A Favorita

Filmes, Drama
Escolha dos críticos
4 /5 estrelas
A Favorita

A Time Out diz

4 /5 estrelas

O poder é como mel, 
seja para os homens, seja para
as mulheres. A Favorita, de Yorgos Lanthimos (Canino, A Lagosta) é a história real, embora com algumas liberdades e anacronismos, de duas mulheres que lutaram sem quartel por um bocado desse mesmo poder, ao mais alto nível, junto da corte, na Inglaterra do início do século XVIII, disputando o exclusivo dos favores, da intimidade, da confiança e das prebendas da Rainha Ana, a última monarca da casa Stuart.

Uma dessas mulheres, Lady Sara Churchill, duquesa de Malborough (Rachel Weisz) já goza há muito de tudo isso e é praticamente ela que manda
na corte e até na política estrangeira, dada a sua relação de estreita proximidade com a monarca (Olivia Colman), doente com gota, bulímica, muito influenciável e de humores que mudam bruscamente. Surge então no palácio a jovem e ambiciosa Lady Abigail (Emma Stone), prima afastada e arruinada de Lady Sara, que num primeiro tempo humilha a parente pondo-a a trabalhar na cozinha. Mas Lady Abigail quer recuperar a posição de
 que outrora gozou na sociedade e está consumida por uma
 febre abrasadora de ascensão 
na corte. E vai, lenta mas consistentemente, insinuar-se junto da rainha, e inquietar cada vez mais a sua toda-poderosa prima. Que comecem os jogos de poder, onde vale tudo, desde envenenar chá a masturbar a monarca, e até mesmo derrubar primeiros-ministros e mudar governos.

Escrito por Deborah Davies
e Tony McNamara – e não por Lanthimos, como costuma ser hábito – e rodado em vários sumptuosos palácios e casas senhoriais inglesas, A Favorita parece, mas não é, uma daquelas produções históricas de “prestígio BBC”, embora apresente todas
 as suas características, dos locais onde decorre até ao guarda-roupa. Dentro desse invólucro convencional está um filme brutal, cómico (há momentos que parecem saídos da série Black Adder), libertino e trágico, onde as personagens tanto se expressam tal e qual como na época em que se passa, como falam e praguejam de forma claramente anacrónica, em que duas fêmeas alfa disputam um lugar no topo da cadeia social e económica, manipulando
e estabelecendo alianças de conveniência com os homens em seu redor.

Entretanto, Lanthimos vai-nos dando vislumbres – alguns muito, muito crus – de como era
 a vida na corte, e na Inglaterra da época, do Parlamento aos bordéis, passando por pormenores insólitos como os 17 coelhos de estimação da Rainha Ana, um para cada filho que perdeu, e pelos costumes, que iam do mais sofisticado ao mais chocante.
 Se há um filme com o qual A Favorita pode encontrar filiação, nas situações, no tom e no recorte, é sem dúvida o já remoto Tom Jones, de Tony Richardson (1963), baseado no romance de Henry Fielding, que tinha sete anos quando a Rainha Ana morreu.

Candidato a dez Óscares, tantos quanto Roma, de Alfonso Cuarón, A Favorita não passa sem ter alguns aspectos irritantes. Por exemplo, Ana não era tão tonta nem tão influenciável como o filme mostra (foi
uma boa monarca e o seu reinado teve várias realizações importantes), não há provas concretas de terem existido relações lésbicas entre ela, Lady Sara e Lady Abigail, e o realizador insiste em deformar as imagens recorrendo a uma grande angular. Olivia Colman, Rachel Weisz e Emma Stone sugam os seus carnudos papéis até ao tutano, embora estas duas tenham a grande vantagem de as suas personagens estarem em permanente conflito. O espectáculo de A Favorita pertence plenamente a este trio de actrizes.

Por Eurico de Barros

Por Eurico de Barros

Publicado:

Detalhes

Detalhes da estreia

Classificação
15
Data de estreia
terça-feira 1 janeiro 2019
Duração
119 minutos

Elenco e equipa

Realização
Yorgos Lanthimos
Elenco
Emma Stone
Rachel Weisz
Olivia Colman