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Roda da Fortuna e da Fantasia

  • Filmes
  • 4/5 estrelas
Filme, Cinema, Drama, Romance, Roda da Fortuna e da Fantasia (2021)
©DRRoda da Fortuna e da Fantasia de Ryûsuke Hamaguchi
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A Time Out diz

4/5 estrelas

A crítica de cinema do The New York Times Manohla Dargis chamou “talkathons” (“maratonas de conversa”) aos filmes do japonês Ryusuke Hamaguchi. Fala-se muito nas fitas do autor de Happy Hour: Hora Feliz (mais de cinco horas de palheta) e Asako I & II (duas horas de dar à língua). Hamaguchi é um daqueles realizadores cujas personagens se definem, relacionam e revelam pelo verbo. A palavra é o veículo privilegiado das suas vidas íntimas e sentimentais e dos seus comportamentos, o grande revelador de si mesmas.

Os filmes do realizador, de um realismo discreto e de um profundo sentido do tecido, dos matizes e dos ritmos do quotidiano, são filmes de acção verbal, da qual a câmara, a banda sonora e a montagem funcionam como recatadas serviçais, onde os diálogos fluem com tanta naturalidade e à-vontade como a narrativa visual, e se evitam os sobressaltos melodramáticos. Embora expressem a maneira particular japonesa de ser, estar, sentir e perceber o mundo, não é por isso que não deixam de ter uma reverberação universal. Embora inferior em estrutura de enredo e em complexidade emocional e psicológica aos citados Happy Hour: Hora Feliz e Asako I & II, Roda da Fortuna e da Fantasia (Grande Prémio do Júri no Festival de Berlim) não desiludirá os admiradores do cinema de Ryusuke Hamaguchi. O filme é composto por três histórias. Na primeira, Gumi, uma rapariga, modelo fotográfico, conta à amiga, Meiko, que conheceu um rapaz fascinante, que entre outras coisas lhe contou o desgosto que teve quando a namorada rompeu com ele. Gumi não faz a menor ideia que Meiko era essa namorada, que a seguir vai confrontar o ex-namorado no seu escritório. Na segunda, uma estudante universitária casada que tem como amante um colega mais novo, é enviada por este para seduzir um professor que o humilhou, e o chantagear a seguir, mas a iniciativa vai ter um resultado muito diferente do pretendido. E na terceira, uma mulher, que veio a uma reunião de antigas alunas do liceu, encontra uma outra na estação de comboios, gerando-se uma situação equívoca. Julgam conhecer-se, o que afinal não acontece, mas estas duas estranhas acabam por confessar coisas das suas vidas uma à outra como se fossem amigas de longa data.

Não há qualquer relação entre as personagens do trio de histórias, nem ligações ou pontes formais entre estas. Além da ressonância emocional das várias situações humanas que Ryusuke Hamaguchi põe em cena em cada uma delas, este tríptico de ficções tem em comum a importância fulcral, activa, da palavra (as conversas entre o trio amoroso da primeira, a leitura sensual do livro premiado do professor pela aluna na segunda, os diálogos confessionais entre as duas mulheres do terceiro), o recurso narrativo à coincidência, ao mal-entendido, ao acaso e ao lapso, e ainda uma serenidade no contar, e uma discreta elegância e delicadeza visual, sob as quais o realizador orienta o abundante trânsito de sentimentos, recriminações, desejos, dúvidas e frustrações que animam as várias personagens e as atraem, unem, repelem ou identificam. E tudo passado sempre num enquadramento do mais banal e reconhecível dia-a-dia: táxis, cafés, gabinetes, autocarros, salas de estar, no meio da rua.

Aguardamos agora com expectativa a estreia do segundo filme que Ryusuke Hamaguchi realizou em 2021, Conduz o Meu Carro, Prémio do Melhor Argumento no Festival de Cannes. Mais três horas de prosa densa, envolvente, significativa e emotiva como apenas ele a sabe escrever, dar aos actores a dizer e filmar no cinema japonês contemporâneo.

Escrito por
Eurico de Barros

Elenco e equipa

  • Realização:Ryusuke Hamaguchi
  • Argumento:Ryusuke Hamaguchi
  • Elenco:
    • Kotone Furukawa
    • Katsuki Mori
    • Shouma Kai
    • Fusako Urabe
    • Ayumu Nakajima
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