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A Pior Pessoa do Mundo

  • Filmes
  • 4/5 estrelas
Renate Reinsve
Oslo Pictures
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A Time Out diz

4/5 estrelas

Joachim Trier fecha a Trilogia de Oslo com ‘A Pior Pessoa do Mundo’, uma comédia romântica com feitio indie e tracção a cargo de Renate Reinsve.

Assentar na vida. É tudo o que quer Julie, prestes a entrar na casa dos 30, e heroína de A Pior Pessoa do Mundo. Este é o último filme da chamada Trilogia de Oslo, do norueguês Joachim Trier, escrito com Eskil Vogt, seu habitual colaborador e velho amigo – e à qual pertencem também Reprise, de 2006 (dois jovens amigos, ambos escritores, tentam perceber o que o futuro lhes reserva, ao mesmo tempo que começam a levar encontrões da vida), e Oslo, 31 de Agosto, de 2011, baseado em Le Feu Follet, de Drieu La Rochelle (um toxicodependente em tratamento aproveita um dia livre para reencontrar amigos em Oslo, percebe que o futuro não lhe reserva nada e decide matar-se).

Ao que parece, Trier só se deu conta de que estes filmes formavam uma trilogia, pelos temas, personagens e por se passarem todos em Oslo, quando um dos actores lhe chamou a atenção para o facto após ler o argumento de A Pior Pessoa do Mundo. Pouco importa se isto é verdade e se houve intenção consciente de fazer um trio de filmes interligados. Mas parece inegável que em todos eles Joachim Trier dá voz, rostos e representação à geração dos chamados millennials, às suas ambições, dúvidas, ansiedades e desejos de estabilidade social, sentimental e profissional, num mundo em que a pressão e os estímulos para o fazerem não pára de aumentar, e onde a sensação de que o tempo está a correr contra eles é cada vez mais intensa (como disse recentemente um economista: “Já não são os fortes que comem os fracos, são os rápidos que comem os lentos”).

A Pior Pessoa do Mundo é um retrato em 12 tempos, e ao longo de quatro anos, de Julie (Renate Reinsve, Prémio de Interpretação Feminina em Cannes), uma verdadeira salta-pocinhas em termos de vocações, empregos, projectos de vida e amores, e cada vez mais angustiada por ir passar a barreira dos 30 anos sem ter arrumado a vidinha e acalmado os sentimentos, conseguido um trabalho de que gosta minimamente, arranjado (ou não) um namorado ou um marido, e tido (ou não) filhos. E apesar de viver numa época em que, como mulher, tem uma liberdade e uma disponibilidade como nenhuma outra da sua família teve (há uma altura do filme em que Julie passa em revista-relâmpago o destino das mulheres da família pelo menos até ao século XIX, através das fotografias que a mãe tem em casa), ela só tem falsas partidas. Mesmo no amor, já que depois de se juntar com Aksel, um autor de comics underground quarentão (Anders Danielsen Lie, cara habitual nas fitas de Trier), acaba por o deixar pelo mais jovem e sedutor Eivind (Herbert Nordrum).

Tudo isto considerado, A Pior Pessoa do Mundo é uma comédia romântica com feitio indie, na qual Joachim Trier consegue, ao mesmo tempo, manejar temas, convenções, personagens e dispositivos consagrados deste formato, e virá-los do avesso ou pô-los em perfeita sintonia com os tempos (ver o gráfico do artigo sobre sexo oral que Julie escreve, publica e é amplamente debatido nas redes sociais, ou a sequência em que Aksel tem um ácido debate na rádio com uma feminista da era #MeToo e descobre que os seus aclamados e subversivos comics afinal são sexistas, ofensivos e misóginos).

Trier fá-lo lançando mão de um estilo visual tão dinâmico e inquieto como a própria personagem, que nos presenteia com um par de achados (a cena em que Julie corre através de uma Oslo congelada para ir ao encontro de Eivind – e a única no filme em que o tempo está do seu lado, ao parar para a deixar fazer o que deseja); e com tracção a cargo de Renate Reinsve, senhora de uma capacidade e uma versatilidade de expressão emocional a perder de vista, e que consegue que continuemos a interessar-nos por Julie até ao final. Até nas alturas em que, se ela existisse na vida e a conhecêssemos, nos apetece pregar-lhe um par de estalos e dar-lhe um berro para que pare de andar feita barata tonta e atine de uma vez por todas. (Mas era mesmo preciso que o já tão castigado Aksel acabasse como acaba?)

Escrito por
Eurico de Barros

Elenco e equipa

  • Realização:Joachim Trier
  • Argumento:Joachim Trier, Eskil Vogt
  • Elenco:
    • Renate Reinsve
    • Anders Danielsen Lie
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