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Crítica
Um dos melhores filmes fantásticos espanhóis tem apenas 35 minutos, foi feito em 1972 para a TVE, a televisão pública do país. Chama-se La Cabina e foi realizada por Antonio Mercero. Nele, um homem entra para uma cabina telefónica recém-instalada num jardim de Madrid, e fica lá preso. Vão-se juntando cada vez mais pessoas a ver e a comentar a situação. Algumas delas tentam libertar o homem das maneiras mais variadas, mas sem sucesso. Chega então a polícia, mas também não consegue. Quando os bombeiros estão prestes a rebentar com a cabina à machadada, aparece a equipa de homens que a instalou e levam-na, com o homem preso lá dentro. E o que até agora era uma comédia vai transformar-se num pesadelo surreal.
O impacto de La Cabina sobre os espanhóis foi tal que a facturação das cabinas telefónicas públicas baixou drasticamente, e a companhia estatal de telecomunicações, a Telefonica, pediu a Mercero e ao intérprete do filme, José Luís López Vazquez, que fizessem um anúncio em que se mostrasse que as cabinas públicas funcionavam e eram totalmente inofensivas. À sua maneira, o filme De Mãos Atadas, de Ángel de la Cruz, é vagamente reminiscente de La Cabina, pela sua situação narrativa. E também de outro filme mais próximo de nós, este americano, Jogo Perigoso, realizado por Mike Flanagan em 2017, adaptando o livro homónimo de Stephen King (Gerald’s Game, no original).
La Cabina é sobre um homem aprisionado numa cabina telefónica e Jogo Perigoso sobre uma mulher (Carla Gugino) que, para dar um novo fôlego ao casamento, ia fazer uma fantasia sexual com o marido (Bruce Greenwood). Este morre de súbito com um ataque de coração, e ela fica atada de pés e mãos à cama de uma cabina isolada junto a um lago. O herói de De Mãos Atadas, Daniel Lonces (Jaime Lorente), vai ter uma experiência semelhante, só que na sua própria casa. Daniel é um autor de livros de terror de muito sucesso (a fita é baseada num livro de David Jasso, aclamado escritor espanhol de obras de terror, ficção científica e policiais), que se mudou para uma vivenda novinha em folha com a mulher e o filho pequeno, e está a escrever um livro novo, que tem que entregar ao editor dentro de pouco tempo.
Só que o escritor está com um bloqueio criativo, e tem uma ideia insólita para chamar a inspiração. Vai buscar à garagem uma cadeira velha mas sólida, e pede à mulher que o ate de mãos e pés e o amordace, para que possa experimentar o que a heroína do seu livro, que foi raptada, está a viver. A mulher assim faz, usando aquelas algemas maleáveis mas muito resistentes com que os polícias manietam os detidos, e reforça-lhe a mordaça com fita isolante. Fica combinado que ela virá soltar Daniel dentro de duas horas. Só que o inesperado acontece. A mulher tem um acidente na cozinha e não dá acordo de si, e Daniel vê-se firmemente preso à cadeira, impedido de pedir socorro através da assistente digital por estar amordaçado, e com o filho amedrontado e confuso e a chorar aflitivamente.
De Mãos Atadas dura apenas 76 minutos, mais meia hora do que La Cabina, e menos 40 que Jogo Perigoso. E Ángel de la Cruz aproveita cada minuto da fita para espremer o máximo de sumo de suspense, de desconforto e dramático, da provação que Daniel está a viver, à medida que as oportunidades pontuais de socorro se vão frustrando. Uma delas envolve a sua jovem amante, com a qual o escritor prometeu passar o fim-de-semana com ponte durante o qual se passa a acção do filme e que está lá fora na rua, dentro do seu carro, desesperada e sem saber o que fazer, porque Daniel não atende o telefone; e outra, a mãe de um grande fã de Daniel, um rapaz muito influenciável que morreu por causa do último livro que ele escreveu, e vai desempenhar um papel fundamental no enredo e na sua conclusão (que podia ter sido um bocadinho mais bem trabalhada).
Há ainda que referir que De Mãos Atadas tem um punhado de referências directas, bem explícitas, a Stephen King e ao seu universo de terror. E se nos dissessem que tinha sido baseado num conto longo ou numa novela do autor de Carrie, éramos capazes de acreditar. Juntando-o com La Cabina e com Jogo Perigoso, tínhamos uma belíssima sessão tripla temática.
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