Os Tradutores

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2 /5 estrelas
Os Tradutores

A Time Out diz

2 /5 estrelas

Foi Agatha Christie quem criou e popularizou, na literatura policial, o modelo de enredo em que um grupo de pessoas fica isolada numa casa remota e um assassino começa a matá-las uma a uma. Os membros do grupo têm que correr contra o tempo para descobrirem qual dentre eles é o criminoso, e o que é que o motiva na sua senda assassina. O filme policial franco-belga Os Tradutores, de Régis Roinsard (A Dactilógrafa), estreado na HBO, pega neste formato consagrado e já muito explorado – inclusive no cinema – e dá-lhe uma voltinha espertalhona, fazendo o espectador crer que vai ver uma coisa, para afinal sair-lhe outra.

Eric Angstrom (Lambert Wilson), um poderoso editor, vai lançar o último volume de uma popularíssima trilogia escrita pelo misterioso Oscar Brach, cuja identidade só ele conhece. Para evitar que haja fugas na internet, Angstrom contrata nove tradutores dos nove países em que os dois livros anteriores de Brach melhor se venderam (no grupo está uma portuguesa, Telma Alves, interpretada por Maria Leite, com aspecto pós-punk e que pragueja como uma carroceira) e fecha-os, sem telemóveis nem acesso à net, no luxuoso bunker anti-ataque nuclear que um milionário russo mandou construir num castelo no interior de França.

São dadas dez páginas de cada vez a cada um dos tradutores (personificados por nomes como Olga Kurylenko, Eduardo Noriega, Alex Lawther ou Riccardo Scamarcio) que estão vigiados por seguranças armados e de má catadura. Terão um mês para traduzir, nas respectivas línguas, as 480 páginas do último volume da trilogia bestseller do enigmático Brach, que nunca tinha publicado nada antes. Mas apesar de todos estes cuidados, essas primeiras dez páginas do manuscrito aparecem online, num site anónimo, com uma ameaça. Se Angstrom não pagar uns consideráveis milhões de euros, continuarão a ser divulgadas mais páginas da obra na net. E quanto mais tempo ele demorar a pagar, mais a quantia aumenta.

Em Os Tradutores, não se trata, assim, de procurar um assassino num espaço fechado e isolado do mundo, mas sim um pirata literário. Que, pela lógica, terá de ser um dos nove tradutores reunidos por Eric Angstrom no bunker. Mas em vez de manter o filme entre quatro paredes, como um huis clos clássico, e o enredo centrado na descoberta da identidade do pirata (ou piratas), Regis Roinsard vai complicando cada vez mais a história, multiplica-se em flashbacks e flashforwards, começa a coleccionar inesperados e a dar piruetas a todo o pé de passada, transformando Os Tradutores num filme mais retorcido do que um parafuso e excessivamente artificioso, até forçar a nota da verosimilhança. Metendo, lá pelo meio, algumas notas sobre como quão ingrato, pouco reconhecido e mal pago é o ofício de tradutor.

Este é um daqueles filmes que não só ignora que, muitas vezes, menos é mais, como julga que mais é sempre melhor, quando costuma ser é demais. Há muitos livros que precisam de um editor para lhes cortar as gorduras. Os Tradutores tinha beneficiado de alguém que lhe tivesse peneirado o argumento da palha de peripécias, golpes de rins e surpresas que contém, e que acabam por o tornar enfadonho e implausível, em vez de empolgante e inventivo.

Por Eurico de Barros

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