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Crítica
Durante quase 25 anos, entre 1920 e 1942, o compositor Richard Rodgers e o letrista Lorenz Hart, amigos de juventude, assinaram em parceria 26 musicais da Broadway, incluindo clássicos como A Connecticut Yankee, Jumbo, Babes in Arms, Pal Joey ou By Jupiter, que incluem melodias que se tornaram clássicos absolutos do cancioneiro popular americano, como Blue Moon, The Lady is a Tramp ou My Funny Valentine, entre muitas outras. E que transcenderam os enredos e o palco para que foram compostas originalmente, passando a ser entoadas por crooners e cantoras, e a conhecer versões de jazz e mesmo interpretações pop/rock.
Em 1943, e devido ao alcoolismo de Lorenz Hart, juntamente com o choque que este sofreu com a morte da mãe (com a qual sempre viveu), a parceria, uma das de maior sucesso do século XX na área da música, desfez-se. Richard Rodgers virou-se então para Oscar Hammerstein, com o qual trabalharia, também com imenso sucesso, até 1960, data da morte deste. Hart, cuja condição psicológica vinha a deteriorar-se, acabaria por morrer a 22 de Novembro de 1943, de pneumonia. Tinha só 48 anos. Ainda assistiu à estreia de Oklahoma!, o primeiro musical de Rodgers e Hammerstein, e colaboraria uma derradeira vez com o seu velho amigo e parceiro, numa nova versão de A Connecticut Yankee, para a qual escreveu as letras de várias canções.
O filme Blue Moon, de Richard Linklater, escrito por Robert Kaplow e com Ethan Hawke no papel de Lorenz Hart, passa-se precisamente na noite da estreia de Oklahoma! na Broadway, a 31 de Março de 1943, e quase todo no célebre restaurante Sardi’s. É lá que um Hart amargurado, frustrado e cheio de ciúmes de Oscar Hammerstein, e que saiu de Oklahoma! antes do final, espera pela festa pós-estreia, para fingir que adorou o musical e cumprimentar os seus autores – e tentar convencer Rodgers a trabalharem numa nova e atrevida obra que ele concebeu, uma versão satírica da vida de Marco Polo. O letrista aguarda também pela sua protegida e grande paixão Elizabeth Weiland, então estudante universitária, e futura cenógrafa, para lhe declarar o seu amor (Hart seria, segundo alguns, um homossexual recatado e um voyeur; segundo outros, seria bissexual, e sofreria de bipolaridade).
Enquanto o espectáculo não acaba e as pessoas não chegam, Hart conversa jocosamente com o seu amigo Eddie, o barman do hotel, e com um jovem soldado que ali está a tocar piano e ao qual dá alguns conselhos sobre o mundo do espectáculo; e mais seriamente com o escritor E.B. White, que por coincidência também lá se encontra a beber e a alinhavar notas para um novo livro. E apesar de criticar (com muita dor de cotovelo) Oklahoma!, que classifica de emocionalmente superficial e saloio, e sobretudo as letras de Hammerstein, que considera serem pirosas, Hart está todo roído por dentro, porque percebeu de imediato que o musical vai ser um gigantesco sucesso. E o seu nome não está lá ao lado do de Rodgers como autor.
Num pormenor divertido, Kaplow e Linklater fazem Oscar Hammerstein aparecer acompanhado por um miúdo muito senhor do seu nariz e que parece saber tudo sobre musicais, a que aquele chama Stevie – e que não é senão Stephen Sondheim, futuro gigante da Broadway e renovador do teatro musical norte-americano. Sondheim era amigo do filho de Hammerstein, que ao descobrir o precoce talento do rapaz, se tornou no seu mentor artístico, e no seu pai substituto, já que o pai biológico do pequeno Stevie o tinha abandonado e à mãe. E se para Rodgers e Hammerstein a noite se revelará de triunfo e de críticas elogiosíssimas nos jornais, ela será duplamente triste e dolorosa para Lorenz Hart, porque à profunda decepção profissional que já sente irá juntar-se uma enorme desilusão romântica. Não é exagero escrevermos que em Blue Moon, Richard Linklater e Robert Kaplow filmaram a noite mais trágica da vida de Hart.
O filme marca a 11.ª colaboração entre Linklater e Ethan Hawke, que esperaram mais de dez anos para o fazer, porque o realizador quis esperar que Hawke – que tem 55 anos – parecesse “velho o suficiente” para personificar Hart. Blue Moon foi rodado em apenas 15 dias num estúdio na Irlanda, e como Lorenz Hart era baixinho, Hawke foi “encolhido” digitalmente nalgumas cenas, e fez outras metido numa trincheira, para estar mais baixo do que a câmara e os outros actores. No elenco encontramos ainda Bobby Canavale, Margaret Qualley, Andrew Scott, Samuel Delaney e Patrick Kennedy. Além de Robert Kaplow na categoria de Argumento Original, Ethan Hawke está nomeado ao Óscar de Melhor Actor pela sua magnífica interpretação de Lorenz Hart. Num mundo perfeito, ganhá-lo-ia de olhos fechados.
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