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Oppenheimer

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  • 2/5 estrelas
OPPENHEIMER
Photograph: Universal Pictures
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A Time Out diz

2/5 estrelas

Um pastelão sentencioso, trovejante e interminável, que não acrescenta nada de inédito ou significativo à história da criação da bomba atómica.

O novo filme de Christopher Nolan (Interstellar, Dunquerque), que dramatiza a vida do físico americano J. Robert Oppenheimer (Cillian Murphy) e o seu trabalho na II Guerra Mundial como principal mentor do Projecto Manhattan e director do Laboratório de Los Alamos em que foi criada a bomba atómica, as primeiras das quais foram então lançadas pelos EUA sobre as cidades japonesas de Hiroshima e Nagasaki, e é baseado numa biografia publicada em 2005, American Prometheus, pode ser resumido numa simples sigla: DDBI. Isto é, Didáctico, Demonstrativo, Barulhento e Interminável.

Ora a cores ora a preto e branco, e ao longo de laboriosas três horas, Oppenheimer, além de falhar na tentativa de sintetizar e tornar minimamente claras ao espectador as complexidades da física nuclear e da concepção teórica e consequente fabrico de um engenho atómico, recorrendo para o efeito ao fatigado dispositivo de juntar pessoas – cientistas, neste caso – em laboratórios e salas de aula e de reuniões a debitar informação que parece ter sido levantada de um manual de física do ensino secundário, ou de fichas de apoio escolar da respectiva disciplina, lança mão de todos os lugares-comuns, situações feitas, estereótipos e simplificações do filme biográfico. E aplica-os à vida familiar e íntima e à actividade profissional de Oppenheimer, aos dilemas morais que o assaltaram pós-fabrico e lançamento da bomba, e aos problemas políticos que teve no tempo da Guerra Fria por causa das suas simpatias ideológicas.

Christopher Nolan recorre também, de forma totalmente desnecessária, ao aparato visual e sonoro do IMAX, para reforçar com espalhafato o didactismo e o dramatismo do filme. É o equivalente cinematográfico de usar um marcador de traço grosso e fluorescente para sublinhar um texto em que está tudo explícito. A omnipresente e ensurdecedora banda sonora de Ludwig Göransson tem um papel central nesta estratégia de pontuar e frisar tudo o que acontece no filme com uma insistência invasora, para chamar a atenção da “importância” do que está a acontecer, vai suceder ou está a ser dito pelas personagens. O realizador desvaloriza assim a importância expressiva e emocional do silêncio e das pausas, e menoriza a capacidade dos actores para transmitirem aquilo que é importante. Não há um grande plano que seja da cara de Oppenheimer em reflexão, interrogação, hesitação ou agonia interna que escape ao tonitruante acompanhamento da música de Göransson.

Subtileza, sugestão, implícito, são palavras que não existem no vocabulário formal e dramatúrgico de Oppenheimer. Nolan realizou um filme tão cheio de si mesmo e tão exibicionista da sua pseudo-relevância, como balofo, demonstrativo e incapaz de acrescentar seja o que for de inédito ou significativo à história da criação da bomba atómica ou à da vida de J. Robert Oppenheimer, ou mesmo à reflexão sobre o fenómeno da proliferação nuclear desencadeado pela Guerra Fria. Como o comprova o pré-fabricado discurso hollywoodesco final do físico, sobre a possível destruição da humanidade pela arma nuclear.

Três longas, arrastadas e industriosas horas depois, o que fica de Oppenheimer é a palpitante sequência do teste da primeira bomba atómica no deserto de Los Alamos (e que nos leva a pensar que talvez o filme tivesse ganho muito em ser essencialmente centrado na história do fabrico da bomba no complexo construído pelo governo dos EUA no meio do deserto do Novo México, e nos confrontos e choques de feitios, egos, teses e interrogações morais que lá se deram); e as interpretações, com destaque para a de Cillian Murphy no assombrado Oppenheimer e a de Matt Damon no general Leslie Groves, director do Projecto Manhattan. Quase tão boa como a de Paul Newman no mesmo papel em Sombras no Futuro, o muito maltratado filme sobre este mesmo tema que Roland Joffé realizou em 1989. E que conviria reavaliar à luz do sentencioso e trovejante pastelão que é Oppenheimer.

Escrito por
Eurico de Barros

Elenco e equipa

  • Realização:Christopher Nolan
  • Argumento:Christopher Nolan
  • Elenco:
    • David Dastmalchian
    • Matt Damon
    • Cillian Murphy
    • Emily Blunt
    • Florence Pugh
    • Rami Malek
    • Gary Oldman
    • Alden Ehrenreich
    • Jason Clarke
    • Robert Downey Jr
    • Kenneth Branagh
    • Matthew Modine
    • Tom Conti
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