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Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas

  • Filmes
  • 2/5 estrelas
Nightmare Alley
Photograph: Kerry Hayes. © 2021 20th Century Studios All Rights Reserved
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A Time Out diz

2/5 estrelas

Ficámos decepcionados com ‘Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas’, em que Guillermo del Toro revisita um filme policial de Hollywood dos anos 40.

Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas é o primeiro filme realizado por Guillermo del Toro em que não há elementos de fantástico, terror ou de ficção científica, embora paire sobre ele uma dimensão fantasmagórica que depois se revela ser falsa, um embuste. O filme adapta um livro policial de William Lindsay Gresham, Nightmare Alley, escrito em 1946, e que Hollywood filmou logo no ano seguinte em O Beco das Almas Perdidas, pela mão do experientíssimo Edmund Goulding, com Tyrone Power no principal papel, o de Stanton Carlisle.

Stanton é um sujeito sem eira nem beira que arranja emprego numa feira itinerante manhosa, daquelas que percorriam os EUA com atracções várias, incluindo aberrações humanas reais ou falsas, carrosséis e números de mentalismo. Stanton começa a trabalhar num desses espectáculos de falsa adivinhação mental com uma vidente chamada Zeena e o seu marido alcoólico, cuja morte causa certa noite, por acidente. Já não sendo bem-vindo na feira, Stanton vai-se embora com Molly, uma jovem que fazia um número de mulher imune à electricidade, formando uma parceria com esta em que aperfeiçoa o que aprendeu com Zeena e o marido. Transforma-se então num mentalista de renome, “O Grande Stanton”, que trabalha nos melhores hotéis tendo Molly como parceira.

Quando Lilith, uma astuta psicóloga, o tenta desmascarar numa actuação e falha, Stanton percebe que ela, por via da sua profissão, tem informação privada e muito valiosa sobre a elite de Chicago, e juntam-se para enganar pessoas ricas que julgam que ele consegue mesmo comunicar com os mortos. E a sua maior presa vai ser um velho e poderoso milionário, Ezra Grindle, o qual Stanton convence poder materializar o espectro da sua jovem amada há muito morta, que será personificada por Molly. Só que esta, à última da hora, arrepende-se, o golpe falha, Stanton mata Grindle, é perseguido pela polícia e tem que regressar às feiras de onde veio, agora numa situação degradante.

Esta primeira versão de O Beco das Almas Perdidas é uma adaptação do livro de William Lindsay Gresham rodada ao estilo profissional, directo, despretensioso e prático do film noir de Hollywood desses distantes anos 40, uma série B com aspecto e meios de série A, porque Tyrone Power gozava dos favores de Darryl F. Zanuck, o então poderoso director dos estúdios 20th Century Fox. A versão realizada e co-escrita por Guillermo del Toro é muito mais ambiciosa e elaborada, formal, estética e dramaticamente, e apresenta um elenco em que Bradley Cooper sucede a Tyrone Power no papel de Stanton Carlisle, acompanhado por Cate Blanchett, Rooney Mara, Willem Dafoe, Toni Collette, David Strathairn, Richard Jenkins, Mary Steenburgen e Ron Perlman – um luxo de elenco.

Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas é um filme que se esmera até ao mais ínfimo detalhe na recriação das atmosferas da época em que decorre a acção, sejam os recantos sórdidos da feira em que Stanton arranja trabalho e vai depois aprendendo os truques por detrás do número de mentalismo, sejam os ambientes luxuosos que vai frequentar com Molly e com a sua cúmplice, após se tornar célebre e requisitado. Só que enquanto o despachado Edmund Goulding narrava a história do seu anti-herói em menos de duas horas, Guillermo del Toro demora duas horas e meia a descrever a ascensão e a queda do ousado vigarista. E parece mais interessado em impressionar com os aspectos ora mais desagradáveis (a colecção de fetos disformes da personagem de Willem Dafoe na feira), ora mais requintados da direcção artística da fita (os interiores luxuosos por onde Stanton e Molly se movimentam após terem ascendido no mundo do espectáculo), do que em contar a história depressa, bem e com emoção. Basta ver, por exemplo, o tempo que perde a mostrar Stanton a convencer Ezra Grindle de que consegue mesmo comunicar com os mortos, ou a exibir o sumptuoso consultório art déco da sua sensual e amoral cúmplice Lilith (Blanchett).

Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas é um interessante exemplo de história ilustrativa da insondável credulidade humana, sobretudo no que respeita ao desgosto pela perda dos entes queridos, e que está povoada por actores nunca menos que bons (e Bradley Cooper volta a mostrar o que consegue fazer desde que tenha um papel decente e seja bem dirigido). Só que Guillermo del Toro podia ter aprendido a lição do seu antecessor da década de 40, e filmado Nightmare Alley – Beco das Almas Perdidas com muito mais eficácia, espírito de síntese e impacto dramático, e menos insistência quer no grotesco, quer no sofisticado, que de tão reiterados e pormenorizados acabam por perder o desejado efeito de realismo e tornar-se óbvia e melindrosamente encenados e artificiais. E ainda por cima, com algumas costuras digitais à mostra.

Escrito por
Eurico de Barros

Elenco e equipa

  • Realização:Guillermo del Toro
  • Argumento:Guillermo del Toro, Kim Morgan
  • Elenco:
    • Bradley Cooper
    • Cate Blanchett
    • Willem Dafoe
    • Toni Collette
    • Rooney Mara
    • David Strathairn
    • Richard Jenkins
    • Mary Steenburgen
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