O melhor roteiro da EN2

A EN2 começa em Chaves, num modesto marco quilométrico, numa rotunda discreta, e termina Faro. É maior estrada do país, ligando-o de uma ponta a outra, num trajecto de 738 quilómetros

Ponte romana em Chaves
DRPonte romana em Chaves

Quando pensamos em férias, pensamos em praia. Quando pensamos em road trips, pensamos numa viagem longa pela costa Alentejana. Ou, os mais ambiciosos, numa ida aos EUA para fazer a route 66. Em Portugal, quando pegamos no carro é para ir de A para B – não é para percorrer o alfabeto todo. Podemos dizer, armados em chatos, que não há cultura de fruição rodoviária em Portugal. Podemos. Mas não podemos dizer que nos faltam oportunidades para percorrer grandes extensões de alcatrão. Sobretudo quando temos entre nós uma das maiores e mais antigas estradas do mundo: a Estrada Nacional 2. São 738 quilómetros que fatiam o país ao meio, mas que ainda não existem enquanto roteiro turístico – é só alcatrão, uns marcos quilométricos à beira da estrada, umas faixas a promover este itinerário e nada mais. Serve o presente guia para convidar toda a gente a fazer- se à estrada, a conhecer a EN2 e a explorar Portugal. É, também, uma forma de promover o interior do país e fazer com que a expressão “interior do país” deixe de significar apenas desertificação, esquecimento e pobreza. Há muitos “portugais” dentro de Portugal e estão todos unidos por uma linha de setecentos e tal quilómetros que vai de Chaves a Faro. Da próxima vez que pensar em férias, pense na EN2.

O melhor roteiro da EN2

Etapa 1 – de Chaves a Vila Real
Coisas para fazer

Etapa 1 – de Chaves a Vila Real

Um périplo-postalinho por Chaves tem de incluir uma passagem pela Ponte de Trajano, construída pela sétima legião (de romanos, não a banda de “Por quem não esqueci”) e que resiste até aos dias de hoje como testemunho da extrema competência desse império na área das obras públicas. A ponte atravessa um Tâmega airoso, domesti- cado, que parte a cidade ao meio. Na margem Norte, o centro histórico, a Sul o Jardim Público. A flora deste pequeno e tranquilo parque parece determinada a es- tragar o dia a todos aqueles que são alérgicos ao pólen. As outras pessoas todas podem aproveitar para dar um passeio. Já agora, o marco do Km 0 da EN2 fica mesmo ao ao lado.  O centro histórico de Chaves parece o modelo a partir do qual se fizeram todos os centros históricos portugueses: há um caste- lo no ponto mais alto com a indispensável torre de menagem, um pelourinho, uma igreja matriz (esqueça: a Igreja da Misericórdia é mais bonita) e os Paços do Concelho. O que há de mais particular na cidade, para além de um intrigante número de croissanterias, são as suas casas coloridas, com varandas de madeira empoleiradas para a rua. É essencial passear pela Rua Direita e artérias adjacentes para sentir o coração da cidade velha pulsar. A estrada nacional enquanto ponto de atracção turístico é pouco ou nada explorado na cidade. No posto de turismo não havia qualquer mapa, guia ou roteiro, mas não faltavam folhetos para explicar aos estrangeiros como pagar as SCUT.

Etapa 2 – de Vila Real a Viseu
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Etapa 2 – de Vila Real a Viseu

