Charlatão

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2 /5 estrelas
Charlatão

A Time Out diz

2 /5 estrelas

Após ter realizado em 2019 Mr. Jones, em que recordou o esforço do jornalista britânico Gareth Jones para revelar ao mundo, nos anos 30, a Grande Fome e os milhões de mortos deliberadamente causados por Estaline na Ucrânia, a checa Agnieszka Holland regressa, em Charlatão, com uma história verídica – e insólita – passada no seu país, que abrange os períodos da ocupação nazi e da governação comunista que se lhe seguiu. A personagem principal de Charlatão é Jan Mikolasek (1889-1973), um herbalista (ou fitoterapeuta) que se tornou conhecido na Checoslováquia de antes da II Guerra Mundial, por conseguir curas ditas milagrosas recorrendo apenas a ervas e produtos naturais.

As pessoas vinham de todos os cantos do país para consultar Mikolasek (interpretado por Ivan Trojan, consagrado actor checo) e faziam fila durante horas à porta de sua casa, que também servia de consultório e laboratório. A acreditar no filme, ele conseguia fazer o diagnóstico a um paciente só de olhar para a urina deste (Charlatão abusa um pouco dos planos de Mikolasek a fitar com ar sério recipientes de vidro cheios de líquido amarelo…). Era muito generoso para com os mais pobres e tratou pacientes alemães durante o período da ocupação nazi, bem como altos dignitários comunistas nos anos após a guerra, incluindo pelo menos um Presidente da República.

Nos finais da década de 50, o regime decidiu acusá-lo de charlatanismo, julgá-lo e prendê-lo, já que a sua figura e os seus métodos heterodoxos de análise e tratamento não encaixavam no rígido quadro da medicina estatizada do país, e a sua enorme popularidade era cada vez mais incómoda para as autoridades. O facto de Mikolasek ser um católico devoto também ajudou à acusação. Para Agnieszka Holland e para o argumentista Marek Epstein, não há a menor dúvida: longe de ser um vulgar vigarista ou um curandeiro habilidoso, Marek Mikolasek tinha um dom quase sobrenatural (e que fica por analisar ou explicar); era o artigo genuíno, e tratava a todos por igual, fosse rico ou pobre, anónimo ou poderoso, ocupante alemão ou usurpador comunista.

Charlatão inclui, no entanto, uma forte componente ficcional, representada pela figura do assistente de Mikolasek, Frantisek Palko (Juraj Loj). Baseada apenas em especulações, Agnieszka Holland inventa uma relação homossexual entre os dois homens, que lhe serve não só para dramatizar os conflitos internos do protagonista (um católico praticante com um casamento falhado e dilacerado por causa das suas tendências sexuais, numa altura em que nem sequer se pensava em serem socialmente aceites) como também para resolver o filme com uma reviravolta inesperada, após a prisão dos dois homens e o fecho das instalações pela polícia secreta checa.

E no final de Charlatão, o comportamento surpreendentemente pusilânime de Mikolasek entra em contradição com tudo aquilo que o filme mostrou antes sobre ele e os seus princípios, deixando no ar uma nota de ambiguidade que soa falsa e forçada, já que Holland tinha, por várias vezes ao longo da história, posto em relevo as várias e muito humanas imperfeições da personalidade e do carácter da personagem. É como se houvesse uma dupla traição: a de um dos homens ao outro, e a do próprio filme ao seu protagonista. E nenhuma delas nos deixa convencidos ou satisfeitos.

Por Eurico de Barros

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