Quatro Dias a Teu Lado

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3 /5 estrelas
Quatro Dias a Teu Lado

A Time Out diz

3 /5 estrelas

Em ‘Quatro Dias a Teu Lado’, Glenn Close é uma mãe devotada e Mila Kunis uma filha toxicodependente que se quer curar. É um filme acima da média para o tema.

Quando se deu o boom do vídeo, nos anos 80, os videoclubes portugueses encheram-se de telefilmes americanos, que eram um dos recursos das pequenas editoras sem acesso aos catálogos dos grandes estúdios. Entre esses telefilmes encontravam-se muitos sobre famílias afligidas por filhos ou filhas toxicodependentes (estávamos na época do auge da cocaína nos EUA), e vários deles punham em cena uma terapia muito divulgada nessa altura, o chamado “tough love” (ou “amor duro”), segundo a qual os pais, por muito que lhes custasse, não deviam ceder um milímetro aos filhos durante o tratamento, por maior que fosse o seu sofrimento e por mais que eles implorassem.

Tal como alguns destes telefilmes, Quatro Dias a Teu Lado, de Rodrigo García (Mães e Filhas), assenta num facto real que envolveu uma mulher divorciada e a sua filha, respectivamente, Amanda Wendler e Libby Alexander, e o argumento foi tirado de um artigo do Washington Post da autoria do jornalista Eli Saslow, que também escreveu o guião com o realizador. No filme, Deb (Glenn Close), uma mãe divorciada, procura ajudar uma das suas duas filhas, Molly (Mila Kunis), viciada em heroína, ao longo dos quatro dias em que ela tem que esperar até começar um novo tratamento para se desintoxicar.

Quando Molly lhe aparece à porta de casa totalmente devastada, depois de lhe ter roubado e vendido muitas coisas de estima e valor para alimentar o vício, de ter tentado largá-lo por várias vezes e não ter conseguido, de ter perdido a sua confiança e desaparecido durante muito tempo, Deb recusa-se a ajudá-la. Nem sequer lhe dá entrada em casa e Molly é reduzida a dormir no relvado da frente. E quando Quatro Dias a Teu Lado parece ir transformar-se num filme melodramático de tough love actualizado para a era da crise dos opióides nos EUA (Molly viciou-se na heroína depois de ter ficado dependente de Oxycontin, quando se lesionou a fazer desporto), a mãe decide dar-lhe uma última oportunidade.

A fita de Rodrigo García junta-se a títulos recentes como Beautiful Boy, de Felix van Groeningen, ou O Ben Está de Volta, de Peter Hedges, ambos rodados em 2018. Neles, um pai ou uma mãe procuram, apesar de todas as dúvidas e temores que os assaltam, e chegando a correr riscos pessoais (veja-se o mergulho no submundo do tráfico no subúrbio em que vive, dado pela personagem de Julia Roberts em O Ben Está de Volta), tirar os filhos da droga e do mundo de sordidez e degradação em que se tinham precipitado, e orientá-los para a recuperação e uma superação definitiva da dependência.

Apesar de também seguir esta matriz narrativa reconhecível e previsível, Quatro Dias a Teu Lado fá-lo com um pouco mais de realismo, veracidade e sobriedade na encenação dramática e na extracção de dividendos emocionais do que os filmes acima citados. Rodrigo Garcia contorna os estereótipos do confronto histerizante e da redenção pronta-a-usar, mantendo sempre a plausibilidade, quer no compreensível misto de esperança e de dúvida que Deb sente perante a capacidade de Molly não fraquejar, quer no comportamento incerto desta durante o punhado de dias em que tem que aguardar pelo início do tratamento – até não conseguir resistir mais, mentir à mãe e ir tomar uma última dose.

Close e Kunis têm interpretações correctas. A primeira sem forçar a nota do desespero da mãe dividida entre o desejo que a filha se cure e o terror de a ver soçobrar mais uma vez (que poderá ser a última); a segunda sem carregar no exibicionismo do sofrimento da junkie que bateu no fundo e se debate para sair de lá. E se há uma coisa que Quatro Dias a Teu Lado podia muito bem dispensar, é aquele piano omnipresente na banda sonora, que vem apenas sublinhar o óbvio que decorre das imagens e das interpretações, e introduzir no filme uma teimosa e irritante nota lamechas.

Detalhes

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Elenco e equipa

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