Eis-nos chegados à capital de Trás-os-Montes e Alto Douro, cidade que o nosso GPS insiste em confundir com Vila Real de Santo António, uns quilometrozinhos mais a Sul. Foi deste sítio à beira do rio Corgo que saiu Diogo Cão, o navegador pioneiro a estabelecer relações com o reino do Congo, em mais um momento enternecedor de geografia. A Casa Diogo Cão (Rua Irmã Virtudes, 4) fica no centro de Vila Real. É uma casa típica da segunda metade do século XV que foi resistindo à passagem do tempo, dando-nos, hoje, uma oportunidade rara para perceber como eram as casas típicas daquele tempo. E não, não há nenhum veterinário em Vila Real com o mesmo nome. Diogo Cão pode ter descoberto a foz do rio Zaire, sim senhor, não está mau, mas não descobriu o que acontece ao juntar amêndoas, ovos e açúcar numa massa em forma de crista de galo como fez a Casa Lapão (Rua da Misericórdia, 64). Esta pastelaria especializada em doçaria conventual arranjou a sua própria maneira de dar novos mundos ao mundo – criando ou divulgando especialidades únicas como as já citadas cristas de galo, os toucinhos do céu, os pitos de Sta. Luzia (é massa quebrada com abóbora e canela, não sejam porcos) e os antoninhos (uns pastéis de doces de ovos e gila). É um lugar essencial para todas aquelas pessoas que querem ver o sangue nas suas veias cristalizar. Se comprou umas calças muito largas e não quer gastar dinheiro num cinto, também pode passar aqui uma tarde a provar estas especialidades. Mas o ex-líbris de Vila Re

Etapa 3 – de Viseu à Sertã
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Etapa 3 – de Viseu à Sertã

Diz-se de Viseu que é a cidade do país com mais rotundas. O mito é tal que há quem acrescente que os moradores da zona têm de trocar os pneus do carro com regularidade, porque estes ficam gastos de tanto curvar à esquerda. Se não se entusiasma com a ideia de contornar dezenas de circunferências no meio do alcatrão, não desespere. A cidade tem outros pontos de interesse. A começar pelo Museu Grão Vasco, no centro histórico de Viseu, um dos museus mais antigos do país, que alberga uma impressionante colecção de arte sacra composta sobretudo por obras do pintor quinhentista Vasco Fernandes – o tal Grão Vasco. Se não é fã de arte sacra, fique a saber que há também peças de porcelana, mobiliário, escultura, joalharia e numismática para ver. Faça aquele jogo de fingir que está no Ikea a comprar móveis para a casa e comente assim os hostiários e os aparadores: “Isto deve dar uma grande chatice para limpar”. A Sé Catedral fica mesmo em frente ao museu, pelo que o pacote Viseu Turismo Religioso pode ser cumprido rapidamente. Se sobrar tempo, dê um passeio pelo centro histórico – a cidade está a investir bem em esplanadas – e vá até à Casa do Miradouro ver como eram os grandes investimentos do imobiliário no século XVI.

Etapa 4 – da Sertã a Montemor-o-Novo
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Etapa 4 – da Sertã a Montemor-o-Novo

A Estrada Nacional embrenha-se pela Sertã adentro. Perdemos-lhe o rumo, andamos às voltas, mas se existe um bom sítio para andar perdido esta vila é um deles. Tem um castelo, uma igreja matriz, uma ponte filipina, uma praça com um coreto e uma ribeira, elementos que facilitam a vida a qualquer pessoa a precisar de indicações. Por estar no centro do país, quase a meio da EN2, muito perto do Zêzere e próxima de várias Aldeias de Xisto, a Sertã é uma base perfeita para explorar o interior português. E para descansar depois de fazer muitos quilómetros.

Etapa 5 – de Montemor-o-Novo a Faro
Coisas para fazer

Etapa 5 – de Montemor-o-Novo a Faro

Antes de se fazer à estrada, impõe-se uma volta demorada pelo centro histórico de Montemor-o-Novo, uma passagem pelas ruínas do castelo, uma vista de olhos ao Santuário da Nossa Senhora da Visitação e ao Chafariz da Vila. Mas grande parte da riqueza de Montemor está nos seus monumentos megalíticos: há antas e menires capazes de fazer Obelix salivar. Os Menires da Pedra Longa e a Anta-Capela de Nossa Senhora do Livramento merecem uma visita. Beba uma bica antes de se agarrar ao volante porque terá pela frente uma série de rectas soporíferas.

10 canções para a road trip perfeita
Música

10 canções para a road trip perfeita

Por muito boas que sejam as rádios locais, às vezes o que precisamos mesmo é de uma mão cheia de canções que estejam sem sintonia com o asfalto. Esta é a nossa proposta.