O Pai

Filmes, Drama
Escolha dos críticos
3 /5 estrelas
O Pai

A Time Out diz

3 /5 estrelas

Anthony Hopkins é portentoso em ‘O Pai’, de Florian Zeller, que depende dele para transmitir a confusão, o desamparo e o horror da demência.

Em O Pai, de Florian Zeller, Anthony (Anthony Hopkins) é um octogenário que vive sozinho num amplo e confortável apartamento em Londres. Para grande preocupação da filha, Anne (Olivia Colman), Anthony tem o costume de afugentar em pouco tempo as cuidadoras que ela lhe põe em casa para o ajudar nas rotinas diárias, protestando que está muito bem assim e não precisa da ajuda de ninguém. Só que agora Anne vai para Paris com o marido e está em ainda maior cuidado com o pai. Por isso, vai tentar convencê-lo a aceitar uma nova cuidadora, a jovem e afável Laura (Imogen Poots), que Anthony acha muito parecida com a sua outra filha, Lucy, que não vê há muito tempo.

Mas, de repente, Anthony repara que tudo mudou à sua volta. Há um homem, Paul (Mark Gatiss) a viver no seu apartamento, que se apresenta como sendo o marido de Anne. A seguir, Anne é outra pessoa (Olivia Williams), e já não vai para Paris; e Paul, embora também não mude de nome como Anne, passa igualmente a ser um outro (Rufus Sewell). E dizem a Anthony que o apartamento é deles e que ele vive lá já há algum tempo. Pouco depois, a segunda Anne aparecerá na pele de ainda outra personagem. O que se está a passar? Será que os seus familiares estão a tentar confundir Anthony para o poderem internar e ficarem com o apartamento e a herança? Será O Pai um thriller psicológico-conspirativo?

A resposta é mais simples e mais terrivelmente dramática. Aquilo que nos está a mostrar Florian Zeller, autor da peça de teatro em que a fita se baseia, e também do argumento desta, com o seu colega Christopher Hampton, é o interior da cabeça de Anthony. Este sofre de demência e está, pouco a pouco, a perder o pé à realidade, a alienar todos os azimutes que lhe permitem compreender e organizar o mundo, movimentar-se nele, e a despedir-se da percepção da sua própria identidade. E durante todo este aflitivo processo, a câmara de Zeller mantém a mesma impassível compostura. O Pai é um filme de suspense em que o culpado não é uma pessoa mas sim uma doença degenerativa.

Enquanto cinema, O Pai é muito competente teatro filmado, cuja incómoda, angustiante e dolorosa eficácia depende a 99% da interpretação de Anthony Hopkins, que está na mesma faixa etária da sua personagem e é positivamente imperial do princípio ao fim. Quer nos momentos de lucidez em que Anthony enuncia a Anne as razões por que pode perfeitamente ficar sozinho, ou em que liga o interruptor do charme e conta umas balelas para impressionar a jovem Laura, antes de a mandar passear com veemente aspereza; quer nas alturas de desorientação e de desamparo, que culminarão numa sequência devastadora na clínica em que a filha o internou.

O retrato que Hopkins faz da experiência desta doença que todos temem e desejam que nunca lhes bata à porta, e que muitos conhecem por ter atingido pessoas próximas, é arrasadoramente crível e lancinantemente expressivo. E sem que por um momento que seja vejamos o trabalho por trás da interpretação, que o actor sinta a tentação do exibicionismo do seu talento ou que venha mendigar a nossa compaixão para a personagem. Esta não é a primeira vez que o cinema fala sobre esse lento naufrágio da apreensão do mundo e de nós mesmos que é a demência (recordemos Longe Dela, de Sarah Polley, ou O Meu Nome é Alice, de Richard Glatzer e Wash Westmoreland), mas graças a Anthony Hopkins, O Pai torna-se no filme de citação obrigatória.

Detalhes

Detalhes da estreia

Elenco e equipa

Realização
Florian Zeller
Argumento
Christopher Hampton, Florian Zeller
Elenco
Mark Gatiss
Anthony Hopkins
Olivia Colman
Olivia Williams
Imogen Poots
Rufus Sewell
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