O Fundador

Filmes, Drama
4 /5 estrelas
O Fundador

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Michael Keaton leva a reboque O Fundador, a história do homem que nos anos 50 passou a perna aos verdadeiros criadores do McDonald’s e criou o maior império mundial de fast food.

O homem que está na origem desse império global de pronto-a-comer-e-engordar e símbolo maior do capitalismo americano que dá pelo nome de McDonald’s, nem se chamava McDonald, nem foi na realidade o seu fundador, como nos conta, sob o seu título irónico, O Fundador, de John Lee Hancock. Na origem do McDonald’s estão dois irmãos, Rick e Mac, que nos anos 50 abriram o McDonald original em San Bernardino, na Califórnia e criaram o conceito de fast food. Comida prática, saborosa e fácil de ingerir, com uma ementa mínima (hambúrgueres, batatas fritas, batidos) servida aos clientes com muito pouco tempo de espera e a maior eficácia possível, e sem qualquer sofisticação (nada de pratos nem talheres, toca a sentar num banco ou na relva e a comer à unha).

Ray Kroc, interpretado por Michael Keaton, foi o obscuro vendedor de máquinas de batidos de leite que adivinhou o imenso potencial comercial do modelo de restaurante concebido pelos irmãos McDonald, que se associou a eles para desenvolver e expandir a todos os EUA a franquia da marca, muito a contragosto destes, acabou por os desapossar do nome e dos direitos de propriedade intelectual e os atirar para fora do negócio do pronto-a-comer. E pôs de pé o negócio multimilionário com presença planetária (e anticorpos por toda a parte), tal como o conhecemos hoje.

Além de ser a história dessa conflituosa relação entre o visionário, persistente e desonesto Kroc, e os laboriosos, cautelosos e éticos irmãos McDonald (Nick Offerman e John Carroll Lynch), O Fundador é também a história de duas concepções de negócio e de dinâmica capitalista antitéticas.

Os McDonald são a cara chapada do small business, os criadores de um negócio inteligente, amigo do cliente e plebiscitado por este, e próspero, cuja qualidade controlam minuciosamente. E que querem ver crescer, mas apenas a uma escala razoável, que possam continuar a monitorizar e sem nunca transigir com a eficiência e a qualidade originais. Um modelo de sucesso de negócio de proximidade e de capitalismo de rosto humano, identificado com os valores daqueles a quem se dirige, e em linha com a sociedade americana do pós-guerra, em vertiginoso crescimento económico e consolidação da classe média.

Ray Kroc, pelo seu lado, é o típico go-getter, o tipo ambicioso que se inspira a ouvir palestras de motivação pessoal em disco, que nunca desiste apesar de sucessivos falhanços (o filme apanha-o na ressaca de uma série de negócios envolvendo produtos excêntricos que foram ao fundo), que sabe reconhecer uma boa ideia quando a vê, que pensa em grande, muito grande e tem sentido do marketing, que quer ser um vencedor e ganhar muito dinheiro, quanto mais, melhor. (Sobretudo quando lhe fazem ver que o lucro não está nos hambúrgueres, mas sim nos terrenos onde os stands de venda são construídos.)

E Kroc não recua perante nada para o conseguir, inclusivamente passar a perna aos seus sócios da forma mais descarada e infame possível, e pelo caminho despachar a dedicada mulher (Laura Dern num papel algo ingrato) e roubar a de um seu cliente (Linda Cardellini), na qual descobre uma visão comercial e uma fome de sucesso afins (a grande cena de sedução de O Fundador consiste numa conversa telefónica entre esta e Kroc, sobre as potencialidades de um McDonald’s a construir perto de um novo estádio de basebol). Ele é um voraz tubarão de alto mar, enquanto que os irmãos McDonald são uns prudentes peixinhos de aquário suburbano.

Apesar de tudo isto, Hancock e o argumentista Robert Siegel (autor de O Wrestler) não lhe negam alguma admiração relutante e algum capital de mérito, iniciativa e determinação, embora a simpatia do filme esteja decididamente com os castiços, empreendedores e também persistentes irmãos McDonald, modestos e ingénuos, mas rectos e decentes. Só que no duelo entre a sofreguidão empresarial e as virtudes caseiras, estas são derrotadas por esmagamento e KO.

O Fundador sofre um pedaço por ser um filme sobre negócios, tem um lado sensaborão como a fast food de que fala. Há muitos telefonemas, muita entrada e saída de bancos, muitas reuniões, muitos diálogos explicativos sobre aspectos técnicos, financeiros, jurídicos, embora tenha momentos de satisfação visual, caso da sequência onde os McDonald ensaiam com a equipa de cozinheiros e ajudantes, num campo de ténis, o funcionamento do seu futuro restaurante.

Poucos actores como o inquieto, eléctrico, e tenso Michael Keaton, que num momento pode parecer um tipo simpático e cordato, e no seguinte tornar-se suspeito e ameaçador, seriam mais indicados para personificar Ray Kroc, o anónimo vendedor de máquinas de fazer batidos que se transformou num titã do capitalismo global. E o hiperactivo Keaton leva a reboque este filme sobre uma história de sucesso inconfundivelmente americana, que começou com um hambúrguer comido num banco de rua e acabou com o planeta inteiro a mastigá-los.

Detalhes

Detalhes da estreia

Classificação
12A
Data de estreia
sexta-feira 17 fevereiro 2017
Duração
115 minutos

Elenco e equipa

Realização
John Lee Hancock
Argumento
Robert D. Siegel
Elenco
Michael Keaton
Laura Dern
Linda Cardellini
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