O Paraíso, Provavelmente

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4 /5 estrelas
O Paraíso, Provavelmente

A Time Out diz

4 /5 estrelas

Há 20 anos, desde O Tempo que Resta, que Elia Suleiman não realizava uma longa-metragem (em 2012, participou com um segmento no filme colectivo 7 Dias em Havana). E quando vamos ver O Paraíso, Provavelmente, parece que O Tempo que Resta foi feito ontem. Suleiman continua com a mesma cara de ovo cozido com óculos e barba; continua a apresentar a mesma impassibilidade muda a 99% (só diz quatro palavras em O Paraíso, Provavelmente); a sofrer interiormente pela Palestina; a cultivar o mesmo tipo de comédia “branca”, autobiográfica e melancólica, entre a farsa e o nonsense, entre Buster Keaton e Jacques Tati, e a usá-la para meditar sobre a situação e a identidade do seu povo, a sua alienação cultural, a ausência de um lugar a que possa chamar pátria e a sua condição de árabe de Israel, sujeito a todo o tipo de pressões e indignidades.

Em O Paraíso, Provavelmente, Suleiman decide ir mais longe do que nos seus filmes anteriores e correr mundo, visitar a França e os EUA em busca de financiamento para o seu novo filme (que, numa brincadeira meta-cinematográfica é precisamente este O Paraíso, Provavelmente) e participar numa iniciativa pró-palestiniana. O olhar que o realizador e actor lança sobre os sítios que visita é exactamente o mesmo de quando está em casa, agudo de observação e atento à comédia do quotidiano e aos seus insólitos e absurdos, e Suleiman esmera-se em planos tirados a regra e esquadro, que aproveitam a beleza, a variedade e as particularidades da paisagem urbana de Paris e Nova Iorque (e a beleza das francesas, que o realizador aprecia sentado numa esplanada, numa montagem muito politicamente incorrecta para os dias de hoje).

Os gags, visuais ou outros, de O Paraíso, Provavelmente, nem sempre resultam, mas a maioria é muito boa, logo do de abertura, com os engraçadinhos que recusam abrir a porta do templo ao bispo ortodoxo durante uma cerimónia religiosa, até ao do pardal intrometido que não deixa Suleiman escrever ao computador no seu quarto em Paris, passando pela coreografia dos polícias franceses de patins e em Segways ou pelo sem-abrigo ao qual uma ambulância serve uma opípara refeição. E como sucede sempre nos filmes do realizador, a realidade pode resvalar para a fantasia num abrir e piscar de olhos. No Central Park, uma rapariga com umas asas de anjo perseguida pela polícia acaba por revelar mesmo qualidades sobrenaturais.

No entanto, o facto de Elia Suleiman ter saído do habitat dos filmes anteriores fez com que a carga política destes se esbatesse e atenuasse em O Paraíso, Provavelmente, e a fita perdesse em mordacidade e amargura satírica. No final, um Suleiman que voltou a casa, pouco convencido com o que viu além-fronteiras e concluindo que mais vale viver num sítio imperfeito mas familiar do que num lugar estranho onde nunca se conseguiria encaixar, contempla, num bar, uma nova geração que se diverte. E talvez se pergunte se será ela a ver a Palestina livre do futuro anunciada pelo vidente que consultou em Nova Iorque.

Por Eurico de Barros

Publicado:

Detalhes

Detalhes da estreia

Duração
0 minutos

Elenco e equipa

Realização
Elia Suleiman
Argumento
Elia Suleiman
Elenco
Elia Suleiman
Gael García Bernal
Ali Suliman