Eagles of the Republic
Photograph: Tarik Saleh

Crítica

Águias da República

3/5 estrelas
Último título da Trilogia do Cairo, é parte policial e parte fita de intervenção política, passada entre o meio do cinema e o do poder no Egipto.
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A Time Out diz

George Fahmy (Fares Fares), o protagonista de As Águias da República, de Tarik Saleh, é o mais popular actor do Egipto, de tal forma que é conhecido como “O Faraó do ecrã”. Fahmy tem tudo: fama, fortuna, privilégios de “estrela”, a admiração do país em peso, dos mais humildes aos mais poderosos, um agente que lhe faz todas as vontades, um apartamento luxuoso, uma namorada, também actriz, bastante mais nova do que ele, e controlo absoluto sobre os filmes que faz. Mas nem tudo são rosas na sua vida. Fahmy está divorciado da mulher, que vive com o filho adolescente de ambos, para o qual tem muito pouco tempo, o que tenta compensar dando-lhe presentes caros e vistosos, como o relógio que acaba de comprar para lhe oferecer nos anos.

O actor acabou de rodar mais um filme e, juntamente com o realizador, está a tentar fazê-lo passar pelos censores (todos mulheres, e muito sisudas e exigentes) sem ser preciso cortar nem refilmar nada, e já a preparar a próxima produção. Uma noite, quando está num bar com a namorada, um pequeno grupo de pessoas de aspecto sofisticado interroga-o sobre o seu patriotismo e a sua lealdade ao Presidente da República, Abdel al-Sisi. Fahmi, que é cristão copta e não muçulmano, responde com humor e sarcasmo, pensando tratar-se apenas de uma brincadeira de mau gosto, e vai-se embora.

A partir daí, tudo muda na sua vida. É retirado do filme que ia protagonizar e substituído por um actor de menor valia, a sua imponente caravana é removida do estúdio e o seu agente diz-lhe que os militares o contactaram e querem que ele interprete el-Sisi numa superprodução patriótica. Fahmy responde que nem pensar. Não só ele e o presidente não têm a menor parecença como também a sua fé não é a islâmica, e nunca aceitaria participar num filme desse teor. As coisas pioram a partir daí. Começa a ser seguido, percebe que o seu apartamento está sob escuta, homens armados com ar de polícias secretos dizem-lhe que o filho pode sofrer graves consequências da sua recusa, e a sua colega e amiga Rula Haddad é, primeiro, pressionada num programa de televisão a dizer mal dele, e depois privada de papéis, ao ponto de ter que lhe ir pedir auxílio e dinheiro. 

Fahmy tem então que aceitar o papel, assim como um convite, feito durante um jantar em casa do ministro da Defesa, para discursar perante el-Sisi nas comemorações do Dia das Forças Armadas. É nesse jantar que um dos civis presentes lhe diz serem os poucos e selectos convidados conhecidos como As Águias da República. Eles são o garante da segurança, da paz e da prosperidade do Egipto, e têm poder para fazer tudo o que lhes apeteça. Fahmy aproveita então para interceder pela sua colega Rula, e pelo filho de um vizinho, um estudante universitário que foi preso num protesto. Entretanto, a tensão e os conflitos no set do filme são cada vez mais e maiores, e Fahmy só muito tarde, quando se vir no meio de uma sangrenta tentativa de golpe de Estado, vai perceber como foi manipulado e como a sua vida, e a dos seus, pouco ou nada vale para os seus manipuladores.

As Águias da República é o terceiro filme da Trilogia do Cairo assinada por Tarik Saleh, nascido na Suécia de pais imigrantes egípcios. Juntamente com os dois anteriores, The Nile Hilton Incident, de 2017 (nunca exibido em Portugal) e A Conspiração do Cairo, de 2022, formam um quadro amplo da corrupção no Egipto (da polícia e dos militares, até à hierarquia religiosa e aos serviços secretos) e do imenso poder da oligarquia militar e dos seus apêndices civis que o governam, cuja influência abrange a vida económica do país e mesmo a indústria cinematográfica e do entretenimento. É um regime autoritário e cleptocrático em vigor no país desde o golpe de 2013, quando a tropa depôs o recém-eleito Presidente Mohamed Morsi e esmagou a perigosa e radical Irmandade Muçulmana, com a qual este tinha ligações.

Parte thriller de suspense tradicional, parte filme de intervenção política na linha de um Costa-Gavras, As Águias da República foi, tal com os outros dois títulos da trilogia, rodado na Turquia, tendo também sido usadas imagens documentais de arquivos e alguns planos feitos clandestinamente no Cairo. Tarik Saleh vive na Suécia mas é persona non grata no Egipto desde 2017, quando ia começar a filmar The Nile Hilton Incident, estando proibido de lá regressar. Fares Fares, o principal intérprete, e actor preferido e grande amigo de Saleh, libanês naturalizado sueco, também não é bem-vindo no Egipto. Tal como as outras duas fitas da Trilogia do Cairo, também As Águias da República mostra que é possível fazer cinema politicamente comprometido e entreter o público ao mesmo tempo – e sem abdicar da componente comercial.

Elenco e equipa

  • Realização:Tarik Saleh
  • Argumento:Tarik Saleh
  • Elenco:
    • Fares Fares
    • Lyna Khoudri
    • Amr Waked
    • Cherien Dabis
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