Sibéria

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2 /5 estrelas
Sibéria

A Time Out diz

2 /5 estrelas

Em Sibéria, Abel Ferrara procura filmar o mundo onírico e do subconsciente, mas não nos consegue convencer.

Estão já muito distantes os tempos em que Abel Ferrara saía de câmara em riste para as ruas e os antros de vício de Nova Iorque, e muito especialmente da sua Bronx natal, para rodar policiais violentos, crus e moralmente sombrios como Vingança de uma Mulher, Nova Iorque, Duas Horas da Manhã, A Rapariga da China, O Rei de Nova Iorque ou Polícia Sem Lei, dramas de família crispados e intensos como O Funeral e R Xmas-O Nosso Natal ou ainda fitas de vampiro fora da norma como Os Viciosos.

Ferrara, que vive em Itália desde os ataques terroristas de 11 de Setembro, passou a filmar muito na Europa e a tentar construir uma reputação de realizador “autorista” com preocupações intelectuais e até mesmo espirituais. Mas a verdade é que já há muito tempo que não assina uma fita à altura dos seus tempos nova-iorquinos e das histórias ambientadas nas “mean streets” da cidade. Sibéria é mais um daqueles filmes que fica aquém das intenções e das ambições do realizador, que talvez não tenha bem consciência dos seus limites criativos. Mais uma vez interpretado pelo actor favorito do realizador, Willem Dafoe, Sibéria é uma desconcertante, desarticulada e opaca tentativa de dar expressão cinematográfica não só ao mundo dos sonhos como à vida do subconsciente. Jung anda algures por aqui, mas de forma tão vaga como simplista. Dafoe personifica Clint, um americano que vive algures na tundra árctica, dirigindo um pequeno bar onde vão beber inuítes, caçadores e avozinhas russas. Entre servir vodkas, ir para a cama com uma bela cliente, ver outro jogar flippers e sair de trenó com os cães, Abel Ferrara filma o mundo onírico e interior de Clint: medos, remorsos, recordações, problemas familiares mal resolvidos, visões, terrores profundos.

E é tudo muito pouco imaginativo, bastante banal, superficialmente simbólico ou simplesmente incompreensível. Clint ora sonha que está a ser atacado por um urso no bar, ora lhe aparece, numa caverna, o pai (também interpretado por Dafoe) com a cara cheia de espuma da barba. Ora troca recriminações com uma mulher do seu passado (com a qual poderá ter sido casado ou não), ora é visitado por um estranho indivíduo que poderá ser uma entidade maléfica e com o qual acaba a dançar ao som de “Runaway”, de Del Shannon – um dos momentos inadvertidamente risíveis de Sibéria.

Ferrara não consegue dar um sentido perceptível, um mínimo de ordem, um semblante de associação entre todos estes elementos, que parecem coexistir na maior arbitrariedade. Uma das poucas coisas que conseguimos perceber da mole de sequências oníricas, irracionais e subliminares que formam Sibéria, é que Clint tinha problemas com o pai. A partir de certa altura, desistimos pura e simplesmente do filme, perdemos o pouco interesse que tínhamos nas deambulações e nos encontros da personagem no mundo real e no interior de si mesmo. E não é o peixe falante do final que nos vai convencer nem dos eventuais méritos de Sibéria, nem de que Abel Ferrara tinha coisas muito profundas e relevantes para nos comunicar através dele.

Por Eurico de Barros

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