The Wizard of the Kremlin
Photograph: Carole Bethuel © Curiosa Films – Gaumont

Crítica

O Mago do Kremlin

3/5 estrelas
Neste filme de Olivier Assayas, Jude Law interpreta Vladimir Putin e Paul Dano é Vadim Baranov, o seu homem de total confiança durante anos a fio no Kremlin.
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A Time Out diz

Quem é Vladimir Putin? Como é que ele apareceu na paisagem política da Rússia após o fim do comunismo? Quem é que o ajudou na sua ascensão ao poder e a instalar-se no Kremlin? Foi para responder a perguntas como esta que o consultor político e escritor italo-suíço Giuliano da Empoli assinou O Mago do Kremlin, uma obra de ficção com alicerces na realidade, publicada em 2022, pouco antes do início da guerra na Ucrânia. O narrador, um investigador que foi à Rússia em trabalho, é contactado, em Moscovo, por Vadim Baranov, antigo encenador de teatro e produtor de reality shows, que ajudou a levar Vladimir Putin ao poder e se tornou na sua “eminência parda” e homem de total confiança, antes de se retirar da vida política activa.

Baranov, cuja figura é inspirada muito livremente por Vladislav Surkov, um publicitário, homem de negócios e político, e durante muitos anos o principal conselheiro político de Putin, conta então toda a sua vida antes de entrar nos bastidores do poder e se tornar unha com carne com Putin. O que abrange cerca de três décadas da história recente da Rússia, começando nos anos 90, no pós-comunismo, abrangendo a Perestroika, a presidência de Boris Ieltsin, o advento dos oligarcas e o ambiente de total liberdade e de euforia social e artístico-cultural, mas também de violência e de caos político, e de desastre económico eminente vivido na Rússia de então.

Segue-se o aparecimento de Vladimir Putin, um homem do FSB (o organismo sucessor do KGB), escolhido pelo oligarca Boris Berezovsky (na altura o patrão de Baranov) e seus próximos como candidato a primeiro-ministro, e a sua subsequente eleição como Presidente, a anulação do poder dos oligarcas e a consolidação daquele no Kremlin, qual “novo Czar”. A guerra na Chechénia, o desastre do submarino nuclear Kursk e o sucesso mediático e de propaganda dos Jogos Olímpicos de Inverno de Sochi são alguns dos grandes acontecimentos dessa época também referidos por Baranov. Segundo este explica ao seu interlocutor a certa altura da sua conversa, o poder “é uma forma de expressão artística”.

O Mago do Kremlin era um livro actual e suculento demais para não ser adaptado ao cinema, e quem ganhou a corrida aos direitos foi o realizador francês Olivier Assayas, que os adquiriu em 2024 e começou de imediato a trabalhar no guião do filme, juntamente com o escritor e realizador Emmanuel Carrère, conhecedor da história e da cultura da Rússia, tendo Giuliano da Empoli como consultor. Para Assayas, o grande interesse do livro reside “na forma como nos fala do poder a partir do seu interior, e dos mecanismos do seu funcionamento”, neste caso específico, do poder na Rússia tal como Vladimir Putin o personifica, domina e dirige – através de uma pessoa que o conheceu por dentro, até ao mais pequeno pormenor, e aconselhou e privou com o seu maior e mais carismático representante –, e não visto e analisado de fora.

Assayas teve que escolher um elenco essencialmente anglo-saxónico, com um actor de língua inglesa e de primeiro plano a interpretar Vladimir Putin, ou então não teria conseguido o financiamento para rodar O Mago do Kremlin. Assim, Jude Law é Putin e o americano Paul Dano personifica Baranov. O interlocutor deste é agora um americano chamado Rowland (Jeffrey Wright). Ksenia, a grande paixão da vida de Baranov, e mãe da sua filha, é vivida por Alicia Vikander, e os oligarcas Boris Berezovsky e Dmitri Sidorov ficaram a caso dos britânicos Will Keen e Tom Sturridge, respectivamente. A Lituânia faz as vezes da Rússia no filme, por ser o país que, segundo o realizador, melhor passa visualmente por aquela. 

Entre outras alterações mais ou menos significativas feitas por Olivier Assayas e Emmanuel Carrère à narrativa de Giuliano da Empoli, o final do filme é (e de forma controversa) diferente do do livro. O que muda pouco e continua muito bem claro na fita, é a figura semi-maquiavélica de Sourkov/Baranov, e o seu singular percurso, de jovem encenador de teatro de vanguarda e frequentador dos meios culturais underground russos na década de 90, a homem forte de uma televisão privada detida por um dos mais ricos e influentes oligarcas, e finalmente a figura central da propaganda e da máquina de poder do Kremlin, e “homem na sombra” de Vladimir Putin, consultor e confiante deste, e ainda principal criador da sua imagem pública. 

Neto de um aristocrata anti-comunista e filho de um dignitário cultural da antiga URSS, intelectual e homem do terreno, simultaneamente testemunha e actor, observador lúcido e protagonista empenhado, com as mãos todas metidas na massa da política (ao mais alto nível como ao mais rasteiro) mas também dotado de muita capacidade de recuo para analisar os seus actos e os efeitos que têm, bem como reflectir sobre o seu comportamento e o de todos que gravitam em seu redor, Vadim Baranov é, mais do que Vladimir Putin, a figura mais complexa, fascinante e intrigante de O Mago do Kremlin.

Elenco e equipa

  • Realização:Olivier Assayas
  • Argumento:Emmanuel Carrère, Olivier Assayas
  • Elenco:
    • Paul Dano
    • Jude Law
    • Alicia Vikander
    • Jeffrey Wright
    • Tom Sturridge
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