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3 /5 estrelas
Cruzeiro Seixas - As Cartas do Rei Artur
©DR

A Time Out diz

3 /5 estrelas

“Amei muito o Mário, o que não dizer que fôssemos amantes, não fomos”. As palavras de Cruzeiro Seixas marcam o documentário de Cláudia Rita Oliveira. Filme destinado a mostrar a obra de um representante do surrealismo praticamente esquecido, tomada pelo amor nascido da longa amizade com Mário Cesariny. O que explica a sua exibição em conjunto com Autografia, versão restaurada do documentário realizado por Miguel Gonçalves Mendes, em 2004 – onde a realizadora de As Cartas do Rei Artur foi operadora de câmara.

É, pode-se dizer, a história de um desencontro amoroso. Não era necessariamente para ser assim, mas são estranhos os caminhos do cinema e nem com a previsibilidade do documentário se pode contar. Aconteceu na película de Cláudia Rita Oliveira. Cruzeiro Seixas – As Cartas do Rei Artur é arrebatada pelo protagonista, melhor, pela sua paixão pelo amigo de infância revelada como uma espécie de fluxo de consciência e ilustrada por extractos de poemas e cartas, muitas cartas trocadas e dispostas entre memórias outras e das mais variadas. É uma relação com altos e baixos. Baixos muito baixos e muito tardiamente resolvidos; baixos de uma intensidade que transborda para a obra – controversa, como, aliás, a de todos os mal-amados surrealistas portugueses – como um prolongamento da vida. E é uma história de alguém magoado pelo abandono, pelo desaparecimento dos amigos, pelo que podia ter sido e não foi.

Dirigido de maneira um pouco mais convencional, mas nem por isso menos substancial no seu conteúdo, Autografia, de Miguel Gonçalves Mendes, coloca o foco sobre a obra de Mário Cesariny (também ele poeta e pintor). Há uma dúzia de anos, quando estreou, teve o surpreendente efeito de tornar o artista maldito em personalidade das artes e das letras, admirado tanto pela sua obra como pela sua colorida, agitada e sofrida vida, no processo provocando um breve mas interessante debate sobre o surrealismo e os aventureiros do Café Gelo. Vistos em conjunto, estes filmes são como duas peças de um quebra-cabeças ainda por completar, ou melhor, são testemunhos poéticos da vida de artista.

Por Rui Monteiro

Por Rui Monteiro

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