após o desaparecimento do engenheiro Duarte Pacheco. Inaugurou-se ao mesmo tempo a auto-estrada Lisboa-Estádio Nacional, futura Lisboa-Cascais, com dois quilómetros de extensão. O Viaduto de Duarte Pacheco mobilizou 4100 operários e era, à altura, um dos maiores da Europa, com 471 metros de comprimento, 24 de largura e 27 de altura. Tinha duas faixas de rodagem, de sete metros e meio de largura cada uma, separadas por uma faixa arrelvada de três metros, e ainda dois passeios laterais, também de três metros cada. Em 1965, foram feitas algumas alterações à estrutura, entre elas a eliminação do separador central. Coisas e loisas de outras eras + O Salão de Outono da revista ‘Voga’ + Modelos, “soirées” e chás dançantes n

O Pátio das Antigas: O Salão de Outono da revista ‘Voga’

O Pátio das Antigas: O Salão de Outono da revista ‘Voga’

A Voga foi uma revista feminina portuguesa moldada à imagem da célebre Vogue americana, lançada em Outubro de 1927 pela Aillaud & Bertrand. Subintitulada Semanário Ilustrado da Mulher Portuguesa, a Voga organizou, na Sociedade Nacional de Belas Artes, em Lisboa, em Novembro de 1928, o I Salão de Outono da Elegância Feminina & Artes Decorativas, prometendo “20 dias de festas permanentes”, com muito “luxo e elegância e em que os artigos da especialidade são expostos pelas casas mais categorizadas de Portugal, Espanha e França”. Esta iniciativa tomou, na verdade, a forma de um grande salão industrial e comercial que não se dirigia apenas a um público essencialmente feminino, já que entre as dezenas de expositores, e para além das marcas ligadas aos sectores da moda, da beleza e da cosmética, da culinária, dos electrodomésticos, da decoração ou dos artigos para o lar, havia muitos outros de âmbito geral. Foi o caso da estatal Companhia dos Telefones (que aproveitou para apresentar os mais recentes modelos de aparelhos), de fabricantes de automóveis como a Lancia, a Mercedes-Benz, a Citroën ou a Willis Knight, das Companhias Reunidas do Gás e da Electricidade (que instalaram uma moderna “cozinha eléctrica ideal”, em que um especialista estrangeiro em culinária fazia demonstrações para o público), ou da Companhia Industrial Portuguesa, especializada em vidros artísticos. Para além de actuações de vários artistas e da presença de uma orquestra-jazz a tocar em permanência no Salão de

O Pátio das Antigas: Modelos, “soirées” e chás dançantes no Arcádia

O Pátio das Antigas: Modelos, “soirées” e chás dançantes no Arcádia

O Palácio Povolide, na Rua das Portas de Santo Antão, onde se encontra o Ateneu Comercial de Lisboa, teve lá instalado, entre as décadas de 30 e 50, um dos bares mais famosos, versáteis e luxuosos de Lisboa: o Arcádia. Inaugurado faz agora 92 anos, em Fevereiro de 1932, quando a rua se chamava ainda de Eugénio dos Santos, o Arcádia abriu não como uma festa mundana mas sim com um chá dançante, cujas receitas reverteram para o combate à tuberculose, através da Assistência Nacional aos Tuberculosos. Até fechar as portas, 20 anos mais tarde, em Dezembro de 1952, o Arcádia serviu com excelência a sua vocação original de bar, restaurante e dancing. Mas distinguiu-se também por organizar os chás dançantes de fim de tarde mais falados e concorridos da capital, e por receber iniciativas então ainda bastante raras, como passagens de modelos (ver a foto desta página) ou o lançamento de revistas. O estabelecimento promovia também as suas muito faladas soirées semanais elegantes, em que se tinha de trajar a rigor e havia surpresas, como sorteios e prémios para o melhor casal na pista de dança.  Numa altura em que era normal as casas de espectáculos, de diversões nocturnas e mesmo os restaurantes terem orquestra própria, o Arcádia chegou a ter duas, uma para os chás dançantes e as referidas soirées, e outra para o período nocturno. Em 1943, a casa foi totalmente remodelada, reabrindo ainda mais luxuosa. Dois anos depois de o Arcádia ter encerrado, pouco antes do Natal de 1954, o seu espaço

Vida, música e morte de Bob Marley

Vida, música e morte de Bob Marley

No dia 3 de Dezembro de 1976, Bob Marley, a sua mulher Rita e o seu empresário Don Taylor foram vítimas de um ataque em sua casa em Kingston, na Jamaica, por homens armados. Rita Marley e Don Taylor ficaram feridos com alguma gravidade, ao contrário do músico. Marley ia tocar, dentro de dois dias, num concerto promovido por Michael Manley, o primeiro-ministro jamaicano, para tentar acalmar os problemas e a violência entre dois partidos políticos rivais. Nunca se conseguiram saber bem quais as razões do ataque, mas terá sido por motivos políticos e não para roubar, já que o ícone da música reggae supostamente apoiava Manley e os opositores deste não gostavam disso. Mesmo assim, o concerto foi para a frente com Bob Marley em palco. Este acto de violência está no centro de Bob Marley: One Love, o filme biográfico de Reinaldo Marcus Green (Top Boy, King Richard: Além do Jogo) que se estreia em Portugal esta quinta-feira, 14 de Fevereiro. Além de contar a história da vida de Bob Marley, a sua ascensão à fama, e de destacar a projecção internacional que ele deu ao reggae, o filme recria também a sua participação no concerto One Love Peace Concert, realizado em Kingston, em 1978, e que, tal como o de 1976, visava reconciliar os dois maiores partidos políticos jamaicanos, o Partido Trabalhista e o Partido Nacional do Povo. Bob Marley: One Love foi feito com o consentimento e a colaboração plena da família Marley, tendo a sua mulher Rita e os filhos Ziggy e Cedella tido funções de pro