Sentinelle

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1 /5 estrelas
Sentinelle

A Time Out diz

1 /5 estrelas

‘Sentinelle’ desperdiça as qualidades de Olga Kurylenko e é um dos piores filmes estreados na Netflix recentemente

O cinema de guerra e de acção em geral tem abusado de tal forma da câmara lenta, que esta figura de estilo acabou por cair na vulgarização. E não é nada bom sinal quando um filme, logo nas sequências iniciais, recorre à câmara lenta, de forma tão forçada quanto desnecessária, para chamar a atenção do espectador. É o que acontece em Sentinelle, de Julien Leclercq, estreado na Netflix. Na Síria, Klara (Olga Kurylenko), sargento do Exército francês, assiste impotente à morte de um camarada, quando um miúdo, incitado pelo pai, faz detonar um cinto de explosivos. O óbvio horror da situação dispensava por completo a ênfase do movimento lento.

Traumatizada, Klara é reenviada para França e, na cidade de Nice, onde vive com a mãe e a irmã mais nova, vê-se integrada na Operação Sentinelle, criada em 2015 com o objectivo de proteger do terrorismo zonas mais sensíveis do território francês. Mas ela não está bem e chega a recorrer a um dealer local para conseguir fármacos ainda mais fortes do que aqueles que o médico militar lhe receita. Após ter saído uma noite para dançar com a irmã, esta é encontrada numa praia, espancada, violada e em coma. Fora de si, Klara começa a investigar por conta própria e as pistas levam-na ao filho de um milionário russo que tem casa na cidade.

Está mais do que claro que Sentinelle é um típico “revenge movie”, uma história de vingança pessoal, de inspiração americana. Não tenho nada contra as fitas do género, tudo pelo contrário, desde que sejam bem feitas. Mas não é o que sucede aqui, já que Julien Leclercq (também co-autor do argumento) não se fica apenas por seguir, sem qualquer imaginação ou rasgo de originalidade, a pauta de situações feitas, personagens tipificadas e violência quebra-ossos e balística do “revenge movie”. Isso até era o menos. O problema é que Sentinelle é uma confusão pegada, um filme de onde a coerência, a continuidade e a verosimilhança se ausentaram para parte incerta.

Klara age da forma mais absurda possível, por exemplo, entrando de arma em punho em pleno dia (e por duas vezes!) em casa do milionário russo como se esta fosse uma quinta de portão escancarado, sem câmaras de vigilância nem seguranças atentos; e não é alvo de qualquer queixa nem punição depois de ter andado à pancada na discoteca com os dois guarda-costas do filho do milionário russo, e destruído a casa de banho dos homens; mais tarde, consegue escapar-se da casa daquele em Paris, mesmo gravemente ferida, com as saídas cortadas e um pelotão de soldados das forças especiais de intervenção atrás dela. Quanto ao final, no Dubai, é de rebentar a rir, embora a intenção do realizador não fosse essa. (E não se percebe porque é que Julien Leclercq achou por bem informar-nos que Klara é lésbica, como se isso tivesse qualquer relevância para a psicologia ou a motivação da personagem, ou para o enredo.)

Escrito às três pancadas e filmado sem trelho nem trabelho, Sentinelle é um filme estúpido como uma bota de tropa. E indigno da ex-“Bond girl” Olga Kurylenko, que é mulher bonita, actriz meritória, fotografa muito bem e mostra-se plenamente convincente nas sequências de pancadaria e de acção, como aquela em que, no hospital, “arruma” com a assassina profissional enviada pelo oligarca russo para a calar de vez. Kurylenko é uma mulher de armas metida num filme que só dispara pólvora seca. Se Sentinelle fosse militar, era daqueles soldados rasos tão obtusos que estão permanentemente de serviço às latrinas da caserna.

Por Eurico de Barros

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