Mandíbulas

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3 /5 estrelas
Mandíbulas

A Time Out diz

3 /5 estrelas

‘Mandíbulas’, de Quentin Dupieux, sobre dois idiotas chapados que encontram uma mosca gigante, é uma comédia absurda de cara séria.

Ao contrário dos ingleses, os franceses não têm uma grande tradição de nonsense. Mas há sempre excepções, e uma delas é representada no cinema por Quentin Dupieux, que conta entre os seus filmes com títulos como Nonfilm (2002), em que um actor acorda e está no meio da rodagem de uma fita que desconhece e ninguém o estranha; 100% Camurça (2019), onde Jean Dujardin interpreta um homem obcecado por um casaco de camurça que encontrou; e acima de todos, Rubber-Pneu (2010), rodado nos EUA, uma inenarrável paródia aos filmes de terror série Z, sobre um pneu com vida própria e vocação de assassino em série.
Mandíbulas, o mais recente filme de Dupieux (que o produziu, escreveu, realizou, fotografou e montou), competiu no Festival de Veneza de 2020 e é uma comédia serenamente chanfrada (ou loufoque, como se diz em França), que se recomenda em particular aos apreciadores mais hardcore de humor absurdo com rosto impassível. Manu (Grégoire Ludig) e Jean-Gab (David Marsais) são dois idiotas chapados que não têm onde cair mortos (no caso de Manu, literalmente: foi expulso de casa por não pagar a renda e dorme ao relento numa praia). Um dia, um amigo pede-lhe para entregar uma mala numa vivenda sem fazer perguntas, serviço pelo qual lhe pagará 500 euros.

Manu rouba um carro, um velho Mercedes todo rebentado, para fazer o serviço e decide convidar o seu amigo Jean-Gab, que trabalha na estação de serviço da mãe, para o acompanhar. Pelo caminho, começam a ouvir um estranho barulho no porta-bagagens do carro (Jean-Gab sugere poder ser um secador de cabelo que ficou ligado). Param o carro à beira da estrada, abrem o porta-bagagens e lá descobrem uma mosca gigante. E em vez de ficarem espantados ou aterrorizados, começam a pensar em como ganhar dinheiro com o enorme insecto. Jean-Gab tem então uma ideia: treiná-la como se fosse um cão – ou um drone vivo – para lhes trazer comida e em especial roubar dinheiro dos bancos. E dá-lhe um nome: Dominique.

Partindo desta premissa estapafúrdia, a narrativa vai-se tornando cada vez mais delirante, embora Quentin Dupieux mantenha sempre um tom de filme “normal” que está a contar uma história perfeitamente vulgar e racional, com protagonistas que têm QI medianos e não a roçar o zero, como Manu e Jean-Gab. Do princípio ao fim, Mandíbulas cultiva um absurdo de cara o mais séria possível, apesar de ter personagens como Agnès (Adèle Exarchopoulos), uma rapariga que ficou com um problema vocal depois de um acidente de esqui e só fala aos gritos; da mosca Dominique revelar a certa altura uma preferência inesperada por cães pequeninos; ou de haver um ricaço que encomendou a dois dentistas gémeos uma dentadura postiça incrustada de diamantes.

Se me pedissem para definir Mandíbulas sinteticamente, eu diria que parece o cruzamento de um pastiche francês e encardido de um filme dos irmãos Coen com uma versão gozona e no budget de A Mosca. E já agora, a gigante Dominique é mais um defeito do que um efeito especial. Mas o filme é tão descontraído, consistente e assumidamente disparatado, que não faz a menor diferença.

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